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Wednesday, November 4, 2026

Gerdau para de produzir aço em Divinópolis e cidade teme perder até 15% do ICMS

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  • A Gerdau decidiu encerrar a produção de aço em sua unidade de Divinópolis (MG), em comunicado feito nesta terça-feira (3)
  • Segundo a prefeitura, a medida atinge cerca de mil pessoas, entre funcionários próprios e terceirizados, o equivalente a 7,4% do emprego industrial da cidade
  • Estudos do município indicam que a unidade pode responder por até 15% do repasse de ICMS
  • A empresa atribui a decisão à falta de minério de ferro a custo competitivo, ao avanço das importações de aço e ao mercado externo desfavorável
  • Com a saída de Divinópolis, Ouro Branco fica como a única usina integrada da Gerdau produzindo aço no Brasil

A Gerdau (GGBR4) vai encerrar a produção de aço em sua unidade de Divinópolis, em Minas Gerais. A decisão foi comunicada nesta terça-feira, 3, e, segundo a prefeitura do município, afeta diretamente cerca de mil pessoas, entre trabalhadores próprios e terceirizados.

Em nota, a siderúrgica afirma que a medida está relacionada principalmente à perda de competitividade da operação, "em razão da ausência de fornecimento de minério de ferro a custos competitivos", fator que vem pressionando os custos de produção.

A empresa cita ainda o avanço das importações de aço no mercado brasileiro e as condições desfavoráveis do mercado internacional, sobretudo para as exportações, que historicamente tiveram peso relevante para a unidade.

De acordo com a Gerdau, o encerramento faz parte da estratégia de concentrar a produção de aço no Brasil em ativos "mais competitivos, eficientes e com maior nível tecnológico".

A companhia diz avaliar a transferência de parte dos funcionários para outras unidades e afirma que vai oferecer cursos de qualificação técnica e workshops voltados à recolocação profissional.

O peso da usina para Divinópolis

Os cerca de mil postos afetados equivalem a 7,4% do emprego industrial do município, segundo a prefeitura. Estudos da administração municipal indicam que a unidade pode representar até cerca de 15% do repasse de ICMS à cidade.

A prefeitura também chama atenção para a cadeia em volta da usina. Nos bairros Interlagos e Porto Velho, no entorno da unidade, estão mais de 2 mil empresas, 93% delas microempresas, o que expõe fornecedores, transportadoras, comércio e serviços aos efeitos da decisão.

A prefeitura promete lançar, ao longo da semana, um programa para reduzir os efeitos da decisão sobre trabalhadores e negócios locais.

"A Gerdau é parceira histórica de Divinópolis. Reconhecemos essa trajetória, mas não minimizamos a gravidade da decisão e seus impactos. Nossa prioridade é apoiar as pessoas impactadas, acompanhar a cadeia produtiva e defender a economia da cidade. Divinópolis tem uma economia diversificada, mas isso não reduz a gravidade deste momento. Vamos intensificar as conversas com o setor produtivo e fazer tudo o que está ao alcance do Município, sem promessas que não dependem de nós", afirmou a prefeita Janete Aparecida, em comunicado.

Uma usina movida a carvão vegetal

Divinópolis é uma das três usinas integradas da Gerdau no Brasil, segundo o Formulário de Referência da companhia. Diferentemente das mini-mills, que derretem sucata em fornos elétricos, as usinas integradas produzem aço a partir do minério de ferro, em altos-fornos.

Em Divinópolis, o processo usa carvão vegetal no lugar do carvão mineral para transformar o minério em ferro metálico. A empresa classifica essa rota como de baixa emissão de gases de efeito estufa, já que o carvão vegetal é produzido nas fazendas da própria Gerdau.

Com o fim da produção de aço na unidade, Ouro Branco passa a ser a única usina integrada da companhia produzindo aço no país. A planta já é a maior da Gerdau no Brasil e respondeu por 55,2% do aço bruto produzido pelo segmento em 2025. A empresa opera ainda 11 mini-mills no país.

O documento informa que a Gerdau tem duas minas de minério de ferro em Minas Gerais, Várzea do Lopes e Miguel Burnier, e que o minério granulado produzido nelas se destina principalmente a Ouro Branco.

Em 2025, as usinas da companhia no Brasil consumiram 6,3 milhões de toneladas de minério, abastecidas em parte por mineradoras vizinhas e em parte pelas minas próprias.

Barão de Cocais e cortes de pessoal

Divinópolis não é a primeira usina integrada da Gerdau a parar. A terceira unidade do grupo, Barão de Cocais, também em Minas, suspendeu a produção em 2024 "devido ao mercado interno mais difícil no Brasil", segundo o Formulário de Referência. No mesmo ano, a companhia recorreu a hibernações de unidades para reduzir custos.

Em 2025, a empresa diz ter promovido reduções na força de trabalho em razão do "aumento significativo das importações predatórias de aço" no mercado brasileiro. No capítulo de fatores de risco do Formulário, a Gerdau afirma que, se o governo não adotar medidas contra o aço subsidiado, poderá considerar a reestruturação de suas operações no Brasil, o que "poderia envolver o encerramento de outras capacidades de produção" e uma "recalibração da força de trabalho".

O pano de fundo é o recorde de importações. Segundo dados do Instituto Aço Brasil citados pela empresa, o país importou 6,4 milhões de toneladas de aço em 2025, alta de 7,4% sobre 2024 e terceiro recorde anual seguido. A participação do aço importado no consumo chegou a 21%, patamar 60% acima da média dos últimos dez anos. O CEO da companhia, Gustavo Werneck, já vinha criticando a concorrência do aço chinês vendido a preços desleais.

Enquanto isso, a companhia concentra investimentos em mineração em Minas Gerais e na operação nos Estados Unidos.

Baixa contábil e processo trabalhista

No balanço de 2025, a Gerdau reconheceu R$ 1,96 bilhão em perdas por desvalorização de ativos no Brasil, sem efeito no caixa. Segundo as demonstrações financeiras, a baixa decorre da revisão do plano de investimentos das plantas, com "significativa redução" em relação aos anos anteriores, do "nível de utilização de ativos de certas plantas industriais" no país e da expectativa de piora das condições econômicas. A companhia não identifica quais unidades foram afetadas.

A usina de Divinópolis também é alvo de uma ação coletiva trabalhista movida em 2010 pelo sindicato dos metalúrgicos da cidade, que pede adicionais de insalubridade e periculosidade para empregados de diversas áreas da planta.

O processo envolve R$ 162,3 milhões, e a Gerdau classifica a chance de perda como provável, com R$ 27,6 milhões provisionados. Depois de decisões desfavoráveis à empresa, o caso aguarda no TST a análise de um recurso extraordinário ao STF.

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