Digger ou Mike Tyson: qual bate mais (ou menos)? — Sugestões

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Cá estamos de regresso para as sugestões da semana com o carimbo de qualidade do "Pop Up". Maria Ramos Silva, por falar em qualidade, vamos começar por ti. Tens livros para isto, livros para aquilo. Queres começar por onde?
Hoje é tudo para sair de Lisboa.
Lisboa.
Também é preciso. Primeiro trago um livrinho do Miguel Branco, uma pessoa que eu conheço, que muito estimo e que tem muito talento. Chama-se "Esse silêncio que determina o almoço".
Mike White.
Mike White. Nós chamamos mesmo Mike White.
Grande abraço.
Um grande abraço para o amigo.
É o autor do "White Lotus".
É verdade, Mike White. Desculpem.
E agora era o Miguel Branco.
E agora era o Miguel. Tínhamos mentido este tempo todo.
Era bem divertido.
Era muito divertido.
Mas não me admira que chegue lá um dia destes. Este é um volume para a secção de dramaturgia da editora Uru Tau, que é uma editora que foi criada em 2015 por um autor e editor brasileiro, o Wladimir Vaz, e entretanto ele andou por uma série de sítios, nomeadamente a Galiza, e eu penso que ele agora tem estado instalado no Barreiro nos últimos anos. É um trabalho autobiográfico do Miguel, que escreve, encena. Ele foi desenvolvido ao abrigo do programa de bolsas de criação literária 2022, promovido pela Direção Geral do Livro. Fala-nos da família com todos os seus conflitos e pontos. Não vou alongar-me muito, porque é uma história muito antiga.
Porque cada um tem a sua.
E cada um tem a sua e vai reconhecer isto muito facilmente. E na verdade, é um livrinho que fixa um texto que ele já levou à cena em 2024, numa produção da Companhia Mascarenhas Martins. O que é que é isto, Pedro?
Companhia Mascarenhas Martins é um grande nome.
Mascarenhas Martins, sim. Podia ser como no Facebook.
Não, parece aquelas lojas do Chiado do tempo do Essas. A minha avó ia sempre ao Mascarenhas Martins.
O armazém.
É verdade. Se não viram a peça, ficam com o livro e vão muito bem.
E já não é nada mau.
Depois, outro livro da margem sul para o Minho, para sairmos de Lisboa mais uma vez, o Ivo Guimarães Jazz 35 anos. Isto é uma edição que se autoexplica, dedicada à história e ao percurso internacional do festival, que foi apresentada agora na passada sexta-feira. Tem coordenação do Ivo Martins, que é o programador do Guimarães Jazz, e vem reforçar uma edição que na verdade já tinha acontecido pelos 25 anos, mas agora parece que não passou mais uma década. Portanto, vale a pena esta revisão da matéria. Já agora, lança também a nova edição do festival, que acontece entre 12 e 21 de novembro, e que vai ter nomes como o Toninho Horta, o Cartel, Peter Evans, Artemis, enfim, vale sempre a pena passarem por lá.
Além disso, come-se muito bem.
Além disso, come-se muito bem. E só para recordar, um dos grandes nomes do jazz que nós conhecemos nacional, a Maria João, começou lá-
E é uma bela cidade
...tempos atrás, no início dos anos 90. Provavelmente até está naquele livro fabuloso de Pedro Mexia Mendes.
Qual livro?
Aquele livro sobre os anos 90.
Que ainda não falámos aqui.
Que ainda não falámos aqui devidamente. Depois, ainda na música, mais uma vez fora da capital. Agora não é para irem muito longe, ou é, depende de onde estiverem. Se estiverem em Guimarães, é um pouco longe, mas vale a pena passarem por Sintra, pelo Musa, o Museu de Artes e Sintra, onde vão poder ver pela primeira vez, em grande formato, 70 fotografias do Luís Vasconcelos, antigo fotojornalista, pai da nossa artista plástica portuguesa, Joana Vasconcelos, e que são mostradas em grande formato, estão reunidas numa edição em livro de 2024, que é o vinil. Mas agora vem fora do livro.
E claro.
