O jovem não precisa amar o primeiro emprego
Você confiaria em um colega que só cumpre o combinado quando está empolgado com o trabalho?
A pergunta parece exagerada até olharmos para um conselho muito repetido a quem está começando: encontre algo que você ame. A intenção pode ser boa. O problema aparece quando gostar se torna uma condição para se dedicar. Se a tarefa não desperta entusiasmo, ela merece menos cuidado? Se a empresa não é a dos sonhos, o compromisso pode ficar para depois?
Não deveria.
O jovem tem o direito de procurar um trabalho com o qual se identifique. Mas, enquanto ocupa uma função, outras pessoas dependem do que ele faz. Um cadastro errado pode atrasar um atendimento. Uma informação não repassada pode comprometer a entrega de um colega. Quem recebe o resultado daquele trabalho não tem como adivinhar se o responsável estava inspirado.
O que você sente pela atividade e como você a executa são coisas relacionadas, mas diferentes. É dessa diferença que precisamos falar.
Há mais de 25 anos, percorro o Brasil conversando com jovens, empresas e famílias. Nessas conversas, vejo uma discussão que frequentemente termina no mesmo lugar: quem contrata reclama do jovem, e o jovem reclama do que lhe é oferecido. Cada lado encontra exemplos para confirmar que está certo. E a relação continua ruim.
Prefiro discutir o que cada um pode fazer para ela funcionar. Conselho bonito no palco precisa parar em pé na segunda-feira.
O primeiro emprego também é lugar de descoberta
Seria pouco razoável exigir uma paixão profissional definida de quem mal conhece as possibilidades disponíveis. Quem começa pode sentir medo, insegurança, aquele frio na barriga. A experiência ajuda a entender se gosta, se quer continuar ou se prefere outro caminho. Por que no trabalho seria tão diferente?
Como alguém vai saber se gosta de atender clientes sem ter atendido? Como vai descobrir interesse por uma operação sem entender como ela funciona? Uma preferência pode orientar uma escolha. A prática também pode mudar essa preferência.
Isso vale para quem contrata. Você pode esperar disposição para aprender e compromisso com o combinado. Mas exigir que alguém chegue apaixonado pela sua empresa, antes de conhecer o trabalho e as pessoas, é pedir uma declaração que talvez tenha mais a ver com passar na entrevista do que com uma escolha consciente.
O primeiro emprego permite descobrir muita coisa sobre si. Como você reage quando precisa refazer algo? Consegue reconhecer que não entendeu? Pede uma explicação ou entrega de qualquer jeito para acabar logo? Avisa que o prazo está em risco ou espera alguém descobrir?
Dizer "sou comprometido" é fácil. Explicar o que fez quando percebeu que uma entrega daria errado exige ter enfrentado o problema.
Por isso, antes de concluir que uma atividade não combina com você, vale uma pergunta menos confortável: eu tive orientação, pratiquei e dei uma chance real a esse aprendizado?
Às vezes, a atividade não desperta interesse mesmo. Em outras, o desconforto vem de ainda não saber fazer. A insegurança pode virar vergonha de perguntar, e a vergonha pode virar vontade de abandonar. Vale entender o que está acontecendo antes de decidir.
Minha recomendação a quem começa é se envolver de verdade: perguntar, tentar, aceitar correções e aprender a entregar com cuidado. Você pode descobrir uma habilidade que não imaginava ter. Pode também aprender a fazer bem uma atividade e concluir que não quer seguir nela. As duas experiências ajudam a escolher melhor.
Quem contrata também precisa ensinar
Agora, quem lidera precisa assumir sua parte. Contratar alguém no primeiro emprego e esperar que já conheça as regras que ninguém explicou é uma forma bastante conveniente de se decepcionar com o jovem.
Se quer atenção ao prazo, defina o prazo. Se quer qualidade, mostre antes o que é uma entrega bem-feita e explique os critérios. O que você considera bem-feito pode não estar claro para quem está começando. Se espera que a pessoa avise quando surgir uma dificuldade, deixe claro quando e como fazer isso. Reserve tempo para acompanhar. Depois, cobre a evolução.
Existe um desencontro de comunicação que passa despercebido. O gestor pede "mais iniciativa". O jovem entende que pode decidir sozinho. Quando decide, escuta que deveria ter consultado alguém. Afinal, qual era o combinado?
A definição da palavra pode estar no dicionário. A expectativa precisa estar na conversa, de forma clara.
Também vale abrir espaço para que o jovem conheça outras atividades e entenda o que acontece antes e depois da sua entrega. Quando a operação permite, acompanhar o trabalho de outra área e experimentar uma tarefa com orientação ajuda a descobrir interesses e capacidades. A empresa passa a conhecer melhor quem contratou. O jovem passa a enxergar possibilidades que nem sabia que existiam.
Quem assume a gestão de alguém no primeiro emprego participa da formação de uma carreira, tenha consciência disso ou não. É parte do papel. A maneira como orienta, corrige e cobra pode se tornar referência para as próximas relações profissionais daquela pessoa. Isso merece atenção.
Compromisso não significa aceitar tudo
E essa responsabilidade inclui ouvir. Há trabalho mal organizado, tarefas sem utilidade e ambientes que prejudicam quem está começando. O jovem pode perceber problemas que quem está há anos na empresa já deixou de enxergar.
Questionar faz parte. Quando a questão está na organização de uma tarefa, explicar o que não funciona e sugerir uma mudança ajuda a conversa a avançar. Mas ninguém precisa apresentar uma solução pronta para relatar humilhação, desrespeito ou uma condição inadequada. Levar o emprego a sério também inclui reconhecer limites.
Da mesma forma, reconhecer esses limites não transforma qualquer contrariedade em motivo para fazer de qualquer jeito.
Gostar da empresa, aprender uma função e escolher uma carreira são coisas que podem acontecer em tempos diferentes. O jovem pode valorizar a renda, respeitar os colegas, fazer um bom trabalho e desejar outro futuro. Não precisa fingir que encontrou seu lugar definitivo.
Também não cabe tratar a saída como uma decisão simples para quem depende daquele salário. Procurar outra oportunidade pode exigir preparação, tempo e apoio. Necessidade de renda não diminui ninguém.
É possível fazer um bom trabalho sem amar o emprego
A pergunta útil, portanto, vai além de "estou gostando?". Inclui "estou ficando mais capaz?", "estou cumprindo minha parte?" e "há condições para continuar?". As respostas podem levar à permanência, a uma conversa difícil ou à busca de outro caminho.
Você pode decidir que não quer seguir naquela área e, ainda assim, cuidar do trabalho que faz hoje. Quem o contratou pode cobrar dedicação, mas precisa oferecer orientação e condições para aprender.
O jovem não precisa chegar apaixonado pela empresa. A empresa não pode esperar que ele chegue pronto. É no trabalho do dia a dia, com compromisso de ambos, que essa relação pode dar certo.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.