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Monday, September 28, 2026

Análise: Depois de Londres, Nova York termina a semana do clima refém do próprio clima

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Os sinais estavam aí. O time EXAME cobre a semana do clima de Nova York há alguns bons anos.

Mas foi a primeira vez, que ao me preparar para esta edição, tive que encontrar espaço na mala para um casaco de lã depois de consultar a previsão e ver os termômetros em 12, 13 graus - algo pouco usual para dias que costumam pegar o fim do verão americano.

Iniciada em 20 de setembro, a Climate Week de Nova York reuniu líderes, cientistas e executivos para debater a crise climática e caminhava para o encerramento quando, por volta de quinta-feira, 24, os alertas meteorológicos locais passaram a dominar as conversas.

Então, o que era pauta de painel virou emergência de rua. Culminando em situações como, na sexta-feira, 25, o inédito cancelamento do Global Citizen Festival, marcado para o dia seguinte.

Sem clima para festival

Realizado em Nova York desde 2012, o Global Citizen é, mais do que um show, a face mais visível de uma campanha global contra a pobreza extrema.

A organização que o promove engaja governos e empresas em causas como educação, saúde, combate à fome e clima. Os ingressos não são vendidos ao público, mas conquistados por quem pratica ações de ativismo, como assinar petições e cobrar líderes.

Por isso, mesmo sem palco, a edição deste ano exibiu seu saldo: foram 3,5 milhões de ações que, segundo a organização, renderam US$ 208,8 milhões em compromissos financeiros, entre eles US$ 151,6 milhões de Irlanda e Canadá para manter crianças na escola.

O evento estava marcado para o Great Lawn do Central Park e costuma reunir dezenas de milhares de pessoas. Confirmados neste sábado, nomes como Lauryn Hill, Lenny Kravitz, John Legend e o grupo sul-coreano TXT, com apresentação de Hugh Jackman.

"A segurança precisa vir primeiro. Esta é a primeira vez em 14 anos que tivemos de cancelar", afirmou o Global Citizen, em comunicado. Ingressos e doações seriam reembolsados.

Outros festivais como o All Things Go e CBGB, também previstos para o fim de semana, caíram pela mesma razão.

Uma tempestade fora de época

A tempestade que esvaziou o Central Park é uma nor'easter, nome que os americanos dão aos temporais da costa leste alimentados por ventos que sopram do nordeste, a direção que batiza o fenômeno.

Diferentemente dos furacões, essas tempestades não recebem nome próprio, mas podem ser igualmente destrutivas. São mais comuns entre setembro e abril e costumam se formar entre a Geórgia e Nova Jersey, avançando rumo à Nova Inglaterra.

O que chamou atenção foi a força incomum de um sistema desses ainda em setembro.

O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA previu chuva intensa, ventos fortes, ressaca e alagamentos costeiros ao longo do fim de semana, com efeitos capazes de atingir cerca de 40 milhões de pessoas do Meio-Atlântico à Nova Inglaterra.

Em Nova York, a previsão era de até 130 milímetros de chuva, rajadas de 40 a 50 milhas por hora e maré de tempestade de até um metro em áreas costeiras do Queens, do Brooklyn e de Staten Island, com pontos de alagamento perto da Battery e da Baía de Flushing.

A cidade ativou o plano de emergência para enchentes-relâmpago, e o prefeito Zohran Mamdani emitiu um alerta de viagem. "Reserve mais tempo, confira seu trem, balsa ou voo antes de sair e fique longe das vias costeiras mais baixas", recomendou.

O que se viu ao longo do fim de semana confirmou os piores prognósticos. A tempestade deixou ao menos uma vítima fatal em Nova York, atingido pela queda de uma árvore no sábado.

Marés altas invadiram bairros baixos, como Howard Beach, no Queens. Mais de 100 mil imóveis ficaram sem energia entre Nova Jersey e Connecticut, quase 17 mil deles em Long Island.

Nos aeroportos, a LaGuardia acumulou quase 600 voos atrasados já na tarde de sexta, e cinco grandes companhias, entre elas American, Delta, United, JetBlue e Southwest, liberaram a remarcação de passagens em dezenas de aeroportos do Nordeste durante o fim de semana.

De Londres a Nova York

Na London Climate Action Week, em junho deste ano, um painel sobre temperaturas extremas foi cancelado porque o prédio estava quente demais, em meio à onda de calor que o World Weather Attribution classificou como uma das mais severas já registradas na Europa.

Agora, do outro lado do Atlântico, a água tomou o lugar do calor, em mais uma semana do clima travada pelo clima.

Em Nova York, os dias de conferência já dividiam as atenções com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e com a corrida da inteligência artificial, que dominaram a semana de alto nível da ONU.

No fim, coube ao próprio clima encerrar a conversa, à força. E para além das discussões entre os decisores de alto escalão, o que aconteceu diz respeito também a quem não senta à mesa.

As decisões sobre clima e meio ambiente precisam, cada vez mais, acontecer considerando a vida cotidiana.

Quando a tempestade comprometeu o transporte, a energia e a rotina de milhões de pessoas, quem sentiu o baque já não estaria mesmo em nenhum painel.

Uma contradição sobre rodas

Enquanto alguns fóruns debatiam a saída dos combustíveis fósseis, a cidade foi tomada por uma campanha ostensiva da COP31, a conferência do clima que a Turquia sediará em Antália, em novembro.

Coordenada pela Direção de Comunicações da Presidência turca, a ação espalhou telões pela cidade, e, diante da própria sede da ONU, um prédio inteiro amanheceu coberto por uma faixa com a imagem do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o slogan da presidência da conferência.

Já no domingo, 20, um comboio de pequenos caminhões com telas de LED rodou pelas ruas, da Times Square à Grand Central, estampando a foto de Erdogan e lemas como "o futuro do mundo está na Turquia" e "hoje pelo amanhã".

Climate Week de Nova York: Comboio movido a diesel anuncia a COP31 em telões de LED pelas ruas da cidade. (Lia Rizzo/Exame)

A mensagem que ficou, contudo, foi da contradição literal: para anunciar uma cúpula sobre a transição energética, caminhões que rodavam a diesel.

A memória das enchentes

Em outubro de 2012, o furacão Sandy inundou túneis e o metrô, matou mais de 40 pessoas na cidade e deixou um prejuízo superior a US$ 19 bilhões.

Nove anos depois, ainda que enfraquecido ao chegar na região, o furacão Ida provocou uma chuva recorde no Central Park e matou 13 pessoas, a maioria em apartamentos de porão no Queens, no primeiro estado de emergência por enchente-relâmpago decretado pela cidade.

Depois, em 2023, foi a vez da tempestade tropical Ophelia, que trouxe o setembro mais chuvoso em 140 anos e voltou a alagar ruas e estações de metrô, poucos dias após a semana do clima daquele ano.

Cada episódio veio seguido de promessas de resiliência, com barreiras, bombas e obras de drenagem. Ainda assim, boa parte da infraestrutura segue como foi pensada, para outro clima e outra época. E uma tempestade de fim de semana basta para expor o limite.

É esse o recado que a última semana relevante dedicada aos impactos das mudanças climáticas deixa para a Turquia.

Em pouco mais de um mês, a COP31 terá de ser mais do que a vitrine que tomou as ruas de Nova York. E precisará tentar transformar propaganda em decisões e ações sobre o presente e o futuro, por mais desgastados que estejam os fóruns multilaterais e as próprias COPs.

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