Em maior. E passa pelos anos 70 e 80 da nossa cultura, com grandes nomes da Amália ou variações. Eu sei que já inaugurou, o momento em que falamos, não sei até quando vai estar disponível, mas espero que ainda tenham tempo suficiente para passar por Sintra.
Muito bem. Pedro Mexia Mendes, tu foste ver o "Digger", o mais recente filme-
Foi, desloquei-me propositadamente ao cinema
...de Iñárritu.
Nem sei o nome dele.
Alejandro Iñárritu, protagonizado por Tom Cruise, o Tom Cruise pós "Missão Impossível". Tom Cruise outra vez atrás do Oscar. Achas que vai lá?
Ele não tem Oscar, só tem o honorário.
É honorário, não conta, é daqueles a brincar.
Eu fui ver o filme sem até ter lido muito. Pronto, Tom Cruise, "Digger", Iñárritu, não sei o quê. Sabia isso, sabia essas três ou quatro coisas. Fui ver a duração do filme e vi que não eram seis horas.
Exato.
Duas, acho eu, uma coisa assim. É muito difícil falar do filme sem desvendar coisas acerca do filme.
Já toda a gente sabe.
Mas eu não ficaria surpreendido se ganhasse Oscars. Portanto, antes de começar a sessão, eu acharia que ia ser snubbed, ia ser ignorado, mas depois de ter visto o filme, mudei de opinião. E não me admiraria até que o Tom Cruise fosse nomeado. E se for nomeado e fizermos um programa sobre isso, eu vou dizer: "É merecido". O filme tem várias camadas, exagera nalgumas coisas que depois nós percebemos porque é que exagera, mas o Tom Cruise, de facto, carrega os filmes onde entra. No fundo, é o Tom Cruise a fazer coisas.
Exato.
E este não é a exceção. Pronto, se não tiverem nada que fazer-
Mas espera lá
...recomendo.
Calma.
Gostaste?
Exato.
Imagina, de um a 10, quanto é que lhe davas?
Meu Deus.
Pois é.
Sete.
Sete.
Seis e meio, sete. Mais para seis e meio, talvez.
Ok.
Mas é porque é uma coisa que eu tenho repetido ultimamente às pessoas que me querem ouvir. Eu estou a sair fora do algoritmo destas coisas. Já não tenho bem a idade para levar com este tipo de lições.
Já não são mergulhos por cavernas.
Pronto. Sim, mas se calhar é isso. Falávamos a semana passada Aquilo tem uma moral, uma lição.
Exato.
Ficas a pensar, como se dizia muito, acho que ainda se diz. Eu já estou fora desse-
Que é a história de um tipo
É um tipo ligado à exploração de petróleo, neste caso, não sei o quê, depois há uma explosão, depois o mundo vai acabar.
Ou seja, o mundo pode acabar por causa dele, mas ele vai se assumir como o tipo que vai salvar o mundo.
Não é bem por causa dele.
Estou a ser muito-
Sim. Depois ele está lá com o presidente da América, depois o presidente da América faz figuras de parvo e depois os outros assessores também fazem figuras de parvo. E depois há os cientistas especialistas que se vendem por uma dúzia de tostões. Depois ele tem um gato na mão, tipo o Blofeld, um gato grande.
James Bond.
E tudo aquilo tu pensas: "O que eu vim aqui fazer? Mais valia estar em casa a ver o Manchester United contra o Crystal Palace". Mas depois no fim, aquilo dá uma certa volta e tem lá momentos, instantes, instâncias, que seguram o filme. Não necessariamente por arames, mas por cabos. Também não diria laço. Cordas!
Cordas.
Lianas.
Estudo de engenharia. Cordas, tostões, fia-pã.
Mas sim, eu dou uns seis e meio, sete.
Muito bem.
É difícil dizer que fiquei desiludido, mas caramba, eu acho que todos nós queremos encher a barriga com um bom filme, com uma coisa de que gostamos.
Mas podes continuar a dizer que o Tom Cruise continua a fazer aquilo que faz, bem feito?
Sim, há uma dimensão neste filme que podia ser o episódio de uma série. Quando os filmes se parecem com episódios de uma série, tu ficas um bocadinho...
Mas isso também não é porque muitas séries agora já se parecem com filmes?
