Como Carlos Guerreiro mantém vivo o ofício de encadernador

“Gosto de ensinar, é muito importante, em especial para quem tem gosto pelas artes”. É o caso do engenheiro informático José Manuel, lisboeta de 58 anos que decidiu iniciar o seu percurso neste meio através de um curso de desenho na Universidade de Belas-Artes. Depois, participou num workshop de encadernação e decidiu então investir em aprender na prática. Nas suas mãos, tem agora os cadernos da quarta classe de um amigo, repletos de treinos de caligrafia com letra cursiva. Sob a supervisão do professor Carlos, que o acompanha há cinco anos e lhe empresta as ferramentas, retirou argolas enferrujadas e está a desenvolver capas para conservar as recordações. Há ainda mais uma aluna, Patrícia, que aproveita o tempo livre aos sábados para também aprender com o mestre encadernador.
Religiosos, realezas e raridades
O facto de o cliente ser mais ou menos famoso não define o preço do trabalho, mas sim o nível de dificuldade e as horas necessárias para finalizar. Carlos não se envaidece ao pensar nas suas criações que foram parar às mãos de figuras conhecidas em todo o mundo. Este ano, foi convidado para entregar nas mãos do Papa Leão XIV, no Vaticano, um trabalho que fez para o próprio. Foi a pedido do Patriarcado de Lisboa que transformou em livro uma compilação de cartas de fiéis portugueses, envoltas por uma capa feita também no seu atelier em Lisboa. “A oportunidade veio numa altura em que não me deu muito jeito. Não tive tempo, estava cheio de trabalho”, justifica.
Dispensou também convites do chef José Avillez para jantar num dos seus restaurantes, cujas ementas foram feitas pelo encadernador. Não só o Bairro do Avillez, mas também o Café de São Bento, o Gambrinus e o Tia Alice, em Fátima, contrataram o artesão. “Eu gosto mesmo é de tascas”, confessa. Não lhe perguntar as suas favoritas no Bairro Alto, onde costuma regressar para reencontrar os amigos, seria desperdiçar as recomendações de quem lá esteve por tantos anos: “Tasca do Chico, Papo Cheio, Cantinho da Rosa e Casa da Índia”. As da recente vizinhança ainda estão por descobrir.
Quando o Observador é recebido por Carlos no seu novo espaço, encontra-se a finalizar mais um entre vários trabalhos de clientes: o restauro de uma bíblia cuja inscrição aponta ser de 1879. A capa velha, já deteriorada, foi trocada por uma nova. Carlos tentou replicar as características da original, como a cor da pele e os detalhes gravados. Ao chegar ao balcão, pousa o livro. “Tem que abrir sempre bem”, explica, folheando as páginas com as mãos marcadas pelas ferramentas afiadas e aquecidas. Em alguns momentos, tem também a ajuda da sua mulher, Marília Ferreira, de 61 anos, para costurar os papéis.
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