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Friday, October 2, 2026

A reconstrução de ACM Neto: do carlismo a Caiado, o desafio de não ser Bolsonaro

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Derrotado em 2022 por Jerônimo Rodrigues (PT), ACM Neto (União Brasil) reorganizou sua candidatura ao Governo da Bahia, ancorando-se na pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência.

A estratégia evita a associação direta com o bolsonarismo, mas cria um dilema: enquanto seu palanque reúne aliados que declaram voto em Flávio Bolsonaro (PL), o ex-prefeito tenta impedir que a eleição baiana seja nacionalizada — movimento que, historicamente, favorece o PT em um estado onde Lula venceu em 415 dos 417 municípios em 2022.

A trajetória política de ACM Neto sempre foi marcada pela tentativa de equilibrar herança familiar e reinvenção. Em 2022, quando disputou pela primeira vez o governo da Bahia, o ex-prefeito de Salvador enfrentou a difícil tarefa de se desvencilhar da imagem de Jair Bolsonaro, cuja gestão na pandemia era amplamente rejeitada no estado.

Na época, Neto declarou que não era “adversário de Lula” e que seus “oponentes são candidatos ao governo da Bahia”. A estratégia, no entanto, não foi suficiente para conter a onda petista: Jerônimo Rodrigues venceu a disputa por margem estreita.

Quatro anos depois, a equação se repete com novas variáveis. ACM Neto precisa novamente evitar a nacionalização da disputa — movimento que, na Bahia, tende a favorecer o campo governista. Lula venceu em 415 dos 417 municípios baianos em 2022, com 72,12% dos votos válidos no segundo turno.

A rejeição a Flávio Bolsonaro no estado é de 54%, enquanto Lula é aprovado por 58% e rejeitado por 36%. Em um cenário em que a eleição presidencial contamina a estadual, os números não são favoráveis ao campo de Neto.

A ancoragem em Caiado

A resposta de ACM Neto foi construir um palanque presidencial próprio, ancorado na pré-candidatura de Ronaldo Caiado. O ex-governador de Goiás, que deixou o União Brasil em 2025 para se filiar ao PSD, tem uma relação de longa data com Neto: foi em Salvador, em abril de 2024, que Caiado lançou sua pré-candidatura ao Planalto, cidade escolhida justamente pela força política do campo de Neto na Bahia.

“Eu não tenho outro caminho que não reconhecer uma história de amizade, de parceria e de longa construção política com Ronaldo Caiado. Por isso, essa é a minha posição”, declarou Neto em julho de 2026, durante evento em Feira de Santana.

Na convenção que oficializou sua candidatura ao governo, em 22 de julho, o ex-prefeito reforçou o apoio. “A minha relação histórica, antiga, de amizade, fraterna, de muitos anos com o pré-candidato a presidente Ronaldo Caiado e, por motivos óbvios e naturais, eu não teria como adotar outra posição”, afirmou.

A escolha de Caiado não é meramente afetiva. O governador de Goiás representa um campo da centro-direita que não está diretamente associado ao bolsonarismo, o que permite a Neto manter uma distância calculada da imagem de Flávio Bolsonaro sem abandonar o campo da direita. É uma tentativa de repetir, em 2026, o que funcionou parcialmente em 2022: atrair votos de eleitores descontentes com o PT sem mobilizar a rejeição ao bolsonarismo.

O dilema do palanque

A estratégia, no entanto, convive com uma contradição interna. A chapa de ACM Neto ao Senado reúne dois nomes que declararam voto em Flávio Bolsonaro: João Roma (PL), ex-ministro da Cidadania de Bolsonaro e presidente estadual do PL, e Ângelo Coronel (Republicanos), senador em busca de reeleição que rompeu com a base petista na Bahia.

Flávio, por sua vez, retribuiu o gesto e declarou apoio às candidaturas de Roma e Coronel ao Senado baiano.

A situação criou um impasse no PL estadual. Parte do diretório baiano resiste a entrar na campanha de Neto, justamente pela ausência de um apoio formal do ex-prefeito a Flávio. Há, no entanto, um acordo entre a equipe de Neto e os dirigentes do PL: o ex-prefeito apoiaria Caiado no primeiro turno, mas haveria a possibilidade de uma união com Flávio em eventual segundo turno contra Lula.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, minimizou a proximidade de Neto com Caiado e disse acreditar que o ex-prefeito “vai caminhar, no final, a apoiar o candidato do PL”. A declaração foi dada à Rádio Morena 98,7 de Itabuna, sem que Valdemar cravasse se esse apoio ocorreria no primeiro ou em um eventual segundo turno.