Pois, está bem. Então se eu faço um filme ou se eu sou aquela malta.
Tens de fazer diferente.
Propgação número três: não se esqueçam, não nos podemos parecer com uma série. Tem lá umas coisas fixes.
Muito bem.
Estreou esta quinta-feira que passou, "The Diplomat", quarta temporada, que é uma série, que é uma espécie de "House of Cards" meets qualquer coisa que agora não me lembro, mas eu tinha esta escrita.
A idade não perdoa.
Desculpa, meets "The Crown", porque tem muito Inglaterra e palácios e castelos.
E aviões da TAP.
Sim, tinha numa das temporadas.
Logo no primeiro episódio, que foi o único que eu vi.
É com a inacreditavelmente bonita e atraente Keri Russell.
Ora cá está. Um abraço para a Keri Russell.
Só teve um azar na vida, que é não me conhecer.
Sim. Ainda vai a tempo de corrigir isso.
Sim, é verdade.
Facebook. Mas o companheiro de vida dela é o Matthew Rhys, que é um homem absolutamente extraordinário. Pois é. Eu acho que eles estão ótimos um para o outro e espero que sejam muito felizes.
Podes trazê-lo para um duelo. Dá-se um fora.
Gostas muito do Matthew Rhys? Adoro o Matthew Rhys.
Então podias ficar com ele e eu e a Keri Russell íamos jantar.
Tranquilo, vamos a isso.
A série tem melhorado a cada season. São seasons de oito-
Eu estou na segunda
São seasons de oito episódios. Há sempre um caso, é sempre um caso que mete Rússia, América, Inglaterra, ministros, ou como se diz em Lisboa, ministros.
Ministros.
Embaixadores, sempre malta bem vestida, malta atraente. Há sempre malta nova em cada season, sempre um assessor novo, uma assessora. E a Netflix tem esta vantagem de enfiar todos os episódios de uma vez. Nós estamos a gravar isto antes, portanto eu já terei visto a série toda e estou aqui a recomendar o que for passar o fim de semana, a Bela já tem.
Mas podes mudar de ideias na próxima semana. Faz-me lembrar aquelas pessoas que dizem que um filme irritou-os de tal maneira que eles nem o foram ver.
Isso nunca vos aconteceu?
Acho que não.
Pronto, ok.
Com essa certeza, acho que não, com esse nível.
Queria também recomendar, porque vou lá estar, os Duran Duran ao vivo no Pavilhão Atlântico. Pela primeira vez na vida, comprei um daqueles bilhetes não sei o quê, aqueles caríssimos. Não aquele meet and greet.
Aquele circle. Aqueles golden circle. Está lá à frente.
GTi.
Mas é em novembro, não é?
Mas não falta assim tanto.
Não, é verdade.
Dia 3, acho eu.
Para te levares com os perdigos do Simon.
Não, é porque-
Ela a pingar assim. O suor
...voltando à questão do já não ter idade para. E estou a falar muito a sério.
Olha que vais chegar muito tarde a casa.
Sim, eu sei. Mas isto até mereceria um programa um dia destes. Há certas coisas que já não temos paciência.
O campismo?
Ir ali para o meio e depois queres beber alguma coisa, pode ser, e depois vais ao bar e és gente de todo lado e tens que levantar o braço.
Imagina que ias a um festival, Pedro.
Exato. Eu vou ao festival, mas fico sempre naquelas zonas.
Que a gente sabe.
Isso.
Vera Importa Pedro.
Exato. Os Duran Duran são uma banda muito importante na história da pop.
E na tua história.
Sim, talvez. Eles estiveram cá, não é? E sai imagens disso na RTP, nos anos 80, no arquivo da RTP. Recomendo que façam search por Duran Duran no arquivo da RTP. Depois há imensas miúdas que foram vê-los ao aeroporto. Essas coisas já existiam no princípio dos anos 80. Eles conseguiram dar a volta à carreira, houve ali uma altura que estavam arrumados. A última vez que os vi foi no Coliseu. E agora vão ao Pavilhão Atlântico, eu espero que haja muita gente, espero que eles continuem.
Que seja uma grande festa.
Sim, uma celebração.
É isso.
Vou ouvir. Espero que cantem os hits.
