Plano para resfriar a Terra prevê instalação de para-sol gigante no espaço; entenda o projeto
Um para-sol gigante instalado no espaço poderia reduzir a temperatura média da Terra em aproximadamente 1 °C, segundo uma análise de pesquisadores que investigam alternativas para conter o aquecimento global. A proposta consiste em bloquear parte da radiação solar antes que chegue ao planeta.
O projeto foi analisado pelo Planetary Sunshade Institute, organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos. Um relatório publicado neste mês estima que a construção de uma estrutura desse tipo poderia se tornar tecnicamente viável em 20 a 40 anos, dependendo dos avanços no transporte espacial.
O documento, divulgado pela instituição, reúne análises de engenheiros e cientistas climáticos. Os resultados foram apresentados em uma reportagem publicada na revista Nature.
Como funcionaria um para-sol gigante no espaço?
A proposta prevê a instalação de estruturas entre a Terra e o Sol para reduzir a quantidade de energia solar recebida pelo planeta. Segundo o relatório, bloquear aproximadamente 1% da radiação solar poderia diminuir a temperatura média global em cerca de 1 °C, de acordo com modelos climáticos.
Os pesquisadores avaliaram seis configurações possíveis para construir esse sistema. Entre as principais alternativas estão uma constelação de satélites refletores e uma nuvem de partículas capazes de atenuar a luz solar.
As estruturas seriam posicionadas a pouco mais de 2 milhões de quilômetros da Terra, em uma região considerada adequada para produzir o efeito desejado com menor quantidade de material.
Quantos satélites seriam necessários para resfriar a Terra?
Uma das propostas envolve aproximadamente 5 mil satélites, chamados de heliogiros, organizados para formar uma espécie de proteção solar. Cada estrutura teria cerca de 40 quilômetros de diâmetro e utilizaria lâminas refletoras extremamente finas.
A rotação dos equipamentos ajudaria a manter essas superfícies estendidas por meio da força centrífuga. Segundo os pesquisadores, a pressão exercida pela luz solar também poderia contribuir para o funcionamento do sistema.
Uma das vantagens dessa configuração seria a possibilidade de controlar remotamente a quantidade de radiação refletida, ajustando a posição das lâminas.
Entretanto, a construção exigiria aproximadamente 70 milhões de toneladas de material, cerca de 1.500 vezes a massa total já lançada ao espaço, segundo os dados citados no relatório.
Para viabilizar o projeto, os pesquisadores consideram o uso de materiais extraídos da Lua e a montagem de componentes diretamente no espaço.
Nuvem de poeira também poderia bloquear a luz solar
Outra alternativa analisada envolve a criação de uma nuvem de partículas refletoras entre o Sol e a Terra. O material seria mantido em posição por espaçonaves capazes de utilizar campos elétricos para controlar seu deslocamento.
Essa abordagem poderia exigir uma quantidade de massa centenas de vezes menor do que a necessária para a constelação de satélites.
Entretanto, os autores consideram essa possibilidade mais especulativa, devido aos desafios técnicos ainda não resolvidos. A proposta está entre as alternativas investigadas por pesquisadores do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, segundo a Nature.
Quanto custaria construir um para-sol espacial?
O relatório afirma que ainda existem incertezas que impedem uma estimativa financeira confiável. Chantal Cappelletti, engenheira de sistemas espaciais da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, afirmou à Nature que o projeto poderia custar dezenas de trilhões de dólares.
Um dos principais obstáculos seria transportar milhões de toneladas de equipamentos e materiais para regiões distantes da Terra. A viabilidade dependeria, portanto, do desenvolvimento de foguetes de grande capacidade e da redução dos custos de lançamento.
O relatório recebeu financiamento de 400 mil libras esterlinas, aproximadamente US$ 530 mil, da Agência de Pesquisa e Invenção Avançada do Reino Unido (ARIA). O investimento integra um programa mais amplo de pesquisas sobre geoengenharia solar.
Quais são os riscos de bloquear a luz do Sol?
A proposta faz parte da chamada geoengenharia solar, conjunto de técnicas que buscam reduzir o aquecimento global por meio da alteração da quantidade de radiação recebida pelo planeta. Entretanto, essas estratégias envolvem incertezas ambientais e tecnológicas.
No caso das estruturas espaciais, uma das preocupações é a poluição associada aos numerosos lançamentos de foguetes necessários para a construção. Outras técnicas de geoengenharia, como a dispersão de partículas refletoras na atmosfera, também podem provocar efeitos ainda pouco compreendidos sobre as chuvas e o crescimento das plantas.
Críticos dessas propostas argumentam que a busca por soluções tecnológicas para resfriar a Terra pode desviar a atenção da necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Embora o relatório considere possível construir um para-sol espacial nas próximas décadas, essa previsão não representa um cronograma confirmado. O cientista climático Daniele Visioni, da Universidade Cornell, afirmou à reportagem que a tecnologia merece investigação, mas considera improvável sua viabilidade antes do final deste século.
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