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Friday, October 9, 2026

ONG: cessar-fogo em Gaza existe apenas "no nome"

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Mais de 100 organizações não governamentais (ONG) acusaram esta sexta-feira Israel de continuar a matar e ferir palestinianos diariamente e de manter restrições que impedem a recuperação de Gaza, onde o cessar-fogo “existe apenas no nome”.

Num comunicado conjunto, as ONG alertam que “os assassínios e as privações em Gaza não devem ser normalizados sob o pretexto de um acordo de cessar-fogo”, acordado em outubro, sustentando que a população continua a enfrentar condições humanitárias extremas.

Segundo as signatárias, mais de 1.400 palestinianos foram mortos em Gaza desde a entrada em vigor do cessar-fogo, incluindo pelo menos 327 crianças, na sequência de ataques, tiroteios e operações militares israelitas.

As ONG afirmam ainda que centenas de corpos continuam soterrados sob os escombros, uma vez que as autoridades israelitas restringem a entrada de maquinaria necessária às operações de remoção e resgate.

O membro do conselho de administração da Rede de ONG Palestinianas, Mohsen Abu Ramadan, defendeu que as organizações locais continuam a responder às necessidades da população apesar da destruição de instalações, da deslocação de trabalhadores e da redução dos financiamentos.

“O Governo israelita deve pôr termo aos ataques e às restrições que dificultam o trabalho humanitário diário, enquanto os doadores devem disponibilizar financiamento direto e flexível para responder às necessidades existentes”, afirmou.

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As organizações acusam também Israel de alargar a denominada “Linha Amarela” para além dos limites previstos no acordo de cessar-fogo, reduzindo ainda mais a área disponível para a população palestiniana e agravando a sobrelotação.

A diretora executiva da Save the Children considerou no comunicado que o cessar-fogo perdeu significado perante a continuação das mortes de crianças e a impossibilidade de muitas famílias reconstruírem as suas vidas.

“Desde o anúncio do cessar-fogo, uma criança tem sido morta praticamente todos os dias”, afirmou Inger Ashing.

As ONG salientam ainda que mais de 80% das estruturas de Gaza sofreram danos, incluindo cerca de dois terços que terão sido destruídas.

O comunicado acrescenta que com a aproximação do inverno, centenas de milhares de pessoas continuam a viver em tendas, abrigos improvisados ou edifícios danificados, ficando expostas ao frio, ao vento e às inundações.

Ao mesmo tempo, quase um quarto dos agregados familiares do território é atualmente chefiado por mulheres, que enfrentam um risco acrescido de viver em condições habitacionais precárias.

As ONG referem igualmente que nenhum dos 36 hospitais da Faixa de Gaza está a funcionar plenamente devido à escassez de medicamentos, equipamentos e combustível.

Mais de 18.500 doentes, incluindo pelo menos quatro mil crianças, aguardam evacuação médica, enquanto mais de mil pessoas terão morrido enquanto esperavam transferência para tratamento, acrescentam.

O secretário-geral do Conselho Norueguês para os Refugiados, Jan Egeland, classificou a situação como “absolutamente vergonhosa”, defendendo que os governos devem tomar medidas concretas para garantir a entrada sem restrições de ajuda humanitária, equipamentos e materiais de reconstrução.

O comunicado sustenta ainda que cerca de 1,4 milhões de pessoas enfrentam níveis de fome classificados como de crise ou superiores até ao final do ano e alerta para a propagação de doenças associadas à falta de água potável e à degradação dos sistemas de saneamento.

As ONG consideram que a situação atual contradiz os objetivos do cessar-fogo e recordam que as condições observadas em Gaza levaram a Comissão de Inquérito das Nações Unidas a concluir, em relatórios divulgados em 2025 e 2026, que Israel cometeu genocídio.

A secretária-geral da Amnistia Internacional defendeu que a reconstrução de Gaza deve assentar no direito internacional, na justiça e na responsabilização pelos crimes cometidos.

“A incapacidade persistente de responsabilizar Israel e de garantir o cumprimento das ordens vinculativas do Tribunal Internacional de Justiça continua a alimentar crimes atrozes em grande escala contra os palestinianos”, declarou Agnès Callamard.

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