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Sunday, October 25, 2026

Lula aos 80 anos: a 'última dança' do presidente em sua eleição mais difícil

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    • Author, Leandro Prazeres*
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Published

  • Tempo de leitura: 17 min

O local havia sido escolhido por ter sido o mesmo lugar de onde Lula liderou uma greve de metalúrgicos que pavimentou o caminho entre o sindicalista e o político.

"Eu passei a noite inteira conversando com muita gente. Preparando coisas para falar porque são 47 anos de história. Se eu for começar a contar aqui, só vou terminar depois das eleições", disse Lula.

Coincidência ou não, a atenção que Lula dava ao seu legado durante aquele discurso foi, de alguma forma, a marca de sua campanha.

Ao longo da campanha de 2026, Lula procurou estabelecer um contraste entre sua trajetória política e a de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), com quem disputa neste domingo (25/10) o segundo turno da eleição presidencial.

"(Flávio) não tem passado, não tem presente e não tem futuro. Esse rapaz nunca trabalhou na vida. Esse rapaz foi vereador com 21 anos e seguiu a carreira dele ganhando dinheiro público", disse Lula em entrevista ao podcast Flow antes do primeiro turno.

A aposta no próprio legado, porém, não foi suficiente para garantir ao presidente a liderança nas urnas. Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45,16% de Lula — uma diferença de 1,87 ponto percentual, ou cerca de 2,2 milhões de votos.

Lula também teve menos votos do que em 2022 em todos os Estados do Nordeste, região que historicamente constitui uma de suas principais bases eleitorais.

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O histórico das eleições presidenciais brasileiras dá uma dimensão do desafio: nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu virar o resultado e vencer a disputa no segundo turno. Esta, porém, é a eleição com a menor diferença entre o primeiro e os segundo colocado: 2,2 milhões de votos, ou 1,87 ponto percentual.

A desvantagem levou a campanha petista a rever sua estratégia. Lula passou a enfatizar os riscos que, segundo ele, a eleição de Flávio representaria para programas sociais, como Bolsa Família.

Lula balançando uma bandeira do Brasil em meio a uma multidão

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Presidente participou de manifestações em diversos Estados em apoio a sua candidatura

A possibilidade de uma derrota se tornou um cenário incomum para um político que, desde 2003, venceu três eleições presidenciais, foi reeleito e ajudou a eleger sua sucessora.

A trajetória de Lula até o Planalto, porém, foi longa. O metalúrgico que ganhou projeção nacional ao liderar greves no ABC paulista durante a ditadura militar participou da fundação do PT, em 1980, e chegou à Assembleia Nacional Constituinte como deputado federal, em 1986.

A primeira tentativa de chegar à Presidência veio em 1989, quando perdeu no segundo turno para Fernando Collor de Mello. Em 1994 e 1998, voltou a disputar o cargo, mas foi derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso.

A vitória veio em 2002, depois de uma mudança na estratégia eleitoral. Lula ampliou alianças e adotou um discurso voltado também a empresários e setores da classe média, movimento associado à imagem do "Lulinha paz e amor".

Reeleito em 2006, deixou o governo em 2010 com 83% de aprovação, , o suficiente para suficiente para ajudar a eleger Dilma Rousseff (PT), que até então nunca havia disputado uma eleição. Quatro anos depois, Dilma foi reeleita.

Anos depois, a Operação Lava Jato mudaria novamente os rumos de sua trajetória. Lula foi preso em 2018 e ficou impedido de disputar aquela eleição. Escolhido para disputar pelo PT no lugar de Lula, Fernando Haddad foi derrotado por Jair Bolsonaro, então no PSL, naquele outubro de 2018.

A vitória de 2022 representou o retorno de um político que muitos adversários julgavam fora do jogo.

Agora, aos 80 anos, Lula tenta conquistar um quarto mandato presidencial — e afirma que esta será sua última campanha pelo cargo.

Em 20 de outubro, durante um comício em São Luís, no Maranhão, o presidente disse a apoiadores: "Essa é a minha última campanha para presidente da República, última campanha. E esse mandato quero que seja histórico".

Uma eleição mais difícil que o esperado

A dificuldades mostrada nas urnas contraria avaliações feitas por integrantes da própria campanha meses atrás.

Dias afirmou que não existia eleição fácil, mas classificou 2022 como uma "missão impossível".

Naquela ocasião, Lula estava fora do governo e enfrentava Jair Bolsonaro (PL) em pleno exercício da Presidência.

Questionado diretamente se 2026 seria mais favorável, Dias respondeu que Lula disputaria "num ambiente e numa condição melhor" e que as chances de vitória eram superiores.

