Análise: Debate entre Lula e Flávio é dominado por baixaria e termina sem vencedor
O primeiro debate presidencial desta eleição a contar com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), realizado neste domingo, 18, pela TV Bandeirantes, foi marcado menos pela apresentação de propostas e mais por ataques pessoais, acusações de corrupção e provocações. Em um confronto que pareceu direcionado mais a torcidas organizadas que a eleitores indecisos, nenhum dos dois saiu claramente vencedor. O resultado mantém aberta a disputa pela Presidência a uma semana do segundo turno.
Flávio Bolsonaro adotou uma estratégia de confronto permanente, com baixaria ao estilo de Pablo Marçal, numa aparente tentativa de tirar o rival petista do sério. Lula, que começou o encontro defendendo um debate civilizado, entrou no jogo do adversário e escalou as críticas pessoais, embora tenha conseguido recuperar a compostura nos blocos seguintes. Ao mesmo tempo, buscou explorar o medo de parte do eleitorado em relação à possível perda de poder de compra e de direitos trabalhistas em um eventual governo Bolsonaro.
O resultado foi um debate com poucos momentos de discussão sobre políticas públicas, mas com abundância de frases de efeito e episódios de tensão que devem alimentar uma disputa de cortes nas redes sociais.
Uma das táticas mais ostensivas de Flávio foi permanecer atrás de Lula, dentro do enquadramento das câmeras, fazendo caretas e gestos de deboche enquanto o presidente falava. A postura rendeu memes nas redes sociais e reclamações do petista e de sua equipe à organização do debate. Lula demonstrou irritação com a tática, o que beneficia Flávio. O senador, no entanto, abusou do recurso e virou meme nas redes sociais.
Acusações sem respostas
A estratégia de Flávio também passou por evitar respostas diretas a perguntas concretas de Lula, conduzindo as intervenções para assuntos de sua própria agenda, sobretudo acusações de corrupção contra o PT e familiares do presidente. A tática repetiu a adotada na entrevista concedida à TV Globo na sexta-feira, 16, quando Flávio também buscou deslocar questionamentos para temas politicamente mais favoráveis à sua candidatura.
O senador deixou de explicar, por exemplo, por que votou contra a ampliação da licença-maternidade de mulheres quando era deputado estadual. Em vez de responder à pergunta, trouxe à discussão uma entrevista concedida à CNN Brasil pela lobista Roberta Luchsinger, investigada por suspeitas relacionadas às fraudes no INSS e próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Na entrevista, exibida na véspera, ela se disse ofendida por ter sido chamada de "pilantra" pelo presidente e o classificou como mentiroso e senil.
Flávio tampouco respondeu diretamente se considera o governo do presidente argentino Javier Milei um modelo para o Brasil e evitou explicar, ao ser questionado por Lula, sua atuação como advogado de um policial acusado de matar uma criança de cinco anos com um tiro de fuzil.
Ao longo do confronto, o senador insistiu em associar o presidente e sua família a suspeitas de corrupção. Chegou a afirmar que Lula havia sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que é falso. As condenações do petista na Operação Lava Jato ocorreram na primeira instância e foram posteriormente anuladas pelo STF.
Lula também evitou responder a temas espinhosos. Ao ser confrontado sobre Roberta Luchsinger, limitou-se a afirmar que as suspeitas seriam investigadas pela Polícia Federal. O presidente tampouco respondeu sobre o conteúdo de um áudio atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, no qual ele supostamente teria afirmado ter destinado recursos a um filme sobre Lula. A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal negaram que Vorcaro tenha feito essa declaração em depoimentos, e a defesa do empresário afirmou desconhecer a autenticidade do arquivo.
Os casos do INSS e do Banco Master dominaram boa parte dos embates diretos. Lula também tentou associar Flávio às suspeitas envolvendo Vorcaro e questionou a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, acusando o irmão do senador de trabalhar contra os interesses brasileiros. A troca de acusações envolvendo familiares, embora engaje os eleitores de ambos os lados, historicamente não convence indecisos.
Apesar da irritação inicial com as provocações do adversário, Lula apresentou um desempenho mais consistente nos blocos seguintes. Um de seus melhores momentos ocorreu ao abordar a mortalidade durante a pandemia de covid-19 e responsabilizar a gestão de Jair Bolsonaro pela condução da crise sanitária. O petista conseguiu levar Flávio a fazer uma autocrítica sobre o governo do pai, admitindo que o desempenho na área da saúde "não foi o melhor".
O presidente também conseguiu colocar o adversário na defensiva ao desafiá-lo reiteradamente a abrir seus sigilos bancário e telefônico, assim como os de seus familiares, comprometendo-se a fazer o mesmo.
Por outro lado, Lula também cometeu deslizes. O principal deles foi chamar Flávio de "carioca malandro", expressão que pode ter repercussão negativa no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, onde o presidente ficou 13 pontos percentuais atrás do senador no primeiro turno.
Economia e segurança pública
Embora os ataques tenham sido de ampla predominância, os dois candidatos encontraram um pouco de espaço para apresentar algumas propostas, especialmente nas discussões sobre economia e segurança pública.
Flávio Bolsonaro apresentou uma proposta semelhante ao Desenrola para reduzir o endividamento da população, com a aquisição de dívidas e a concessão de carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para empresas. Também defendeu conectar bancos de vagas de emprego aos aplicativos do governo federal, permitindo que cidadãos identifiquem oportunidades de trabalho próximas de suas residências.
Na economia, o senador buscou explorar a percepção de perda de poder de compra e o endividamento das famílias, temas que têm sido recorrentes em sua campanha. Lula respondeu comparando a inflação dos alimentos durante seu mandato à registrada no governo Jair Bolsonaro e destacando os ganhos reais do salário mínimo.
O presidente também voltou a cobrar Flávio pela mudança de posição em relação ao fim da escala 6x1, procurando capitalizar a recente aprovação da mudança trabalhista como uma conquista de seu governo. A estratégia foi apresentar a eleição como uma escolha entre a preservação dos direitos dos trabalhadores e um projeto que, segundo Lula, permitiria flexibilizá-los. O petista reiterou ainda a promessa de reajustes do salário mínimo acima da inflação e lembrou que não houve aumento real durante o governo do antecessor.
Na segurança pública, Flávio prometeu endurecer o combate ao crime organizado, classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organização narcoterrorista e construir novos presídios. Lula, por sua vez, defendeu ampliar a participação do governo federal no enfrentamento às facções criminosas e destacou a PEC da Segurança Pública, proposta por seu governo.
Flávio procurou reforçar a imagem de candidato combativo, disposto a confrontar diretamente Lula e associá-lo à corrupção. Já Lula apresentou o adversário como representante de um projeto que ameaça direitos sociais, trabalhistas e conquistas econômicas, além de vinculá-lo a casos de corrupção e a fracassos do governo de Jair Bolsonaro.
Nenhum dos dois, contudo, conseguiu impor de maneira inequívoca sua narrativa ao outro. O risco, para os dois lados, é que a competição por engajamento entre eleitores já convencidos deixe em segundo plano justamente aqueles que ainda precisam decidir o voto.
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