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Friday, October 16, 2026

O semitropicalismo dos NAPA

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Um ano e meio após vencerem o Festival da Canção com Deslocado, tema que transformou as suas vidas e os tornou num fenómeno internacional, os NAPA lançam o seu terceiro álbum de originais, Semitrópico. O quinteto concebeu um disco centrado na ilha da Madeira, de onde são naturais, conciliando o imaginário do arquipélago com as vivências pessoais de quem cresce longe de casa. Pelo meio, junta-se o tropicalismo brasileiro, país onde se fala a mesma língua e por vezes se canta a mesma canção, onde construíram pontes e descobriram pontos em comum.

O álbum foi produzido pelo carioca Lucas Nunes, músico dos Bala Desejo e produtor de Caetano Veloso nos últimos anos. Entre a Madeira, o Rio de Janeiro e Lisboa, ergueram-se 13 faixas de uma indie pop sofisticada, solar e luminosa, de sopros sublimes e arranjos orquestrais, inspirada pela música popular brasileira mas também pelas tradições sonoras da ilha atlântica.

Deslocado, canção com que representaram Portugal na Eurovisão — que se tornou single de quádrupla platina no país, dupla platina no Brasil e, ainda mais improvável, single de ouro na Indonésia —, que os levou a fazer dezenas de concertos e a esgotar os coliseus de Lisboa e Porto, profissionalizando-os de vez, foi adiando o processo do disco mas também permitiu que ele fosse construído com o tempo e os recursos que até então eram impensáveis para uma banda emergente. Os NAPA já não o são — e procuram agora confirmar que não são apenas um one hit wonder, que têm coisas a dizer e uma pop inventiva, com identidade, para apresentar ao mundo.

O fenómeno Deslocado permitiu um álbum ambicioso

Com a formação atual composta por Diogo Góis (baixo), Francisco Sousa (guitarra), João Rodrigues (bateria) e os irmãos Guilherme (voz e guitarra) e Lourenço Gomes (teclas), os NAPA nasceram no já distante ano de 2013 enquanto Men On The Couch, nome que se manteve até se estrearem em disco com Senso Comum, em 2019. Quatro anos depois, deixavam o inglês para trás, agarravam-se com todas as forças ao português e também por isso trocavam de nome para NAPA. Foi quando lançaram o segundo álbum, Logo Se Vê, que teve uma maior expressão e os levou a realizar a primeira digressão nacional.

O crescimento destes madeirenses radicados em Lisboa desde os 18 anos foi gradual, mas entrou em velocidade supersónica a partir do momento em que ganharam o Festival da Canção em 2025. Deslocado, um tema em que o vocalista e letrista Guilherme Gomes canta sobre “a dor e a saudade” de estar longe de casa, de quem não se revê na selva de cimento e no ritmo frenético de Lisboa, foi o grande trunfo.

A banda até já tinha tentado participar no concurso televisivo organizado pela RTP no ano anterior, com Lento (faixa que permaneceu na gaveta e que agora vê a luz do dia, fazendo parte do alinhamento do novo disco), mas não podia imaginar que a presença no Festival da Canção fosse tão determinante para a sua história.

Com a vitória em Portugal e a consequente participação na Eurovisão (onde ficaram em 21.º lugar), Deslocado correu o mundo. Tornou-se viral no TikTok, onde existem quase seis milhões de vídeos publicados que usam a canção, e um ano e meio depois não há sinais de abrandamento. “Graças aos deuses do algoritmo, a música continua com uma tracção absurda”, comenta Guilherme Gomes, acrescentando que o tema soma cerca de 100 mil reproduções no Spotify por dia. Ao todo, somados os números das diferentes plataformas digitais, são mais de 220 milhões de streams. “Foi uma junção de fatores e de sorte. Foi o Festival da Canção, depois a Eurovisão, o instrumental e a mensagem, que foi traduzida em muitas línguas. Apanhou mesmo o comboio do algoritmo no momento certo e viajou sozinha, nós nem fizemos grandes esforços para que isto acontecesse.”

As histórias relacionadas com o impacto da canção sucedem-se e continuam a surpreender os cinco músicos. “Há umas semanas um amigo nosso estava a andar de táxi no Japão e a Deslocado começou a dar na rádio”, conta o guitarrista Francisco Sousa. “Um primo meu também esteve num restaurante no Japão e um dos empregados tinha a Deslocado na playlist do espaço”, acrescenta o baixista Diogo Góis. “Ele disse que era meu primo e eles ficaram: ‘como assim?’”

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