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Tuesday, October 13, 2026

"Zelensky é o alvo fácil de Donald Trump"

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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário e especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia. Bem-vindo. Francisco, Trump anuncia um cessar-fogo energético entre Moscovo e Kiev, ameaça cortar armas à Ucrânia, diz que é altura de Zelensky ir a votos e avança com o acordo petrolífero com a Rússia. Tudo golpes duros para a Ucrânia, que volta a ficar sob pressão. Como é que se recupera disto? Já vimos que não é com as sanções da União Europeia.

Com muita pressão sobre os Estados Unidos. Eu acho que acima de tudo, vamos ter que esperar algumas semanas pelas eleições. Agora, primeira terça-feira de novembro, creio que é 3 de novembro. E até lá temos que esperar mais disto. Este tipo de decisões do presidente americano que parecem ser a musca que ele tem para tentar justificar junto dos americanos porque os preços dos combustíveis estão tão elevados. Ele tem que encontrar algum responsável, e o responsável que ele está a tentar encontrar é Zelensky, e não ele. Os preços dos combustíveis estão elevados não por causa da guerra do Irão que ele provocou, mas porque a Ucrânia está a atacar refinarias russas. E por isso o preço do gasóleo, especialmente nos Estados Unidos, que é muito importante, principalmente nos estados que têm muita agricultura e, portanto, é o tipo de combustível que é necessário, está ao dobro do preço. Isto é a resposta de Trump, típica, de encontrar outros responsáveis e nunca assumir qualquer tipo de responsabilidade por aquilo que está a acontecer. E o alvo fácil é a Ucrânia. De facto, os ucranianos estão a atacar refinarias e isso, evidentemente, tem um pequeno impacto também no preço do gasóleo, porque diminui a oferta. Mas se não tivéssemos tido a guerra no Irão, o preço estaria um bocadinho mais elevado, mas não seria objeto de discussão neste momento. É a forma que ele encontrou. Ele propôs um cessar-fogo, mas é um cessar-fogo muito particular.

A Rússia, horas depois, já estava a atacar a Ucrânia.

Não, porque depois já percebemos o que ele estava a propor, porque ele faz um tweet um bocadinho elíptico, sem explicar muito bem o que aquilo significava. Então o que era? A Ucrânia não vai atacar refinarias na Rússia e a Rússia não vai atacar refinarias na Ucrânia. Só que há um problema: é que os russos já destruíram todas as refinarias que existiam na Ucrânia.

Quase o número de refinarias existentes.

Era zero. Os ucranianos disseram: "Mas espera aí, se nós vamos aceitar este cessar-fogo, o que nós ganhamos com isto?" Ganhou a minha boa vontade, aparentemente, não há mais nada. Para além do acordo que fez sobre a venda de diesel, que é contrário inclusivamente a uma lei do próprio Congresso Americano. Aquilo nem sequer é legal nos Estados Unidos.

E que vai ajudar a Rússia no seu esforço de guerra, não é?

Isso já não sei, porque a Rússia neste momento tinha uma proibição de exportação de diesel, porque tinha dificuldades em prover o seu próprio mercado interno. Aparentemente, já teriam algum excedente que iriam exportar. Mas neste momento há uma grande procura no mercado internacional, Marisa. Eu duvido que os Estados Unidos paguem mais pelo diesel do que outros estados também interessados. É claro que vamos ver dinheiro americano entrar nos cofres russos, eu não tenho nada certeza que esse dinheiro não entrasse de outra via qualquer. Muito provavelmente. Além de que é longe e é preciso chegar lá.

Tudo vai encarecer, não é?

Tudo vai encarecer, em princípio. Eu não acho que esse seja o problema em concreto. Agora, ele ameaçou que iria cortar a partilha de informações com os ucranianos e isso pode ter algumas consequências, porque este tipo de ataques necessitam de apoio logístico americano, designadamente através das redes satélites que os Estados Unidos têm, que é muito sofisticada, e ninguém sabe muito bem até que ponto é que a rede europeia consegue suprir a falta das informações americanas. Isso pode cegar um bocadinho a Ucrânia neste tipo de ataques em profundidade que eles têm feito, com grande sucesso. Isto é a prova do conceito. Que o que a Ucrânia tem feito somente nos últimos meses está a ter resultado. E, por outro lado, para Putin, isto é uma grande vitória, porque é, no fundo, Trump a mostrar: "Já temos aqui alguém que nos vai ajudar a resolver este grande problema que nós temos, que é o custo de vida nos Estados Unidos".

Sobre as eleições, Zelensky não diz que não, respondeu a Trump ao dizer que só o povo ucraniano pode mudar o seu líder, mas para que isso aconteça, a Rússia tem que garantir pelo menos tréguas durante 60 dias. A bola está do lado de Moscovo. Francisco, o que parece que vai acabar por acontecer, conhecendo quer Trump, quer Vladimir Putin?

O Putin, neste momento, aproveita a situação.

Trump diz agora que Putin quer mais a paz do que Zelensky.

Exatamente. Trump está aqui a reproduzir tudo o que são as narrativas russas em relação a este conflito. No fundo, dizer que este conflito é um conflito entre a Rússia e o governo ucraniano, que é governado por nazis. Afastando-se estas pessoas, regressaremos a uma situação de paz, até porque de acordo com o próprio Putin, e isto é importante sempre dizer, não há nenhum problema entre a Rússia e a Ucrânia, porque ainda por cima são todos russos. Os ucranianos são russos, Kiev é a mãe de todas as cidades russas, são todos descendentes dos vikings, e o único problema que existe neste momento é o governo ucraniano que foi capturado por nazis satânicos. Resolvendo-se este problema com eleições, porque o povo russo seguramente escolheria, em condições de liberdade, outras pessoas, todo este problema está resolvido. É claro que o Trump, neste momento, aceita estas narrativas porque lhe convém no contexto das eleições norte-americanas, e já estamos a ver a imprensa americana próxima do mundo MAGA reproduzir outra vez todas estas narrativas.