Seis meses depois, o favoritismo não se confirmou.

"Eu acho que essa é a mais difícil entre as que Lula tinha chances reais de vencer", afirma o Cláudio Couto, professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em 2022, lembra ele, o petista passou boa parte da campanha à frente de Jair Bolsonaro nas pesquisas.

Agora, mesmo no exercício da Presidência, frequentemente apareceu muito próximo ou atrás de Flávio em diferentes levantamentos.

Para Couto, as dificuldades enfrentadas por Lula são resultado de uma série de fatores.

O primeiro seriam as mudanças estruturais no Brasil. Ele aponta que as mudanças nas aplicações de emendas parlamentares mudaram a correlação de forças no Congresso e isso afetou a forma de governar.

"Sem as emendas para negociar, o governo perdeu parte da sua capacidade de organizar seus projetos e, com isso, fazer avançar a sua agenda", disse o professor.

O segundo fator é a persistência e a intensidade da polarização política no Brasil.

"O Brasil tinha polarização entre PT e PSDB, quando Lula perdeu e venceu eleições, mas hoje o cenário está muito mais radicalizado. Hoje, até mesmo o Centrão, que sempre oscilava na direção do governo, entendeu que não precisa mais ajudar na governabilidade, até porque tem acesso às emendas. No final, essa radicalização tornou o espaço para governar muito mais estreito", explica Couto.

Couto destaca ainda um fator interno que mudou em relação aos outros mandatos de Lula.

"Nós vimos um presidente aparentemente menos disposto a negociar do que anteriormente. É claro que isso também pode ser resultado dessa mudança estrutural. Lula deve olhar e pensar: como é que eu vou me meter nessa confusão?", aponta o professor.

Bons números, pouco conforto eleitoral

As dificuldades enfrentadas por Lula em seu terceiro mandato vão, em tese, na contramão de parte dos dados da economia.

A taxa de desemprego está em 5,3%, a menor taxa da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O rendimento médio mensal chegou a R$ 3,7 mil no último trimestre, o maior já registrado na série histórica.

São números que dialogam com uma das marcas históricas de Lula: a associação de seus governos com aumento da renda, programas sociais e redução da pobreza.

Mas a percepção do eleitor parece não acompanhar integralmente esses indicadores.

Às vésperas da eleição, 41% dos entrevistados pelo Datafolha avaliavam o governo negativamente, enquanto 35% o consideravam ótimo ou bom.

Pessoalmente, 49% reprovavam Lula e 48% o aprovavam.

Uma parte dessa diferença pode ser explicada pelo orçamento doméstico.

Em agosto, 82% das famílias tinham dívidas a vencer, maior proporção da série histórica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). A inadimplência atingia 29,9%, ainda de acordo com a instituição.

Nas últimas semanas, o governo reagiu. Em setembro, anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família.

Nove dias antes do primeiro turno, Lula também proibiu o funcionamento das casas de apostas, conhecidas como bets, num momento em que o governo tentava associar o setor ao endividamento e à perda de renda familiar.

Mas, durante boa parte da campanha, as principais discussões estiveram longe de desemprego, renda ou políticas sociais.

Investigações policiais, o Banco Master, fraudes no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), crise no Supremo Tribunal Federal e uma disputa religiosa baseada numa informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida acabaram dominando semanas importantes da campanha antes do primeiro turno.

Vorcaro e a crise no Supremo

Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal

Crédito, Victor Piemonte/STF

Legenda da foto, Crise do Banco Master atingiu ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, o que se tornou um problema para Lula

A primeira grande crise que mudou os rumos da campanha envolveu o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ele está preso desde março deste ano e é suspeito de ter cometido fraudes financeiras.

Inicialmente, o caso parecia atingir sobretudo Flávio.

Em plena campanha, vieram a público conversas em que o senador cobrava de Vorcaro aportes para financiar Dark Horse, uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.

Segundo informações divulgadas na época, Vorcaro teria transferido ao menos R$ 61 milhões para o projeto, num acordo que poderia chegar a R$ 134 milhões.

Flávio negou qualquer ilegalidade e disse que o pedido se tratava de uma transação privada na busca por financiar um filme sobre a história de seu pai. O caso, no entanto, é alvo de inquérito na Polícia Federal, e tem Flávio entre os investigados.

O caso, no entanto, atingiu outros políticos.

Um dos nomes envolvidos foi do senador Jaques Wagner (PT-BA), que acabou deixando a liderança do governo no Congresso Nacional. Segundo as investigações, Wagner teria recebido vantagens indevidas de um sócio de Vorcaro. Wagner, no entanto, nega irregularidades.

