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Wednesday, October 14, 2026

Fóssil descoberto em rochas da Esfinge de Gizé é de parente de crocodilo

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Um fóssil de réptil descoberto em rochas usadas para a construção da Grande Esfinge de Gizé, no Egito, em 2.500 a.C., voltou a ser analisado por cientistas quase um século após ser descrito. A nova pesquisa indica que o espécime parece ser um antigo parente do gavial-indiano, um dos únicos representantes ainda existentes desse réptil que se assemelha a crocodilos e jacarés e é encontrado na Ásia.

A conclusão é descrita em um artigo publicado no último dia 6 na revista Royal Society Open Science. Na nova análise, o fóssil ganhou outro nome: Herugavialis cairensis. É uma homenagem ao deus egípcio Hórus, que também está associado à figura da Grande Esfinge de Gizé.

No fim do século 18, o paleontólogo alemão Richard Markgraf (1869–1916) encontrou o holótipo (material utilizado como base em descrições taxonômicas) do crocodiliano, cuja idade estimada é de 48 milhões de anos (Eoceno Médio). Não se sabe ao certo como se deu a descoberta, pois há poucos registros científicos que comprovem o ano exato da expedição.

Mais tarde, em 1904, outro alemão, o naturalista Eberhard Fraas (1892–1915), estudou o material. Porém, só depois, em 1927, viria a descrição do fóssil. A tarefa coube ao paleontólogo Lorenz Müller, do Museu de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, que o batizou de Tomistoma cairense. Isso porque ele viu semelhanças anatômicas do fóssil com o falso-gavial (Tomistoma schlegelii), espécie que hoje vive no Sudeste Asiático.

O trabalho envolveu pesquisadores de diferentes instituições: Paul Burke e Philip Mannion, da Universidade College de Londres (Inglaterra); Stephan Spiekman, do Museu de Stuttgart; Belal Salem, Sara Saber e Hesham Sallam, da Universidade de Mansoura (Egito).

Para reavaliar a espécie, eles examinaram o crânio original e outros fragmentos atribuídos ao animal, incluindo partes das mandíbulas e do focinho. Curiosamente, assim como na Grande Esfinge, a ponta do focinho de H. cairensis também está ausente, referente ao osso pré-maxilar.

"Com os dados da tomografia computadorizada, conseguimos reconstruir os ossos e verificar como a morfologia de Herugavialis difere dos dois gaviais atuais", disse Burke à Folha.

A diversidade do grupo do qual fazem parte os crocodilos, jacarés e gaviais, chamados de Crocodiliformes, era muito maior no passado. Análises evolutivas mais recentes indicam relações próximas entre Crocodiloidea e Gavialoidea, que incluem os crocodilos de água doce e o crocodilo marinho e as duas espécies de gaviais de água doce, ambas na Ásia. Já o registro fóssil reúne mais de 40 espécies, distribuídas pelo norte da África, Ásia, Europa e América do Norte.

Entre as características identificadas estão as órbitas oculares com bordas elevadas, formadas por diferentes ossos do crânio, e o alongamento dos lacrimais, ossos localizados à frente dos olhos.

O crânio também apresenta diferenças na região posterior da cabeça e na anatomia da caixa craniana, que abriga o encéfalo (cérebro). O conjunto dessas características permitiu distinguir H. cairensis tanto do falso-gavial atual quanto de outras espécies fósseis.

O resultado indica que o animal é um representante antigo da linhagem do gavial-indiano (Gavialis gangeticus) que hoje habita o rio Ganges, na Índia, diferente do ambiente em que H. cairensis viveu, de mar raso. Além disso, ele não tem nenhum parentesco com as demais espécies que viveram durante o Paleógeno no Mediterrâneo.

"Em nosso artigo, apresentamos as diferenças anatômicas entre Herugavialis e outros gavialoides do Egito (....). As diferenças são suficientemente claras para confirmarmos que se trata de espécies distintas. Ainda estamos trabalhando para compreender a história evolutiva dos gavialoides, mas nossos resultados indicam que havia três espécies distintas no Egito durante o Paleógeno", diz Burke.

As outras espécies egípcias são Paratomistoma courti, do Eoceno Médio (aproximadamente 41 milhões de anos) da Formação Gehannam, e Eogavialis africanum, do final do Eoceno (37 milhões de anos atrás) da formação Qasr el-Sagha, ambas próximas à cidade de Faium, ao sul do Cairo. Segundo Belal Salem, da Universidade de Mansoura, a redescrição ajuda a recompor a história biogeográfica dos gavioloides no norte da África.

"Essas três espécies não são aparentadas, ou seja, não representam uma sequência evolutiva simples. São linhagens distintas que ocuparam o norte do Egito em diferentes períodos", afirma o pesquisador. "Juntamente com registros do Marrocos, elas sugerem que o norte da África abrigou uma diversidade considerável de gavialoides ao longo do Eoceno, com diferentes linhagens ocupando ambientes marinhos rasos ao longo da margem sul do mar de Tétis."

Na passagem do Eoceno para o Oligoceno, com um resfriamento global da temperatura e a redução no nível dos oceanos, os cientistas afirmam que as linhagens de gavialoides mediterrâneas sofreram extinções pontuais. As linhagens posteriores, representadas por fósseis encontrados em rochas do Mioceno Inferior e Médio (23 milhões a 5,3 milhões de anos atrás) na Itália, Portugal e Malta, são distintas da de H. cairensis.

Segundo Salem, a ausência dos gavialoides do Mediterrâneo durante o Oligoceno reflete um declínio da diversidade no período frio, seguido por uma recolonização da região quando as condições voltaram a ser favoráveis.

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