Para desviar atenções do Médio Oriente.

Completamente, para desviar as atenções do Médio Oriente, onde ele, de facto, não conseguiu resolver o conflito. Aliás, ele disse que o Estreito de Ormuz está aberto, mas, na verdade, todos sabemos que aparentemente não está. O que estamos a ver agora é justamente a consequência da guerra de fevereiro, porque foi possível, porque havia uma série de almofadas, mitigar os efeitos do fecho do Estreito de Ormuz, mas não é possível esconder o problema durante muito tempo. Estimava-se que isso ia acontecer e, portanto, mesmo que o estreito abrisse agora, mesmo que a guerra na Ucrânia acabasse, iríamos ter consequências, porque os efeitos daquilo que aconteceu vão perdurar no tempo durante algum tempo e Trump fez mal as contas. E se há coisa que os americanos não perdoam é chegar à bomba de gasolina e ver os preços no ponto em que estão, especialmente porque ele prometeu-lhes há dois anos baixar. Que iria baixar a inflação, a deflação, permitiu deflação. E, portanto, evidentemente, isto é muito difícil de esconder.

Sobre o Médio Oriente, os ataques dos houthis dos últimos dias são já considerados os mais mortíferos na Arábia Saudita numa década. Depois dos aeroportos, esta madrugada atingiram também um hospital. As Forças Armadas sauditas dizem que também por causa da guerra contra o Irão, estão a ficar limitadas no número de interceptores capazes de deter os mísseis e os drones disparados pelos rebeldes. Francisco, como é que se param os houthis? Como é que um grupo destes pode ter tanta força e causar tantos danos?

Realmente é um grande problema. Eu acho que se conseguia parar os houthis, como a certa altura se conseguiu resolver o problema de epidemia ao largo da Somália com uma grande coligação internacional. Só que neste momento, depois daquilo que aconteceu na guerra do Irão, parece que isso não é possível. Agora, de facto, é muito difícil para os sauditas. Houve um ataque ao principal aeroporto da capital saudita, um dos terminais de passageiros foi atacado, tivemos vários mortos civis. Estamos a falar de um país que se queria abrir ao turismo. Íamos ter agora várias conferências internacionais muito importantes e que foi incapaz de proteger o seu aeroporto dos houthis. Estamos a falar de um grupo não estadual apoiado pelo Irão, que aparentemente já tem capacidades militares para causar este tipo de danos num dos principais países e potências da região. Estão neste momento completamente expostos a este pequeno grupo. É que não é o Irão. O Irão é um grande país, um dos maiores países do mundo, com grandes recursos. Os houthis não têm nada, não têm petróleo, têm um apoio mínimo que vem do Irão e ainda assim conseguem fazer isso. O que isto nos mostra? Mostra-nos que as capacidades assimétricas deste tipo de grupos são, neste momento, muito significativas e, portanto, a Arábia Saudita, se acha que vai resolver isto como achou há 10 anos pela via militar, vai ser muito difícil. E depois há este problema, que é o que a Arábia Saudita pode fazer sobre os houthis, destruir o Iémen? Pois, só que o Iémen já está destruído.

E os Estados Unidos?

E os Estados Unidos é a mesma coisa. O Trump, uma das primeiras coisas que fez, não sei se se lembra daquela discussão que houve no Signal com o Pete Hegseth, que foi descoberto por um jornalista, era sobre os ataques aos houthis, porque eles chegaram e disseram: "Vamos resolver este problema, porque vamos bombardeá-los como eles nunca foram bombardeados e eles rapidamente vão pedir tréguas e isto vai ser resolvido rapidamente". O que eles fizeram? Bombardearam os houthis, gastaram mil milhões de dólares e a certa altura o Trump disse: "Mas o que nós estamos aqui a fazer? É impossível erradicar estes senhores. Aquilo já está tudo destruído e, portanto, vamos rapidamente fazer um acordo com eles." Foi o que o Trump fez. Trump tem essa vantagem. A certa altura, ele percebe que não tem nada a ganhar e não vai continuar só por continuar. E fez um acordo com os houthis. E por isso é que ele não quis regressar à guerra com os houthis, porque percebeu que não tinha absolutamente nada a ganhar, e lhe seria muito difícil resolver aquele conflito. Aliás, só resolveria, como resolveria o conflito do Irão, se fizesse uma invasão terrestre. Qual é a probabilidade de isso acontecer, de arriscar vidas de americanos no Iémen?

Vai eleições a 3 de novembro.

Mesmo sem eleições, quer dizer, isso é a última coisa que ele faria, porque um ataque aéreo sem vítimas militares, isso ele até poderia fazer, assim nunca fará. E portanto, realmente, os sauditas têm ali um problema gravíssimo e a certa altura vão ter que aceitar a realidade e negociar com os houthis. E será uma negociação muito difícil, porque provavelmente significará reconhecer a derrota e reconhecer os houthis, o que é péssimo, mas nós já tivemos esta discussão, por exemplo, no Afeganistão com os talibãs. Ninguém está satisfeito que o Afeganistão tenha regressado à Idade Média, mas qual é que é a alternativa que nós neste momento temos? Não é muito boa.

É muito triste. Sim. Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise. Bom final de semana.

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