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Saturday, October 31, 2026

Incêndio de grandes proporções atinge área protegida em Alter do Chão e fogo é parcialmente contido

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A virada da noite de sexta-feira, 31, foi marcada por um incêndio de grandes proporções na savana de Alter do Chão, em Santarém, no oeste do Pará.

As chamas se espalharam pela Área de Proteção Ambiental (APA) da região, formando uma linha de fogo de pelo menos 1,4 quilômetro de extensão, em mais um retrato da crise de queimadas que ameaça a Amazônia. 

Enquanto o fogo avançava, indígenas, brigadistas voluntários e bombeiros se mobilizavam em uma força-tarefa para impedir que as chamas atingissem novas áreas da vegetação.

O combate atravessou a madrugada: brigadistas chegaram à vila de barco, moradores se juntaram e indígenas do povo Borari participaram das ações para proteger o território. Depois de horas de trabalho, as equipes conseguiram conter as duas maiores frentes  do fogo, mas o risco de novos focos mantém as autoridades em alerta.

Conhecida como caribe amazônico, Alter do Chão é um dos principais destinos turísticos do Pará e considerada patrimônio cultural do estado.

A região atrai visitantes pelas praias de água doce, pelas paisagens da floresta amazônica e pelas experiências de turismo junto às comunidades ribeirinhas. É também território tradicional do povo indígena Borari, que participou diretamente do combate às chamas.

O incêndio acontece em um momento especialmente crítico para o Pará, sede da grande conferência de clima da ONU (COP30) em 2025.

Apenas entre os dias 1º e 27 de outubro, o estado registrou 11.274 focos de calor, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em apenas dois dias, 26 e 27 de outubro, foram 931 registros.

As queimadas ocorrem em meio à estiagem e a condições de calor e vegetação ressecada que favorecem a propagação do fogo. A combinação de um El Niño forte com as mudanças climáticas em curso intensificam períodos de seca na Amazônia, embora as causas específicas do episódio ainda estejam sob investigação.

A crise climática já levou diferentes municípios paraenses a decretar emergência devido a eventos extremos. 

Segundo relatório do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sinpdec), com dados de 21 de outubro, 31 municípios do Pará possuíam reconhecimento vigente de situação de emergência, totalizando 34 registros.

As ocorrências incluem incêndios florestais, estiagem, chuvas intensas, enxurradas, vendavais e outros desastres. Entre os municípios com registros associados ao avanço do fogo estão Cachoeira do Piriá, Jacareacanga, Monte Alegre, Muaná, Portel, Rurópolis e Trairão.

Em Altamira, que não aparece na relação dos 31 municípios, também foi decretada emergência em razão dos incêndios. O município lidera o ranking nacional de focos de incêndio em 2026.

Na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, localizada na região, cerca de 4 mil hectares foram devastados pelo fogo, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A fumaça no Pará também pode chegar a Manaus, no Amazonas, deixando o estado também em alerta após uma melhora na qualidade do ar nos últimos dias.

Indígenas e brigadistas se unem no combate ao fogo

A operação de combate reuniu equipes do Corpo de Bombeiros, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santarém (Semma), da Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão e de grupos comunitários da região.

Entre os voluntários estavam integrantes da Rede de Brigadas do Baixo Tapajós, formada por sete brigadas comunitárias. Eles chegaram a Alter do Chão a bordo do barco "Saberes do Fogo", utilizado em iniciativas de prevenção e resposta a incêndios florestais.

Incêndio em alter do chão

Ao desembarcarem, os brigadistas entoaram o grito coletivo "Surara!", expressão associada à união e à resistência em defesa da floresta.

O povo Borari também participou diretamente das ações. Lideranças indígenas ligadas à Associação Ipuringa e ao cacicado liderado pelo Cacique Saúde ajudaram no planejamento das estratégias para conter o avanço das chamas.

"Alter do Chão não é apenas um balneário ou uma vila. Ela é o território sagrado para nós. Nossos caciques sempre estiveram na luta e deram o sangue por esta terra. Enquanto houver um Borari vivo, nosso território continuará de pé", afirmou uma das lideranças indígenas da região.

Segundo a Brigada de Alter do Chão, oito voluntários permaneceram na operação até aproximadamente 2h56 da madrugada, quando retornaram à vila após o controle inicial do incêndio. Cinco bombeiros militares continuaram no local para realizar o rescaldo e impedir que novos focos se espalhassem.

Apesar do resultado, as equipes alertaram que o fogo ainda não poderia ser "considerado completamente extinto"  visto que pequenos pontos de fogo permanecem na área e podem voltar a se espalhar com o calor e a força do vento.

Em nota, a Prefeitura de Santarém informou que todas as medidas necessárias estão sendo adotadas para apoiar as equipes de campo e reduzir os impactos ambientais e os riscos à saúde pública.

Neste sábado, 31, um drone deverá ser utilizado para mapear a extensão da área queimada e ajudar a identificar possíveis indícios de ação criminosa. 

As autoridades também alertaram para os riscos provocados pela fumaça, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias, que devem evitar a exposição prolongada.

O tamanho total da área atingida pelo incêndio ainda não foi divulgado. A avaliação dos danos dependerá do mapeamento e do monitoramento das regiões afetadas.

MPF cobra medidas urgentes contra queimadas no Pará

Na quinta-feira, 29, dois dias antes do incêndio em Alter do Chão, o Ministério Público Federal divulgou uma recomendação para reforçar o enfrentamento às queimadas no Pará.

O documento foi direcionado à União, ao governo estadual, ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ao ICMBio e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Entre as providências solicitadas está a criação de um Comitê de Crise Integrado, no prazo de cinco dias, para coordenar as ações de combate aos incêndios florestais e reduzir os impactos ambientais, sanitários e humanitários provocados pelo fogo.

A recomendação ocorre em meio ao aumento dos focos de calor e à pressão sobre áreas protegidas, territórios indígenas e comunidades tradicionais.

Em 22 de outubro, o governo federal já havia apresentado um balanço das ações emergenciais de combate aos incêndios no Pará.

Na ocasião, o governo informou que o Ibama e o ICMBio mantinham 522 brigadistas e fiscais mobilizados no estado, com apoio de 13 aeronaves e 41 veículos terrestres.

Desse total, 287 brigadistas, 12 aeronaves e 33 veículos terrestres estavam concentrados no oeste paraense, região onde está localizado Santarém e que reúne os maiores registros de focos de calor do estado.

O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, também informou que o Fundo Amazônia havia repassado R$ 45 milhões ao Pará.

A situação em Alter do Chão mobilizou ainda o deputado federal Airton Faleiro (PT-PA), que encaminhou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo o envio urgente de aeronaves para combater o fogo, reforço às brigadas comunitárias e assistência humanitária às famílias atingidas pela seca extrema.

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