A crise também chegou ao Supremo. O episódio de maior repercussão para o governo envolveu o ministro Alexandre de Moraes.

Vieram a público informações sobre um contrato de R$ 129 milhões entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

O escritório negou irregularidades e disse que Moraes nunca teria atuado em casos envolvendo o Master ou Vorcaro.

Entre os temas tratados estaria a possibilidade de prisão do banqueiro. Moraes nega ter trocado as mensagens com o banqueiro.

O ministro André Mendonça, responsável pelo caso, pediu um relatório à Polícia Federal e defendeu a abertura de investigação sobre Moraes.

A partir daí, a investigação sobre o Banco Master produziu uma crise dentro do próprio Supremo.

Ao longo de seu mandato, Lula fez seguidas defesas públicas do Supremo diante dos ataques do bolsonarismo.

Analistas avaliam que essa proximidade institucional permitiu à oposição tentar transferir parte do desgaste de Moraes para o presidente.

Apesar de não ser possível mensurar o impacto na campanha de Lula, o risco ganhou dimensão eleitoral após o primeiro turno, quando o petista terminou atrás de Flávio Bolsonaro.

No dia seguinte, em reunião com aliados, Lula reconheceu o peso da crise e afirmou estar "carregando nas costas" a "promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira".

O presidente também defendeu discutir novos critérios para a escolha dos ministros e a possibilidade de estabelecer mandatos para os integrantes do tribunal.

A sombra da Lava Jato

Lula em entrevista à BBC News na Superintendência da PF em Curitiba

Crédito, Ricardo Stuckert/Divulgação

Legenda da foto, Lula foi preso em 2018 após condenação em segunda instância no âmbito da Lava Jato

A Operação Lava Jato deixou uma marca duradoura na trajetória política de Lula. O presidente chegou a ser condenado nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, ficou 580 dias preso e foi impedido de disputar a eleição de 2018.

Em 2021, porém, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações por entender que a Justiça Federal de Curitiba não era competente para julgar os casos e, no processo do tríplex, reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro.

Em outros processos, Lula foi absolvido ou as acusações foram arquivadas ou deixaram de poder resultar em punição. Lula sempre negou as acusações.

Hoje, o petista não responde a ações judiciais decorrentes da operação.

Ainda assim, o histórico da Lava Jato continua a ser explorado por adversários políticos, como Flávio Bolsonaro, que voltou a citar as condenações durante o debate do segundo turno.

O retorno da corrupção ao debate

Ainda que Lula não figure como investigado, suspeitas envolvendo seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, pressionam a campanha do presidente.

O nome de Lulinha surgiu no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga descontos irregulares em aposentadorias e pensões do INSS. Atualmente, ele vive com a família em Madri, na Espanha, e é alvo de três inquéritos no STF, autorizados entre o fim de julho e o início de agosto, a pedido da Polícia Federal.

As investigações apuram suspeitas de tráfico de influência e possível favorecimento de empresas em negócios com o governo federal.

Uma delas investiga se Lulinha teria atuado para beneficiar uma empresa de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", na venda de produtos à base de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde.

Outra apura possível favorecimento de empresários em contratos com a Dataprev, enquanto a terceira investiga a suposta atuação de um grupo para favorecer empresas junto ao governo federal.

Lulinha admitiu ter acompanhado Antunes em uma viagem a Portugal, em 2024, para visitar uma fábrica de cannabis medicinal. As passagens e a hospedagem foram pagas pelo empresário.

O filho do presidente, porém, afirma que não recebeu pagamentos dele e diz não ter conhecimento das atividades de Antunes relacionadas às fraudes no INSS. Sua defesa nega irregularidades.

Lulinha (ao centro, de blusa preta) é um dos filhos de Lula

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Lulinha (ao centro, de blusa preta) é um dos filhos de Lula

Outro nome central nas apurações é o da empresária Roberta Moreira Luchsinger, apontada como amiga próxima de Lulinha e elo entre o filho do presidente e Antunes. Ela também é investigada pela PF por suspeitas de tráfico de influência e de atuação para favorecer empresas interessadas em contratos com o governo federal.

Em entrevista à CNN Brasil no sábado (17/10), Roberta afirmou estar disposta a negociar um acordo de delação premiada e acusou a Polícia Federal de agir para proteger Lulinha.

Mensagens obtidas pelos investigadores indicam que ela teria tratado de negócios com o governo e se referido ao filho do presidente como seu "sócio". As defesas dos envolvidos negam irregularidades.

No caso de Marcola, a crise ganhou força após a revelação de que Roberta teria pago R$ 249 mil em despesas pessoais do ex-chefe de gabinete, incluindo joias, faturas de cartão, boletos e parcelas de financiamento.