Claro que vão cantar. Qual é a tua favorita? Eu gostava é que eles só cantassem do último álbum.
Que saiu ontem, que ninguém ouviu.
E depois não compreenderem porque é que as pessoas ficam indignadas. Se só pudesses ouvir uma canção, qual é que pedias ao céu?
Eu gostava muito de "The Chauffeur".
"The Chauffeur".
Sim, mas eu estava numa fase diferente da minha vida.
Ok.
Mas podemos falar sobre isso se quiseres, temos tempo.
Estavas a dizer "Girls on Film" tem muito a ver contigo.
Tem?
Não. Que sucessão de ideias é que tu fizeste?
Também da escritora japonesa Rasako Yuzuki, "O Anzol", é a autora de "Manteiga".
Exatamente.
Um livro que foi bastante popular aqui há uns anos Dois, três anos. Segundo o Guardian, vendeu 300 mil cópias no Reino Unido, que eu achei uma coisa incrível, espero a bem da Asako Yuzuki que tenha vendido. É editado agora o "Anzol". No fundo, esta é uma mensagem para as pessoas que são fãs da autora de "Manteiga" e que leram "Manteiga" e que sabem.
Já sabem ao que vão.
Já sabem, procurem na livraria, peçam ao Pai Natal, que agora é a altura em que podemos dizer essa frase.
É agora.
Sim, para pôr no sapatinho.
Exato. Estou muito contente que venha aí-
Em Portugal nunca se usa a piuga. Nunca se põe a piuga
Vem aí a época da rabanada, eu estou muito entusiasmado.
Eu adoro rabanada.
Também eu.
Sim. Tu sabes fazer, não é?
É fácil, acho que qualquer pessoa sabe.
Bom.
Não, mas atenção, depois é ao ponto de forma e do pão.
Não, cada um tem a sua.
Ele já está a dizer o pão.
Já tivemos esta conversa, não sei se se lembram.
Várias.
Não sei se foi em on, mas vocês são um bocado nazis da rabanada.
Até porque eu gosto de qualquer uma.
Sim, eu por acaso também gosto.
Então da próxima vez não me chateies com isso.
Não, se tiverem açúcar...
Eu estou okay, Pedro.
O quê? Não comes com o açúcar normal de venabica, é um bocadinho...
Não comes com calda. Há quem ponha calda, há quem não ponha.
Calda é impensável. Se pões casca de laranja ou não sei o quê.
Limão?
Limão, sim. Eu ponho aquele icing sugar, aquele branco.
Ah, ok.
Parece neve.
Não, eu faço açúcar normal.
Das bolas de manteiga.
O que é que faz açúcar normal?
Porque é o que está lá, sei lá.
É melhor.
Tiramos um pacote daqueles café, Tó Café.
Não, tenho um fresquinho com café.
Com café ou com açúcar?
Com açúcar.
És um açucareiro.
Isso.
Fresquinho com açúcar.
Ainda bem que viste.
Isto é o Facebook vem dar cabo da linguagem.
Facebook vem semana passada.
Aquela coisa para o açúcar.
Bom, eu tenho duas sugestões.
Não há mails, portanto.
Não. São duas coisas na Filmin. A Filmin, o Filmin, o que quiserem, não interessa.
A plataforma.
Uma série curta.
É espanhola.
Que eu acho que tem oito episódios, série inglesa que se chama "Babies" e que é muito engraçada. O Pedro não gostou, eu gostei.
Está no algoritmo, lá está.
Se calhar é de jornalismo.
Ainda não vi, não sei do que estás a falar, mas é de jornalista.
Diferentes famílias, histórias cruzam-se e como é que filhos-
É um palimpsesto
...influenciam depois a vida de cada uma delas. Uns porque têm, mas não sabem se criam, outros porque criam muito, mas não conseguem ter. Há vários formatos. Está muito bem feito, recomendo, sobretudo para quem gostar de séries inglesas, que eu acho que têm sempre um-
Eu gosto muito de série britânica
São sempre diferentes. Há sempre ali qualquer coisa especial. E outra é um documentário que se chama "Come Back Anytime", que é uma coisa que eu aprecii muito, que é sobre comida, e é sobre um tasco muito pequenino no Japão, acho que algures em Tóquio. Eu não percebo nada de Tóquio, portanto, fica para ali.