João Roma, por sua vez, tem sido explícito sobre a expectativa. Durante o debate entre candidatos ao Senado promovido pela TV Bahia, na sexta-feira, 25, ele afirmou que “torce e espera” que Neto declare apoio a Flávio. “Temos um desafio muito grande na Bahia. Todos os outros candidatos à Presidência da República, todos torcem para que ACM Neto seja o nosso próximo governador”, disse.

A pressão sobre Neto, no entanto, não é apenas interna ao campo da direita. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente que, na Bahia, apoia a candidatura de ACM Neto contra Jerônimo Rodrigues para “livrar” o estado do PT. O senador, no entanto, enfrenta dificuldades para consolidar palanques no Nordeste, e a ausência de um apoio formal de Neto no primeiro turno é um obstáculo adicional.

A nacionalização como risco

O cálculo de ACM Neto é claro: quanto menos a eleição baiana for nacionalizada, melhor. Em 2022, essa lógica o levou a evitar se associar a Bolsonaro, enquanto buscava não se apresentar como antagonista de Lula.

Em 2026, a equação se mantém, mas com uma variável adicional: o cenário nacional mudou, e a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro tende a contaminar a eleição estadual de forma mais intensa.

O PT tem explorado a associação de Neto ao bolsonarismo, em razão da escolha de sua chapa para o Senado. A presença de João Roma — que foi ministro de Bolsonaro e é presidente do PL na Bahia — e de Ângelo Coronel — que já declarou voto em Flávio — oferece munição ao discurso governista.

A estratégia petista é vincular Neto ao campo bolsonarista, que tem rejeição de 64,1% no estado, enquanto Jerônimo se associa a Lula, com aprovação de 51%, conforme pesquisa da AtlasIntel divulgada em 3 de setembro.

Para ACM Neto, o desafio é duplo: manter o apoio dos eleitores bolsonaristas, que são essenciais para qualquer vitória no campo da direita na Bahia, sem que isso mobilize a rejeição ao bolsonarismo entre os eleitores de centro e os que rejeitam Bolsonaro. É um equilíbrio delicado, que o ex-prefeito tem tentado sustentar com a ancoragem em Caiado e com a recusa em nacionalizar a disputa.

O lastro da gestão

Se há um ativo que ACM Neto pode explorar sem se associar ao bolsonarismo, é sua própria trajetória administrativa. Durante seus oito anos como prefeito de Salvador, o ex-gestor alcançou índices de aprovação que raramente são vistos na política brasileira.

Em maio de 2020, auge da pandemia de Covid-19, uma pesquisa da DataPoder360 mostrou que 79% dos soteropolitanos avaliavam sua gestão como ótima ou boa, enquanto apenas 1% a considerava ruim ou péssima. No mesmo período, o governo de Jair Bolsonaro era considerado ruim ou péssimo por 55% dos entrevistados em Salvador.

Estes números são o principal argumento de Neto para se apresentar como alternativa a Jerônimo: a experiência administrativa testada e aprovada, em contraste com um governo estadual que enfrenta críticas na segurança pública e na saúde.

É um ativo que não depende de alianças nacionais e que pode ser mobilizado independentemente de quem o ex-prefeito apoia para a Presidência.

O que está em jogo

A reconstrução de ACM Neto após a derrota de 2022 passa, necessariamente, pela capacidade de manter o campo da direita unificado sem se tornar refém do bolsonarismo. A ancoragem em Caiado é a solução encontrada para esse dilema, mas ela só funciona enquanto Flávio Bolsonaro não se consolidar como o candidato único da oposição — cenário que as pesquisas recentes indicam ser possível.

Se a eleição baiana se nacionalizar e se transformar em um plebiscito entre Lula e Flávio Bolsonaro, Jerônimo Rodrigues larga na frente. Se ACM Neto conseguir manter a disputa no terreno estadual, ancorado em sua gestão como prefeito e na máquina política que construiu em 20 anos de carreira, a eleição tende a ser mais disputada.

A EXAME apurou com o arco de alianças do ex-prefeito de Salvador que, com a tendência de finalização da eleição baiana no primeiro turno, ACM Neto teria uma maior possibilidade de apoiar Flávio Bolsonaro em eventual embate direto com Lula em segundo turno.

A estratégia de se distanciar da nacionalização da eleição estadual, além de evitar a “herança” da rejeição bolsonarista na Bahia durante o confronto com Jerônimo Rodrigues.

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