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Thursday, October 1, 2026

O Circuito da Beira - Serra da Estrela (1912) em motociclos

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Olá e sejam bem-vindos. Já sabem, esta é a história das histórias. Eu sei que estava à nossa espera. Eu sou o João Paulo Secadura, mas estamos todos aqui, mas é à espera do Jorge Adolfo Marques. Ele, historiador e professor, ontem trouxe-nos a história de um ciclista famoso de Carregal do Sal, já há mais de 100 anos. E hoje continuamos a falar, mas agora de motores. A corrida de motociclos e o Circuito da Beira Serra da Estrela. Estamos a falar de uma prova que existiu há 114 anos. Vamos a isso, Jorge. Tu és arqueólogo, mas aqui tens passeado.

Arqueologia industrial.

Exato, é muito mais recente. Vamos a isso. Bem-vindo.

É arqueologia industrial. Olá, João. Para não falarmos só de castelos, nem em dólmens.

Exato.

A nossa história é muito mais rica, muito mais diversificada, que vai muito para além das batalhas, dos castelos, dos dólmens, das sepulturas. É também isto que fez e que faz a nossa história, são esses períodos mais próximos de nós e que ali na viragem do século XIX para o século XX, com essa dinâmica da Revolução Industrial, da Segunda Revolução Industrial, em que aparece o motor de combustão interna, e que aparecem uma série de veículos e de novos combustíveis, que continuam hoje a ser a nossa dor de cabeças quando sobe o preço da gasolina.

Exatamente.

É uma dor de cabeça. Então talvez trazer aqui uma história mais distante, ali no início do século XX, também com motores. Tínhamos falado precisamente no Dionísio Júnior. Hoje com motores, mas motores que ele próprio também vendia na sua loja, na Rua Direita.

É verdade.

E voltamos outra vez a uma festa que era muito importante na cidade de Viseu e que ainda hoje é importante, já não com a importância que tinha nessa altura, que eram as festas da cidade, em honra de Santo António, ali na primeira quinzena de junho. E eu recordo aqui uma que decorreu em 1914. Talvez porque sendo o ano do início da Primeira Guerra Mundial, também nós mentalmente nos deslocamos, viajamos no tempo com estas referências.

Exato.

E portanto, essa festa de Santo António em 1914, que foram entre 12 e 15 de junho, em Viseu, era para haver corridas, mas o mau tempo estragou as festas. A corrida de motociclos, que era para ser realizada no dia 15, foi adiada. Portanto, nas festas, para além dos tradicionais cortejos e aspetos religiosos que faziam parte destas festas, começavam também a decorrer outros eventos, digamos assim, utilizando uma linguagem mais contemporânea, como por exemplo, corridas de bicicletas e também corridas de motociclos, porque eram umas máquinas extraordinárias, aquelas máquinas. A este propósito, eu gostaria de referir que algumas máquinas que eu vou referir se encontram no Museu do Caramulo, no Museu Automóvel do Caramulo.

Exatamente.

E portanto, essa corrida foi adiada para o dia 17. À partida da competição, que ao que parece, pela primeira vez os concorrentes iam realizar, entraram seis máquinas, três máquinas belgas, uma FN, Fabrique Nationale, duas alemãs, a NSU, e uma norte-americana, a Indian. No Museu do Caramulo, nós encontramos lá quer as FN, quer as Indian. Portanto, são máquinas extraordinárias que se encontram expostas no Museu do Caramulo, no Museu Automóvel do Caramulo. Às 10h da manhã, as motas partiram da cidade rumo a Lousã, prosseguindo depois para Aguiar da Beira, Ponte do Abade, Trancoso, Celorico da Beira, entroncamento da Estrada da Beira, regressando a Viseu por Mangualde, num total de 164 km. Eu diria de boas estradas de macadame, terra e muitos buracos. Portanto, imagine-se, em 1914, eles faziam esta voltinha de 164 km por estradas que o melhor das estradas eram as estradas em macadame. Macadame, para quem não sabe o que é, era uma espécie de terra e brita prensada, fica muito lisinha, até começar a ter trânsito. Depois começa a ficar um bocadinho desgastada e com buracos.

Exato.