És dos poucos portugueses que ainda não foi ao Japão.
E é um senhor já entre idades.
A fazer ramen.
A fazer ramen. E é um documentário. Eu vi aquele, adorei, aquele das papas de aveia.
É maravilhoso.
Ótimo.
Já viste.
Tem uns toques meio Wes Anderson, às vezes. Tem o entrevistado ali no centro da imagem.
Mas ao contrário dos filmes do Wes Anderson, este tem substância mesmo, não é só estilo.
Toma. Sobretudo dos mais recentes. Sim. É um bocadinho nessa onda que é: aquilo não tem nada de especial, é um senhor com um restaurante que faz ramen e as pessoas vão lá.
Gosto também é o fascínio, eu vi esse documentário.
Claro, há um lado meio exótico.
O ocidental que gosta do japonês, que se levanta às 3h da manhã e se deita depois às 2h30 da manhã, passa a vida a cozinhar.
Mas a história está bem feita e depois acho que é a imagem.
Gostas de ramen?
Gosto. É muito satisfatório ver alguém a fazer o caldo. Aquilo tudo, graficamente.
Há coisas no Japão são muito...
A massa que não sei o quê.
A pena de morte, por exemplo, é uma coisa...
São exóticas.
Não, existe no Japão.
São exóticas.
Fazer o quê?
É exótico, é exótico.
Claro, é isso.
O exótico é aquilo que sai do nosso campo de visão.
Exato.
E é fascinante por isso mesmo, porque não estamos habituados a ver. Eu acho que cheguei aqui a falar de um documentário, não é um documentário japonês, mas é sobre aquelas pessoas no Japão que pagam para desaparecer.
Ah, ok, sim.
Eu lembro-me disso. Sim.
Pronto, ou porque têm dívidas ou não sei o quê, um dia desaparecem, pagam a alguém e-
E ele resolve aquilo
...resolve. E há também um documentário sobre um hábito japonês, que é o de fumar nas escadas de-
De emergência
...de emergência, nas escadas de incêndio, ou então em zonas ao ar livre nos edifícios, que haverá noutros sítios, mas que no Japão se tornou quase uma subcultura. Então tudo isso é fascinante, porque de facto é.
Porque é diferente.
Porque é diferente.
Eu pensava que o Japão era só cerejeiras em flor. Como há ali na Cova da Beira.
Provavelmente também se estiveres a ver, se tu lançares esse olhar para certas coisas nossas.
Nossas, claro.
Claro.
Também vais encontrar.
E o cheirinho, o Martini com cerveja.
Sim, este lado de ver pessoas.
Uma canja, Tiago, veres alguém a fazer uma canja.
Alguém a preparar um cozido à portuguesa. Se me deres um documentário de alguém a preparar, eu vou ficar a ver aquilo. É um problema que eu tenho.
Esse documentário tem a vantagem de não ser palavroso.
Não é.
E o tipo não está: "Porque a gente..."
E não está integrado numa coisa, sei lá, num canal de comida. É uma série, não é vendido como uma coisa cultural.
"Come Back Anytime".
É um one shot.
Eu apreciei.
Se tu consegues comer ramen sem te sujar Não sei, mas isso para mim não é problema, se eu me sujar, paciência.
Pões para lavar é isso?
Sim. Se me disserem: "Preferes comer e sujar-te ou não comeres?" Claro, vamos embora, eu como tudo.
Fica combinado. Certo.
Mas eu tento não me sujar, porque é uma coisa que me acontece muito.
Mas não é bom para o primeiro date, não é?
Não, porque esta conversa por acaso até é mais interessante do que pode parecer à primeira vista.
A mim parece-me super interessante.
Essa do: há pessoas que se sujam. Ainda ontem estava com uma camisa, aquelas alturas da vida em que tu vestes uma coisa e pensas: "Isto fica-me bem".
Não te acontece todos os dias.
Não, curiosamente, não acontece. Mas eu percebo.
Sim.
E fui comer, fui ao Rui do Espregues. Sabes onde é que é?
Então não sei.
Vou mesmo.
Sei é que é vários.
