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Tuesday, November 3, 2026

Ossos em cavernas na Espanha mostram prática de canibalismo na Idade da Pedra

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Durante séculos, na Idade da Pedra, pessoas que viviam em cavernas no sul da Espanha consumiram carne humana. A conclusão é de um estudo publicado no mês passado no periódico Journal of Archaeological Science.

"Não era uma guerra, nem um conflito", disse o professor emérito de antropologia física e forense Miguel Botella, da Universidade de Granada (Espanha), autor da pesquisa. "Simplesmente comiam os cadáveres depois que as pessoas morriam."

Botella começou a estudar cavernas no sul espanhol em 1972, em um sítio chamado Las Majolicas, onde descobriu grandes acúmulos de ossos neolíticos.

Para o novo estudo, ele e sua equipe compararam três cavernas da região, todas com indícios de canibalismo em períodos que, por vezes, se sobrepunham.

No total, a equipe analisou 967 restos mortais humanos, correspondentes a pelo menos 60 indivíduos, datados de diferentes períodos entre 5.300 e 3.760 a.C.

Os ossos reúnem características de corte compatíveis com o desmembramento para consumo: marcas deixadas por instrumentos usados para retirar a carne, além de sinais de remoção da carne e de golpes para partir os ossos. Alguns também parecem ter sido fervidos, com base na coloração mais branca e na translucidez. Outros foram quebrados, provavelmente para a retirada da medula, disse Botella.

Na grande maioria dos casos, eles não as mataram. As pessoas simplesmente morreram; e, depois que morreram, foram comidas

A análise de cada caverna mostrou aos pesquisadores que o canibalismo ocorreu de forma recorrente na região ao longo de séculos, com algumas variações técnicas.

Em Malalmuerzo, nome que pode ser traduzido como "almoço ruim" —uma coincidência, segundo Botella—, os restos mortais reuniam todos os tipos de marcas de processamento. Também havia ossos de crianças com marcas de mastigação humana, sinais de "um consumo muito intenso", afirmou a antropóloga física e forense Ana Solari, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina, coautora do estudo.

Em Carigüela, antropólogos encontraram taças cranianas —crânios modificados para servir como recipientes— feitas a partir dos crânios de um adulto e de uma criança. Os vestígios dessa caverna, datados de dois períodos distintos, incluíam outras ferramentas de ossos humanos, como furadores e cinzéis de fêmur.

Em duas das cavernas, Malalmuerzo e Majolicas, havia números aproximadamente iguais de mulheres e homens, assim como de adultos e crianças. Botella e Solari afirmaram que essa distribuição relativamente equilibrada, considerada em conjunto com outras evidências, sugeria que a maioria das pessoas canibalizadas provavelmente não havia sido vítima de violência antes de morrer.

A equipe também propôs que, como todos os restos mortais foram descartados junto a ossos de animais com marcas semelhantes de processamento, provavelmente essas pessoas tampouco caçavam outras com o propósito específico de comê-las.

Em vez disso, parece mais provável que as pessoas praticassem o canibalismo entre si como parte de um rito funerário. Isso contrasta com outras comunidades europeias da época, que enterravam seus mortos ou os deixavam em sepulturas a céu aberto. A partir do século 5º, alguns europeus também começaram a sepultar seus mortos coletivamente em túmulos megalíticos.

Nas cavernas no sul da Espanha, Botella afirmou que os pesquisadores ainda não identificaram indícios de sepultamento ou cremação. "Na grande maioria dos casos, eles não as mataram", disse o pesquisador. "As pessoas simplesmente morreram; e, depois que morreram, foram comidas."

O pesquisador levantou a hipótese de que as pessoas naquelas cavernas talvez comessem membros da família ou amigos para mantê-los presentes em suas vidas, de forma semelhante a casos mais recentes de canibalismo registrados em partes da América do Sul. E, embora os ossos não apresentassem sinais físicos de uso ritual, como ornamentações, isso não descarta a possibilidade de que tenham ocorrido rituais.

Silvia Bello, que estuda o canibalismo entre humanos antigos e não participou da nova pesquisa, concordou que esses casos específicos muito provavelmente ocorreram entre membros do mesmo grupo. No entanto, na avaliação da especialista do Museu de História Natural de Londres, as possíveis marcas de traumatismo por objeto contundente em dois indivíduos indicam a possibilidade de episódios ocasionais de violência.

Segundo Botella, aquelas pessoas eram, em sua maioria, agricultores e pastores, que criavam ovelhas e cabras e cultivavam trigo e cevada.

As cavernas tampouco são um caso isolado: mais de uma dúzia de outras cavernas no sul espanhol guardam indícios de canibalismo, assim como outras em diferentes partes da Europa.

Consideradas em conjunto, segundo Botella, as pesquisas mostram que esse tipo de canibalismo muito provavelmente foi uma prática cultural comum durante séculos no Neolítico.

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