E portanto, estas motas em 1914, imagine-se, vão até Aguiar da Beira, Ponte do Abade, Trancoso e voltam a Viseu. Bom, grande maratona. Isto era quase equivalente a um Paris-Dakar, mas em 1914. Era uma corrida de loucos. Em São João da Carreira, aqui mesmo à saída da cidade, ocorreu a primeira baixa com um acidente de um corredor, António Rodrigues Magalhães, que ia numa Indian Uma Indian. Maltratado, este infeliz piloto teve que recolher ao Hospital da Misericórdia. Coitado, ele deve ter entrado num grande trambolhão e ficou um bocado amassado. A meio do percurso, desistiram as duas NSU, também de pessoas conhecidas aqui, Leopoldo Fucher e Romão de Almeida Cardoso, que também desistiram, as máquinas não aguentaram. Sobraram as FN.

As belgas.

Que monopolizaram o pódio. Três FN no final, três máquinas belgas ali no pódio.

Exatamente.

E que chegaram a Viseu, se calhar, um pouco combalidas dos 160 e tal quilômetros que percorreram. O primeiro a cruzar a linha da meta foi Mário Beirão, com um tempo de duas horas e 45 minutos, a 60 e tantos quilômetros a hora, em média. Veja essa velocidade estonteante.

Estonteante.

Estonteante, 60 km de média. Bem, eu estou convencido que eu, numa motinha destas, não conseguia fazer uma média de 60 km/h. Com aquelas estradas. Diziam os jornais da época, qual foi o prêmio? Recebeu 50 mil reis e um objeto de arte. Não sabemos que objeto de arte. Um objeto de arte. Em segundo lugar, ficou Inocêncio Pinto, com mais meio minuto. Aqueles chegaram quase ali, como os ciclistas na linha de chegada, ao sprint.

Exatamente.

Também ganhou um objeto de arte. E em último lugar, ficou António Pereira de Queirós, que nós aqui, enfim, ao citar estes nomes, é pra homenagear também estes loucos, entre aspas, das duas rodas dessa época.

Não eram das máquinas voadoras, mas é como se fosse.

Exatamente.

Os gloriosos das máquinas voadoras.

Exatamente. Mas são da mesma época. E mais uma página gloriosa do fabricante belga, que tanto sucesso entre 1903 e 1923, essa FN belga teve nas competições de motociclos. Bem, importa dizer que então, neste nosso belíssimo Museu Automóvel do Caramulo, temos exposta uma FN, muito semelhante àquela que teve a glória em Viseu no dia 17 de junho de 1914. Portanto, duas rodas a rasgar, não direi o asfalto, mas as estradas de terra e macadame a 60 km de média, mas a verdade é que chegaram ao fim e dominaram o pódio.

Exatamente.

Claro que estamos numa altura em que, para além dos motociclos, temos também os automóveis. E aqui, uma vez mais, relembro o Museu Automóvel do Caramulo com a sua extraordinária coleção de automóveis antigos. E para relembrar aqui uma competição que passou por Viseu no dia 16 de junho de 1912. Foi dois anos antes, que um Delahaye Belleville de seis cilindros, pilotado pelo tenente de artilharia Norberto Guimarães, entra em Viseu, acompanhado, co-pilotado por mais duas pessoas, entrou no Largo Dom António Alves Martins. O Largo Dom António Alves Martins é um largo muito conhecido na cidade de Viseu, onde se encontra uma estátua do extraordinário bispo liberal Dom António Alves Martins, e que tinha sido curiosamente inaugurada no ano anterior, em 1911. Atrás de si, uma poeirada levantada pela máquina de corrida que partira de Braga, importa dizer de onde é que ele vem. Partira de Braga às três horas da madrugada e passara por Guimarães, Felgueiras, Lixa, Amarante, Mesão Frio, Régua, Lamego, Moimenta da Beira, Trancoso, Celorico, Guarda, Manteigas. Portanto, fez aqui a Beira Alta toda, entrando aqui na Beira Alta, e até chegar, enfim, vindo de Mangualde, entrou então ali pelo largo Jardim, atualmente Jardim Alves Martins. Bem, no largo onde no ano anterior tinha sido então inaugurada a estátua do bispo visense, estavam os controladores especiais da prova, que era organizada pela Comissão de Festas do São João de Braga. E para além disso, para além de estarem lá os controladores, como acontece hoje nos ralis, estavam lá, dizem os jornais, bastantes pessoas para presenciarem a chegada dos autos, dos automóveis. Relata-nos o jornal Povo Beirão, que saiu esse mês, poucos dias depois. Bem, 20 minutos mais tarde, chegou o cargalense José Maria Dionísio Júnior.

Olha, que mencionamos ontem.

Já mencionamos.

Evocamos ontem.

Evocamos José Maria Dionísio. Portanto, o homem gostava das corridas.

