Joe Satriani conta a história de seu solo de guitarra favorito

Guitarrista revela como transformou o caos de sua vida na época e a inspiração em Frank Sinatra em sua obra-prima pessoal preferida
Guilherme Gonçalves (@guiiilherme_agb)
Por trás de uma das faixas instrumentais mais majestosas de Joe Satriani, “Flying in a Blue Dream”, lançada em 1989, existe uma história de caos criativo, marcada por dificuldades e percalços que tiveram de ser superados.
Em uma entrevista reveladora à Guitar.com, o guitarrista relembrou os bastidores da criação da faixa que ele considera trazer seu solo favorito em toda sua carreira.
O músico vinha de uma exaustiva maratona de turnês — incluindo uma passagem tocando guitarra na banda de Mick Jagger —, e ainda acabou contraindo uma infecção estomacal, que foi difícil de ser diagnosticada.
Para piorar o cenário, Satriani enfrentou a perda de seu pai (que sofreu um AVC) e de sua avó, além de lidar com fortes dores decorrentes do uso de aparelhos para tratamento ortodôntico.
Satriani recorda:
“Foi tão difícil e insano, mas também houve uma quantidade enorme de criatividade. Saí em turnê tocando guitarra para Mick Jagger e, ao final dela, contraí giardíase no Sudeste Asiático — só que não soube disso por um bom tempo. Examinaram tudo, do meu apêndice ao cérebro; sempre que tinham uma hipótese sobre o que eu tinha, estavam errados. E então meu pai sofreu um derrame e entrou em coma — ele faleceu. Minha avó morreu algumas semanas depois. Foi tudo tão estressante e caótico.”
A inspiração de Joe Satriani
A inspiração para a música surgiu enquanto ele estava em seu apartamento em Berkeley, na Califórnia, tentando compor outra faixa. Sentindo-se bloqueado, Satriani resgatou memórias de infância de quando tentava adormecer tendo “sonhos de voo”. Pegou um violão, então, e começou a dedilhar acordes que soavam como uma viagem mágica.
Ao estruturar a melodia e o solo da música, Satriani adotou uma abordagem atípica para o rock instrumental, inspirando-se em um ícone bem diferente do universo das guitarras: Frank Sinatra.
Ele conta:
“Quando finalmente consegui ouvir a música do início ao fim, algo muito curioso me veio à cabeça: Frank Sinatra. Muitas vezes, Frank começava uma canção contando uma história, com aquele jeito coloquial e tipicamente americano de cantar. Ao final da melodia, não só o registro vocal ia subindo, como ele só pronunciava a palavra que compunha o refrão bem no finalzinho. Pensei: ‘Esse é o meu modelo. É isso que preciso fazer aqui, porque estou contando uma história, mas uma história sobre voar’. Quando chego ao ponto alto da história, preciso estar lá no alto do céu, voando.”
Equipamento e desgaste
Para o solo, Satriani conta que usou sua Ibanez (“Black Dog”), um pedal Boss DS-1 e um cabeçote Mesa/Boogie. Movendo-se pelo estúdio, ele trabalhou o feedback dos amplificadores para ir extraindo notas harmônicas exatas antes de executar o solo definitivo.
Apesar do desgaste físico e emocional que marcou aquelas sessões de estúdio, o esforço valeu a pena, já que Satriani considera o solo de “Flying in a Blue Dream” seu preferido até hoje.
Ele conclui:
“Ela representava tudo o que tentávamos fazer: ir além do que fizemos em Surfing with the Alien (1987), assumir grandes riscos criativos e transformar o caos pessoal em algo magnífico.”
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Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room, Rock Brigade e Guitarload. Atualmente, é redator em IgorMiranda.com.br, revisa livros das editoras Belas Letras e Estética Torta e edita o Morbus Zine, dedicado a resenhas de death metal e grindcore.
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