Marcola confirmou ter recebido os valores, mas afirmou que se tratava de um empréstimo pessoal, já quitado, sem relação com sua função pública. Ele deixou o cargo em julho.

Na ocasião, Lula disse que a relação entre os dois gerava suspeitas no Planalto e afirmou que, se Marcola tivesse cometido algum erro, deveria responder por isso. Roberta, por sua vez, nega ter usado relações pessoais para favorecer ilegalmente empresas.

O caso produziu uma situação constrangedora para Lula em um dos palcos mais importantes da campanha.

"Não conheço essa moça [a lobista Roberta Luchsinger], nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próximo de mim", disse Lula durante a entrevista.

Minutos depois, contudo, adversários passaram a divulgar fotografias em que a empresária aparecia ao lado dele em diferentes ocasiões.

A campanha de Lula foi obrigada a divulgar uma nota dizendo que as fotos não significavam que houvesse um relacionamento pessoal entre ambos.

Lula afirmou acreditar na inocência do filho, mas disse que as suspeitas precisam ser apuradas. Sobre Roberta, defendeu que ela fosse investigada pela Polícia Federal.

A religião no centro

Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida

Crédito, Reprodução/Instagram

A reta final também trouxe de volta um tema que havia tido, até então, um peso menor do que em 2022: religião.

Flávio, porém, nega ter apoiado a ideia.

Para o antropólogo Juliano Spyer, porém, a repercussão do episódio expõe tensões mais profundas.

"Não é um tema voltado à agenda católica. Ele é um tema que trata das diferenças entre o catolicismo e o protestantismo", afirma.

A discussão tocou numa das principais vulnerabilidades eleitorais de Lula.

Na pesquisa Meio/Idea divulgada na semana do segundo turno, Flávio tinha 69,5% das intenções de voto entre os evangélicos. Lula, 25,9%.

Entre os católicos, a relação se invertia: Lula tinha 55%, contra 39,6% de Flávio.

A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas acima de 16 anos por telefone entre os dias 15 e 19 de outubro. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

Spyer afirma, no entanto, que ele esperava que Lula tivesse feito, em seu terceiro mandato, um movimento de maior aproximação com o eleitorado religioso e conservador.

"Eu não vi nada de significativo mudar", diz.

Segundo ele, Lula parece ter encontrado uma espécie de teto em torno de 30% nesse segmento.

A soberania como bandeira

Lula usando um boné escrito O Brasil é dos brasileiros

Crédito, Reuters

Outro elemento distinto desta campanha foi a presença dos Estados Unidos.

Desde o aumento das tensões com o governo de Donald Trump, marcadas pela imposição de tarifas sobre produtos brasileiros em julho de 2025 e de 2026, Lula passou a utilizar a defesa da soberania brasileira como uma das suas principais bandeiras de campanha.

O discurso apareceu em temas que vão das tarifas comerciais às reservas de minerais críticos e terras raras.

Em um ato de campanha em setembro, por exemplo, Lula afirmou ter dito a Trump que qualquer tentativa de interferência americana na eleição produziria efeito contrário.

"Se ele meter a mão, vai perder aqui as eleições. A gente não vai aceitar a ingerência de ninguém", disse.

Na Assembleia Geral da ONU, afirmou que "a democracia brasileira pertence aos brasileiros".

Auxiliares de Lula dão como certo que o governo dos Estados Unidos tentou interferir nas eleições deste ano. Segundo eles, os EUA preferem um presidente mais amigável aos interesses norte-americanos e Flávio já teria demonstrado e prometido um alinhamento automático com o governo do presidente Trump.

No primeiro turno, o governo Lula pediu a abertura de uma investigação sobre o repasse de recursos do governo norte-americano a organizações não-governamentais que atuem contra decisões do STF.

Um auxiliar de Lula ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse que Lula não vê a atuação dos EUA como obra direta de Trump. Segundo ele, Lula e Trump teriam um bom relacionamento.

O alvo das críticas mais pesadas de Lula é o secretário do Departamento de Estado norte-americano, Marco Rubio, a quem Lula já chamou de latino-americano frustrado.

Tentativa de virada

Lula, de cima do carro, estende a mão para pessoas durante uma manifestação

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Manifestações de apoio a Lula foram registradas em diversas partes do país após o primeiro turno

Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, Lula intensificou a busca por votos e passou a dar mais destaque a medidas de apelo popular.

Uma das principais bandeiras foi o fim da escala 6x1. A proposta, que avançou no Congresso antes do segundo turno, foi promulgada em 16 de outubro, com Lula presente à cerimônia.