Exato.

Ou era de duas rodas ou era de quatro rodas.

Exatamente.

Ele que tinha sido campeão nacional de ciclismo, como nós já fizemos referência em 1902 a 1904, naqueles anos, e que estava estabelecido na cidade. E ele vinha ao volante de um Brayer 20 HP. Portanto, uma máquina também.

20 cavalos.

Exatamente. Depois Eram 11h59m21s, diz-nos o jornalista, numa notícia precisa.

Era quase meio-dia.

Eram 11h59m21s, quando o Minerva, de fabrico belga, portanto outra marca, pilotado por Lafayette Machado, parou no controle horário. Às 13h06 chegou Charles Felboix. Infelizmente, o jornalista não disse em que máquina é que ele vinha.

Não conseguiu identificá-la.

Ele foi muito rigoroso. Exatamente, não conseguiu identificar a máquina.

Olha, mas Jorge fez uma coisa que os jornalistas às vezes deviam fazer. Não sabendo, é melhor não inventar a hipótese.

É melhor não dizer, não inventar.

Exato. É tão curioso.

Depois, passado algum tempo, chegou Luís Pessanha, pilotando mais um carro francês, um Grégoire. Repare-se que todas estas marcas nós já não as temos hoje.

Pois não.

São máquinas que nós encontramos é nos grandes museus de automóvel.

Como o Caramulo?

Exatamente. Depois veio Alfredo Teixeira. Tal como os pilotos António Barbosa, José Egges e Silva Monteiro, não terminou a prova. O percurso era duro, o percurso não era fácil, as estradas estavam muito esburacadas, as melhores eram em macadame, e portanto estas máquinas chegaram a Viseu já um bocadinho a arrastar-se. Depois de Viseu, as máquinas prosseguiram para norte, por São Pedro do Sul, Castro Daire, até alcançarem novamente Lamego, já ali junto ao Douro, atravessaram o Douro, passaram novamente pela Régua, onde também fizeram lá um controle especial, foram por Mesão Frio, Amarante, Lixa e Falgueiras. Nesta última localidade fizeram um desvio por Barrossas e Vizela antes de Guimarães. A chegada à Braga, cumpridos mais de 500 km.

Nossa, caramba.

Isto não era para mim.

Não era para todos.

Isto não era para todos, não era para todas as máquinas, por isso é que algumas ficaram aqui pelo caminho.

Claro.

Consagrou o tenente Norberto Ferreira Guimarães, que será, importa dizer, futuro piloto aviador e herói da Grande Guerra.

Da Primeira Guerra.

O Dionísio Júnior era um campeão das bicicletas, mas estava também aqui nos automóveis, na corrida de automóveis.

Muito curioso.

O Norberto Ferreira Guimarães está aqui nos automóveis e será um piloto aviador, dos pioneiros das máquinas voadoras, como há bocado disseste, dos malucos das máquinas voadoras.

Dos gloriosos malucos das máquinas.

Recordando essa série televisiva extraordinária com o Mumbley. E será um herói da Grande Guerra, que iria começar dois anos depois, como o grande vencedor do Rally Circuito da Beira-Serra da Estrela, uma das primeiras provas desta modalidade realizadas em Portugal. Portanto, isto é importante. Essa prova passa por Viseu, é um circuito longo, com máquinas que já não existem nos nossos dias nas estradas, a não ser quando saem dos museus, e que refletem este mundo que está a nascer, pelo menos no território português, com algumas diferenças temporais relativamente àquilo que estava a acontecer noutras regiões da Europa, sobretudo em França, na Bélgica, na Holanda, no Reino Unido, mas que aqui também estão a acontecer. Estas provas que eram para elites endinheiradas, mas que gostavam destes novos desportos, como as corridas de motocicletas, as corridas de automóveis, que vieram para ficar.

Isso mesmo. Ficamos então com mais esta recordação destes gloriosos malucos, neste caso dos veículos terrestres, estas corridas de motociclos e o Circuito da Beira-Serra da Estrela, estamos a falar em 1912. Mais uma crônica do Jorge Adolfo Marques. Jorge, nós marcamos encontro amanhã e vamos continuar com novidades. Quem diz novidades, diz coisas com 100 e tal anos, mas pronto, são novidades. Para um arqueólogo é sempre novidade. Aliás, o arqueólogo é sempre aquele profissional que eu acho que tem o futuro em ruínas.

Exato.

É o teu caso. Marcamos encontro amanhã, Jorge. Bem-hajas, até amanhã.

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