Quanto R$ 10 mil rendem em CDI e dividendos: renda fixa ainda ganha?
Com os juros ainda elevados, a renda fixa segue impondo uma régua alta para quem busca rendimento. Pelas contas dos especialistas ouvidos pela EXAME, R$ 10 mil aplicados durante um ano em um Certificado de Depósito Bancário (CDB) que paga 100% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) renderiam cerca de R$ 1.126 líquidos.
Em uma ação com dividend yield (DY) de 10%, indicador que mostra quanto a empresa distribuiu em proventos em relação ao preço da ação, o mesmo valor representaria cerca de R$ 1.000 em dividendos.
O CDB é um título emitido por bancos para captar dinheiro dos investidores e, quando paga 100% do CDI, acompanha integralmente essa taxa, que reflete os juros das operações de curtíssimo prazo entre instituições financeiras e serve como uma das principais referências da renda fixa.
Nas simulações apresentadas pelos analistas, o CDI considerado é de 13,65% ao ano, R$ 10 mil renderiam R$ 1.365 antes dos impostos e cerca de R$ 1.126 líquidos após a cobrança de 17,5% do imposto de renda (IR).
O head comercial da Revert, Felipe Assunção, explica que a renda fixa leva vantagem no curto prazo. "Com o CDI perto de 13,65% ao ano, um CDB simples entrega cerca de 11,3% líquidos de IR, com risco baixíssimo e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Poucas empresas sustentam dividend yield acima disso de forma recorrente."
Entre grandes pagadoras da bolsa, Assunção cita Petrobras, Itaúsa, BB Seguridade, Cemig, além de bancos e elétricas, com os dividend yields entre 8% e 13%. Para R$ 10 mil investidos, isso representaria de R$ 800 a R$ 1.300 em proventos ao ano.
"Casos pontuais aparecem com yields de 20%, 30%, mas geralmente refletem eventos não recorrentes, como venda de ativos, e não devem ser tratados como renda sustentável", detalhou.
Já o analista de pesquisa em renda fixa da One, Marcelo Soares, também cita Petrobras, Itaúsa, BB Seguridade e Cemig, além da Copel, CPFL Energia e Taesa entre as pagadoras relevantes.
"Em uma simulação simples, R$ 10 mil em uma ação com dividend yield de 10% representariam cerca de R$ 1.000 em dividendos no período." O analista ressalta, porém, que o indicador olha para pagamentos passados e não garante que o mesmo valor será distribuído novamente.
Dividendos não são todo o retorno da ação
A vantagem da renda fixa parece ficar mais clara quando a comparação considera apenas o dinheiro recebido no período, na visão dos analistas. Só que a comparação muda quando entra a variação do preço da ação, pois quem investe na bolsa pode ganhar com os dividendos e também com a valorização do papel.
Da mesma forma, uma queda da cotação pode reduzir ou até superar os ganhos recebidos em proventos.
O analista da Empiricus, Ruy Hungria, considera que olhar apenas para os dividendos deixa parte do resultado de fora. Em uma simulação com Petrobras, Vale, Itaú e B3, Hungria considera um dividend yield médio de 9%.
Aplicado apenas como referência sobre R$ 10 mil investidos, esse percentual corresponderia a cerca de R$ 900 em dividendos no período. "O que é menos que a Selic", pontuou Hungria. Ele vê, porém, que a valorização das ações pode compensar essa diferença.
Já Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, tem uma avaliação semelhante à estratégia de dividendos. "A vantagem da renda fixa é o retorno previsível e sem exposição ao preço do ativo. A vantagem das ações é o potencial de valorização do capital, que a renda fixa não oferece."
Quanto a ação precisa render para compensar o risco
Os juros elevados também aumentam o chamado prêmio de risco, ou seja, o retorno adicional esperado pelo investidor para aceitar mais incerteza.
Assunção calcula que, diante de 11% líquidos na renda fixa, uma ação precisaria oferecer um retorno total entre 15% e 17% ao ano, considerando dividendos e valorização. "Menos que isso, o investidor está correndo risco de sócio pra ganhar retorno de credor", disse.
Soares evita estabelecer uma taxa única, pois isso depende do risco da própria empresa. "Uma empresa que paga 8% ou 10% em dividendos, por exemplo, ainda pode ser interessante dependendo da expectativa de crescimento e valorização. O ponto principal é que quanto maior o risco da empresa maior deve ser o retorno", detalhou.
O risco de escolher apenas pelo dividend yield
O maior dividend yield da bolsa também não é necessariamente o melhor. O indicador pode subir porque a empresa pagou muitos dividendos, mas também porque o preço da ação caiu fortemente. "O yield alto pode ser sintoma, não virtude", na avaliação de Assunção.
Entre os riscos, ele cita ações que despencaram de preço e pagamentos extraordinários que dificilmente serão repetidos, enquanto Soares recomenda observar também geração de caixa, endividamento e payout. Este último mostra qual parcela do lucro da companhia é destinada aos acionistas.
"Também é preciso entender se aquele lucro é recorrente e se a empresa tem condições de continuar remunerando o acionista no futuro."Marcelo Soares, analista de pesquisa em renda fixa da One
Hungria, da Empiricus, destaca a mesma preocupação ao lembrar que os rankings mostram, principalmente, o passado. "Para nós, dividendos são consequência de resultados bons, balanço saudável e boa geração de caixa, esses fatores sim deveriam ser analisados antes desse tipo de investimento."
*Este texto não é uma recomendação de investimento da EXAME, apenas trás análises de mercado.
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