Na área social, o governo antecipou o calendário de pagamentos de outubro do Bolsa Família, que havia sido reajustado em 15% antes do primeiro turno, elevando o benefício médio para R$ 691.

Já em 21 de outubro, enviou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição para instituir transporte público gratuito aos fins de semana e feriados. No mesmo dia, anunciou medidas relacionadas ao teto de faturamento do microempreendedor individual (MEI) e ao perdão de dívidas da categoria. A proposta de transporte gratuito ainda depende de aprovação do Congresso.

Na segurança, Lula fez um aceno a uma pauta historicamente associada à direita. Em entrevista ao Jornal Nacional, em 15 de outubro, afirmou ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos.

A declaração destoou da posição tradicional do PT e veio em meio à disputa com Flávio pelo discurso de combate à criminalidade.

A campanha ganhou reforço nas ruas. Em 11 de outubro, primeiro fim de semana após o primeiro turno, milhares de apoiadores participaram de atos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

As mobilizações se espalharam por todo o país, numa tentativa de ampliar a presença pública da candidatura.

No sábado (24/10), apoiadores de Lula foram às ruas em várias cidades do Brasil na reta final da campanha.

Lula em meio a apoiadores durante manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, na véspera do segundo turno. A imagem mostra também Simone Tebet e Fernando Haddad

Crédito, SEBASTIAO MOREIRA/EPA/Shutterstock

Legenda da foto, Lula entre apoiadores na véspera do segundo turno na Avenida Paulista, em São Paulo.

A busca pela virada também passou pelas redes sociais. Depois do primeiro turno, Lula ganhou um "exército digital" liderado pelo deputado André Janones (Rede-MG), responsável por administrar o canal de WhatsApp "Exército do Lula", que virou uma ferramenta de mobilização de apoiadores.

O espaço passou a distribuir vídeos, mensagens e orientações — as chamadas "missões" — para que os participantes compartilhassem conteúdos da campanha e ampliassem seu alcance nas redes.

O canal se tornou alvo de uma disputa na Justiça Eleitoral. Em 11 de outubro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes, determinou sua suspensão a pedido da campanha de Flávio. Depois de uma sequência de decisões e do registro do canal pela campanha de Lula, o espaço voltou a funcionar e, na manhã deste domingo, somava quase 11 milhões de seguidores.

A última dança

Para o sociólogo e ensaísta Celso Rocha de Barros, autor do livro "PT, uma história", a eleição de 2026 deverá encerrar um ciclo político.

"Acho que o Lulismo, como o conhecemos, deve ou acabar ou se tornar outra coisa independente do resultado. Lula não concorrerá mais a presidente depois dessa eleição, ganhando ou perdendo", disse.

Ele aponta três elementos que tornaram esta eleição diferente.

O primeiro foi a suposta atuação do governo de Donald Trump no Brasil, a pedido de adversários de Lula.

O segundo foi o escândalo do Banco Master, que atingiu políticos e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

O terceiro é a possibilidade de retorno ao poder do campo político associado à tentativa de golpe de Estado depois das eleições de 2022.

"Acho que a principal diferença é o adversário. A disputa entre PT e PSDB era sobre resultados econômicos. O PSDB ganhou fácil enquanto entregou bons resultados. O PT ganhou fácil quando fez a mesma coisa. Agora, os adversários são os caras que tentaram o golpe em 2022 e podem tentar de novo se ganharem. Quando o PT perdia para o PSDB, xingava o neoliberalismo e quinze minutos depois seguia com sua vida", diz o sociólogo.

Para Barros, há outra coisa em jogo. "Perder para os golpistas é, também, se tornar vulnerável à perseguição política", complementa.

O fim do Lulismo, segundo Barros, levanta questões sobre quem irá suceder Lula no campo da esquerda.

"O sucessor natural de Lula era (Fernando) Haddad, que como ministro da Economia pegou uma conjuntura muito difícil, o cenário pós-covid de juros altos e inflação alta que vem derrubando candidatos incumbentes no mundo todo", afirma.

É por isso que, para Celso Rocha de Barros, uma eventual vitória de Lula teria um significado que ultrapassaria a política brasileira.

"Se Lula ganhar, vai ter sido um dos poucos líderes mundiais dos últimos anos a vencer essa conjuntura", afirma.

Celso Rocha de Barros avalia que o resultado das eleições deste ano podem definir quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, mas não resolverá a questão que se abre para os dois principais campos políticos do país.

À esquerda, independentemente do resultado, começará a disputa sobre o que virá depois de Lula.

*Com colaboração de Iara Diniz, da BBC News Brasil em São Paulo.

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