"Olhe, quero um bife à Rui do Espregues." Lá estou-se o bife.
Parece um episódio dos Marinetes das crianças.
Eu consegui sujar a minha camisa top antes sequer de meter a primeira batata à boca, porque fiz qualquer coisa e aquilo espirrou. E isso destrói o dia a um homem.
Sabes que mais?
Eu acho. Pede tira-notas, não peça nada.
Eu percebo.
Fica aqui a nota pessoal.
Ainda os restaurantes têm tira-notas?
Agora há mais babetes.
Eu adorava xegar.
Há mais babetes, convencionou-se isso. De uma forma mais fácil.
Ainda bem.
Mais fácil.
E que não haja problema em usar um babete quando estás assim.
Precisas.
Usas muito?
Não, quer dizer, em casa uso muito comer com um avental para não me sujar.
A sério?
Claro.
Quando fazes bolonhesa ou não sei o quê?
Sei lá, qualquer coisa em que o risco é máximo.
Vou comer de avental, é evidente.
Sobretudo se estiver a fazer a comida.
Sobretudo se fores maçon, que é o caso do Tiago. Maria, comes de avental?
Não.
Mas qual é o problema? Estou a fazer a comida, tenho um avental, depois sento-me à mesa e assim não me sujo.
E a tua família não diz: "Ó Tiago, tira o avental, estás à mesa".
Pareces a minha avó que jantava de bata.
Esse é o próximo passo.
Olha uma bata com o meu nome.
Chama um bib.
Chama-se bib, Tiago.
O programa está a ficar...
Por vossa culpa está. Vamos acabar isto com Bruno Nogueira.
Vamos lá acabar isto com um nocaute.
Sacana.
Tal.
Primeiro vais começar com alta cultura.
Podemos começar.
Como se essas pessoas não comessem.
Não interessa muito. Não, interessa, sim, claro. É um livro de ensaios do Julian Barnes, que já como romancista também é muito ensaístico.
É verdade.
Já tem essa dimensão, mas isto são mesmo só ensaios sobre a arte, sobre pintura, sobre alguns dos pintores e dos quadros preferidos dele. São ensaios pessoais também, da relação dele com esses quadros e com esses pintores. Isso gostei particularmente, porque estabelece aqui paralelismos entre a evolução da arte, da pintura, com a evolução da literatura e de como são tão diferentes, ainda que possa haver ali pontos de contato. Quando nós falamos do romantismo, das correntes, do romantismo, do realismo e do modernismo, é muito diferente quando pensamos nos artistas representativos dessas correntes na pintura ou na literatura. E até da percepção que as pessoas têm, o público tem, do que é o modernismo na pintura e do que é o modernismo até na música. No caso da pintura e da música, o modernismo é muito mais radical, desconstrói quase por completo aquilo que era a tradição existente, enquanto é muito mais difícil fazê-lo na literatura. Parece que a literatura tem sempre um lado mais convencional. Mas há uma ideia que o Julian Barnes procura rebater logo de início, que é esta ideia que nós temos muito vinda da literatura, que é que o realismo corresponde a um certo convencionalismo. E o realismo pode ser muito radical também. Mesmo na literatura, o realismo não significa uma adesão às convenções e às tradições. O realismo é apenas um instrumento, no fundo, para retrato da realidade e pode ser radical, pode ser inovador, e é isso que ele também procura ao estabelecer esse paralelismo entre literatura e pintura, procura mostrar. Como disse, o Julian Barnes já tem muito de pensador, de ensaísta nos seus romances. Aqui é só mesmo ensaio, chama-se "De Olhos Abertos" e é agora publicado pela Quetzal. Passando para uma forma superior de arte, o boxe. Mike Tyson tem agora direito a um documentário em quatro partes na Netflix. Eu vi há uns anos, acho que foi no Doc Lisboa, um documentário do James Toback, precisamente intitulado "Tyson", e ali já estava praticamente tudo. Acho que é muito melhor enquanto objeto artístico do que esta série. Mas gostei porque a personagem do Mike Tyson é verdadeiramente fascinante, mesmo quando é repelente ou por causa de ser em alguns momentos da vida dele e da carreira dele, ser repelente, é fascinante por isso. Causa uma grande perturbação, porque mesmo nas lutas, nas guerras culturais de hoje, uma figura como o Mike