A próxima guerra da carne será travada antes do frigorífico — e começa no milho
O Rabobank tem uma aposta para a próxima década da proteína brasileira: até 2031, a disputa global por carne será definida não apenas nos frigoríficos, mas também nas lavouras de milho e soja — e na capacidade do país de transformar grãos em uma alimentação animal mais barata e eficiente.
Segundo o banco, a próxima fase de competitividade do setor dependerá do controle de uma cadeia integrada, que vai da produção de ingredientes para ração até a exportação de carne. A análise faz parte do relatório “Brasil: a potência em ração e proteína fortalece sua vantagem competitiva”, elaborado por Marcela Marini, analista sênior de Grãos e Oleaginosas, e Wagner Yanaguizawa, analista de Proteína Animal do Rabobank.
O ponto de partida é uma posição já consolidada no mercado internacional. O Brasil responde hoje por 34% das exportações mundiais de frango, 22% das vendas internacionais de carne bovina e 14,7% do comércio global de carne suína, segundo o estudo.
Para o Rabobank, essa vantagem tende a crescer até 2031 com a combinação de três movimentos: a expansão dos biocombustíveis, o avanço do processamento agrícola e o aumento da produtividade no campo. Esses fatores devem ampliar a oferta e a diversidade de ingredientes usados na alimentação animal, um dos principais custos da produção de proteínas.
“A expansão dos biocombustíveis, os ganhos de produtividade das culturas e o aumento do processamento agrícola estão aumentando tanto o volume quanto a diversidade dos ingredientes para alimentação animal”, afirmam os autores do relatório.
A mudança pode alterar o papel do Brasil na cadeia global de alimentos. De um grande exportador de commodities agrícolas, o país passa a capturar mais valor ao transformar soja e milho em ração e, posteriormente, em carne.
A próxima disputa da proteína brasileira começa antes mesmo dos frigoríficos: na ração. A alimentação animal é hoje o principal componente dos custos de produção e representa entre 70% e 80% das despesas operacionais nos confinamentos de bovinos.
Na produção de suínos em Santa Catarina, responde por aproximadamente 72% dos custos, enquanto na criação de frangos no Paraná chega a 63%.
Por isso, ampliar a oferta de ingredientes mais baratos e diversificados pode se tornar uma das principais vantagens competitivas do Brasil no mercado global de proteínas.
Para o Rabobank, a maior disponibilidade de matérias-primas permite reduzir a exposição dos produtores às oscilações dos preços de commodities e melhorar as margens da indústria.
“A maior disponibilidade de ingredientes e a flexibilidade na formulação de rações podem apoiar margens, reduzir a exposição aos movimentos de preços de commodities individuais e fortalecer a competitividade internacional da proteína animal brasileira”, afirma o relatório.
A disputa pela carne
Essa mudança já começou a alterar a composição da alimentação animal no país. Embora milho e farelo de soja continuem como a base das rações brasileiras, ingredientes alternativos ganham espaço e ampliam as opções dos produtores.
Um dos principais exemplos é o DDGS, coproduto gerado pela produção de etanol de milho. A oferta desse ingrediente cresceu rapidamente nos últimos anos e deve alcançar cerca de 8 milhões de toneladas até 2031.
Outro produto que deve ganhar relevância é o sorgo. Utilizado como alternativa ao milho em regiões ou períodos em que a segunda safra enfrenta limitações, o cereal deve crescer de 6 milhões de toneladas na safra 2025/26 para 10 milhões de toneladas em 2031.
O avanço desses ingredientes está diretamente ligado a expansão do etanol de milho no Brasil. Além de produzir combustível, as usinas geram DDGS, que pode substituir parcialmente o milho e o farelo de soja na alimentação animal.
Na prática, a indústria de biocombustíveis passa a funcionar também como uma nova fonte de matéria-prima para a produção de carne bovina, frango e suínos.
Segundo o Rabobank, essa integração entre energia e proteína deve se intensificar nos próximos anos.
“O crescimento contínuo do etanol de milho e do processamento de soja deve reforçar a disponibilidade de coprodutos para ração, apoiando uma evolução gradual de um sistema baseado em milho e soja para um modelo mais diversificado e integrado”, afirma o relatório.
O biodiesel também deve ampliar esse movimento. A estimativa do estudo é de que, caso o Brasil alcance uma mistura obrigatória de 20% de biodiesel no diesel até 2030, o esmagamento de soja poderá chegar a aproximadamente 69 milhões de toneladas.
A produção de farelo em cerca de 5 milhões de toneladas em relação ao volume estimado para 2025. Atualmente, a mistura é de 15%.
A expansão da proteína brasileira não dependerá apenas do aumento do número de animais, mas também da capacidade de produzir mais carne com a mesma estrutura — o ganho de eficiência dentro das fazendas será um dos principais motores de crescimento do setor.
Esses ganhos foram impulsionados por avanços em genética, nutrição, saúde animal e manejo, segundo a análise da banco holandês.
Para os próximos anos, o relatório indica que a oferta de ingredientes para alimentação animal deve permanecer acima da demanda projetada até 2031.
Mesmo em cenários conservadores de adoção de novos ingredientes, a disponibilidade de matéria-prima deve ser suficiente para acompanhar a expansão da produção brasileira de proteínas.
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