Nas águas turvas e pulsantes de Inês Zenha

Depois de ter sido apresentada em Madrid, numa primeira versão, a exposição é aqui desenvolvida com novos acrescentos. “Há uma peça concebida especificamente para o espaço e que traz o elemento da água que corre, que é uma metáfora sobre a fluidez dos corpos, nomeadamente o corpo queer”, explica João Mourão. “Falamos de identidades que estão sempre a procurar caminhos para sobreviver. O que vemos na exposição é também essa narrativa da procura do lugar, de uma chosen family que serve de suporte e que acolhe nessa construção do eu. Tudo isto para chegarmos do subterrâneo a um espaço mais elevado, onde tudo se entrelaça e se sustenta mutuamente”, acrescenta.
Com um imaginário fantasioso, as obras de Inês Zenha reforçam a ideia de uma presença, à primeira vista, estranha e desconfortável, sem nome e sem género definido. Num tríptico de telas a óleo, várias figuras próximas do humano convivem e habitam o espaço em harmonia, apontando para um lugar de beleza e subjetividade que é também, necessariamente, político. “São reflexo de um processo de lidar com questões de vergonha, de culpa e daquilo que quero ser. É um ato de amor-próprio e isso foi sempre difícil de transpor. Esta exposição invoca isso, sendo o meu trabalho o lugar onde tenho a coragem de assumir coisas que tenho dentro de mim”, explica a artista ao Observador.
Do pó ao pó, do barro ao barro
Ao fundo da sala, uma parede gigante feita de barro espelha novamente esse irromper, seja através das esculturas que ali abrem fissuras, seja pelas pequenas ervas daninhas que, de forma inesperada, ali nascem e ganham forma. A matéria foi retirada do próprio solo e transportou consigo sementes que acabaram por germinar dentro da exposição. “É, por isso, uma exposição que está também viva”, resume o curador Luís Silva. Se a montagem original em Madrid serviu de ponto de partida, no CAM o processo partiu da disponibilidade para deixar que o próprio espaço ditasse novas possibilidades. Quando surgiram as primeiras plantas, o efeito foi de surpresa, mas também de confirmação: a vida encontrava, uma vez mais, uma forma de irromper. É nessa imagem que o curador encontra uma das ideias centrais da mostra. “Há sempre algo que floresce no solo ou nos lugares mais inesperados”, diz.
Mesmo para a artista, as obras continuam, por isso, a suscitar ambiguidade e a refletir um processo emocional de descoberta própria. “É algo que me surpreende e que provoca o tal sentimento de estranheza que quero provocar no outro”, realça. Tal como acontece quando alguém tem uma expressão de género ambígua e os outros acabam por projetar nessa pessoa os seus medos e desejos, também nestas águas se sente essa projeção. Aqui, contudo, inverte-se a lógica para abraçar essa estranheza que, para a artista, pode ser motivada “pela curiosidade, mas também por uma oportunidade de aprendizagem” sobre as diferentes formas de estar e de ser. “Não acho que tenhamos de nos colocar no lugar do outro para ter empatia, mas podemos jogar com isso para exigir, pelo menos, respeito”, sustenta.
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