Tyson Gera aqui uma série de perplexidades, porque ele é um exemplo do tipo que conseguiu sair do bairro. Um tipo que tinha tudo para as coisas lhe correrem mal na vida e devido ao talento dele para aquela arte brutal, o desporto brutal e uma arte que é o boxe, conseguiu escapar a esse destino. Mas depois tem uma série de episódios ao longo da vida dele em que parece conformar-se a esse destino trágico. É uma personagem com que muita gente não consegue lidar. Onde encaixar o Mike Tyson? Será um exemplo do tipo que conseguiu escapar a esse destino do bairro, de crime e de uma morte prematura, ou é um exemplo de uma masculinidade tóxica? Desde logo porque é pugilista, mas também por causa de coisas relacionadas com a vida pessoal dele e por coisas que ele fez no ringue. E ele é tudo isso. Esteve preso por violação. Ele é um tipo brutal no ringue, mas extraordinariamente vulnerável e isso via-se muito bem. Vê-se também, creio, neste documentário, mas num outro documentário em filme do James Toback. É alguém que sofreu bastante, que era vítima de bullying, batiam-lhe, era ridicularizado, era gozado pelos colegas. Não tinha amigos, na verdade, e que se encontrou graças à proteção de um tipo que foi o treinador, manager dele no início, o Cus D'Amato, que é uma figura paternal na vida do Mike Tyson, que ajuda o Mike Tyson a libertar-se, a encontrar-se enquanto pessoa, enquanto desportista, enquanto atleta, mas sobretudo enquanto pessoa. Dá-lhe uma estrutura que ele nunca tinha tido na vida dele e o Mike Tyson é essas coisas todas. É também o tipo que depois estava fascinado com o poder e com o dinheiro que tinha e torna muito difícil encaixar. Eu acho que o documentário é bom. Estranhei, ou se calhar não estranhei tanto, quando vi uma crítica no Guardian que dá uma estrela. Eu vou ler aquilo.
É os críticos.
Não é os críticos.
É a manósfera.
Ele é um exemplo da masculinidade tóxica.
É muito difícil pores uma figura como o Tyson.
Sim, para esta nova geração, ainda por cima quando aparece o Donald Trump a falar no documentário. A partir daí tens que dar uma estrela. Eu percebo que as pessoas tenham esta dificuldade, ou uma nova geração tenha esta dificuldade em ver todas estas nuances na figura do Mike Tyson. Tudo bem, eu admito isso. Mas transportar isso depois para uma avaliação do documentário em si e dar uma estrela.
Ele é uma personagem que entrou nos anos 90. O momento da orelha com o Evander Holyfield é uma coisa que até hoje é recordada, mesmo para quem nunca viu um combate.
Estava preso por violação. Ele esteve de facto preso.
E ser, de facto, um tipo que, isso é uma coisa que não se vê no documentário, mas vê-se no outro documentário que eu vi, que era a certa altura, no início da carreira dele, as pessoas iam com cartazes para os combates e pediam que ele derrotasse o adversário por nocaute. Queriam o nocaute mais rápido possível, mesmo que aquilo durasse poucos segundos e fosse no primeiro assalto. E também revolucionou a indústria da transmissão televisiva destes eventos. Passaste a ter pessoas no pay-per-view, milhões de pessoas a pagar para ver aquele combate. E isto revolucionou a forma como os desportistas eram pagos. Sempre ali no caso do boxe, sob a tutela do Don King, que também teve a cargo a carreira do Mike Tyson. Mas há muitos aspetos interessantes e que são abordados, e são abordados de uma forma que não é hagiográfica neste documentário. Percebo que não goste da personagem, mas como é que faz uma avaliação tão negativa de um documentário que não foge a nenhum dos temas polémicos? E são muitos ao longo da carreira do Mike Tyson.
Eu sou muito amigo do Mike Tyson.
Não sou, mas sou um fascinado pela personagem em toda a sua complexidade, grandeza e baixeza.
Baixeza, meus amigos.
Netflix.
É a palavra-chave deste programa. Não é nada. "Sugestões em Treques" estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhuma destas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.
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