Outubro Rosa: cuidar da mama é cuidar de nós

Todos os anos, em outubro, vestimos o rosa para lembrar uma das causas que mais nos deve mobilizar enquanto sociedade: o cancro da mama. Mas, para mim, o Outubro Rosa é muito mais do que uma campanha de sensibilização. É uma oportunidade para falarmos de saúde feminina, de prevenção, de diagnóstico precoce e, acima de tudo, da importância de não adiarmos o cuidado connosco próprias.
Na correria do dia a dia, entre a vida profissional, os filhos, a família e tantas outras responsabilidades, é frequente a mulher deixar-se para último lugar. Adia uma consulta, não marca a mamografia que já devia ter feito ou desvaloriza uma alteração porque não tem tempo para se preocupar com mais uma coisa. E é precisamente aqui que precisamos de mudar mentalidades.
O cancro da mama é o tumor maligno mais frequente na mulher. Em Portugal, são diagnosticados milhares de novos casos todos os anos. Ainda assim, há uma mensagem que considero fundamental transmitir: quando diagnosticado numa fase inicial, o cancro da mama tem, em muitos casos, um prognóstico muito favorável. O diagnóstico precoce pode fazer uma diferença enorme nas opções de tratamento, na recuperação e na qualidade de vida.
Conhecer o nosso corpo é o primeiro passo.
A mamografia continua a ser um dos instrumentos mais importantes na deteção precoce do cancro da mama, permitindo identificar alterações mesmo antes de serem palpáveis. No programa de rastreio organizado em Portugal, são abrangidas mulheres dos 45 aos 74 anos, de acordo com os critérios de elegibilidade definidos. No entanto, o acompanhamento deve ser individualizado: a idade, os antecedentes familiares, a história clínica e a eventual existência de fatores de risco podem justificar uma vigilância diferente.
Há também algo que faço questão de reforçar: uma mamografia recente sem alterações não significa que devemos ignorar novos sintomas. Um nódulo na mama ou na axila, alterações da pele, retração do mamilo ou uma secreção espontânea, sobretudo se tiver sangue, devem motivar avaliação médica. Não devemos esperar pelo próximo rastreio se sentimos que alguma coisa mudou.
A auto-observação é igualmente importante, não como substituto dos exames médicos, mas como forma de conhecermos melhor o nosso corpo e reconhecermos alterações que não são habituais. Não precisamos de viver em alerta permanente. Precisamos, sim, de estar informadas e de saber quando procurar ajuda.
Prevenir também é cuidar do estilo de vida.
Embora nem todos os casos de cancro da mama possam ser prevenidos, existem hábitos que contribuem para reduzir o risco de várias doenças, incluindo alguns tipos de cancro. Manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, evitar o tabaco, limitar o consumo de álcool e procurar manter um peso saudável são medidas importantes. Nas mulheres com antecedentes familiares relevantes, poderá ainda fazer sentido uma avaliação específica do risco genético, sempre com orientação médica.
E não podemos esquecer a dimensão emocional desta doença. Receber um diagnóstico de cancro da mama é um momento profundamente difícil, que ultrapassa a dimensão física. O impacto na autoestima, na imagem corporal, na sexualidade e na vida familiar merece atenção. O tratamento não deve olhar apenas para a doença, mas também para a mulher que existe para além dela. O apoio psicológico, a reabilitação e o acompanhamento multidisciplinar podem ser fundamentais durante e após o tratamento.
Ao longo da minha prática clínica, acredito cada vez mais que cuidar da saúde da mulher significa olhar para a mulher como um todo. Informar, prevenir, diagnosticar atempadamente e acompanhar com empatia são partes inseparáveis desse compromisso.
Neste Outubro Rosa, deixo um convite simples: não adie a sua saúde. Marque aquela consulta, confirme se tem o rastreio atualizado e fale com o seu médico se tiver dúvidas ou algum sinal que a preocupe.
Porque cuidar de si não é egoísmo, nem deve ficar para depois. E porque o rosa de outubro deve continuar presente nas nossas escolhas durante os outros onze meses do ano.
A prevenção começa com informação. O diagnóstico precoce pode mudar uma vida. E cuidar de nós deve ser sempre uma prioridade.
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