O samba de uma nota só

Parvinho, eu julgava que fossa séptica moral destapada há dois meses, com o maior pirata nos anais do Brasil (o banqueiro Daniel Vorcaro) a cravar conselhos fofos e rotas de fuga ao juiz Alexandre de Moraes, do STF, era o clímax da tragicómica histórica do meu pais. Realmente, não aprendo nada. Esta semana foi muito mais rocambolesca. De tédio, os brasileiros não morrem.
Recapitulemos. Em 4 de outubro, Lula da Silva perdeu para Flávio Bolsonaro na primeira volta. As redes sociais entraram em surto. Amigos meus esquerdistas choravam baba e ranho e prometiam atear fogo às vestes (de marca), invocando a queda daquele meteoro que extinguiu os dinossauros (mas de qual dos dois dinossauros estavam a falar?). Os bárbaros resfolegavam à porta, o fascismo vencia, Trump mexera os cordelinhos, a culpa era dos exorcistas evangélicos, os brasileiros iam ser escravizados, a Amazónia alcatroada, e o povos originais ceifados até ao último moicano. Como se não bastasse, a abada bolsonarista foi avassaladora no Congresso e nos governos estaduais (incluindo o próprio Belzebu, Sérgio Moro, que prendeu Deus, e ainda assim foi eleito governador do Paraná já na primeira volta.) Dava-se como favas contadas que Don Corleone (para os íntimos, Jair Bolsonaro) não ia cumprir a pena de 27 anos de prisão por plagiar o assalto ao Capitólio dos trumpistas.
Para sermos rigorosos, Trump e Jair Bolsonaro não foram os únicos maus perdedores a responsabilizar as instituições pelo olé que gramaram. Os mexicanos Manuel Obrador e Gustavo Petro fizeram a mesma birra, assim como o colombiano Iván Cepeda, todos progressistas.
O sofisma seduz eleitores de esquerda e de direita: se foi o meu candidato que fez, é sublime; se foi o da oposição, é ilegal. A fraude eleitoral na Venezuela em 2024 e o aviso de Daniel Ortega (no poder há 30 anos) de que na Nicarágua não há mais eleições para ninguém não produziram nos progressistas nenhuma comichão. Para não mencionar a quase septuagenária ditadura cubana de partido único, que continua pitoresca.
É que uns são filhos, e os outros enteados. O escritor nicaraguense Sergio Ramírez escreveu uma carta aberta a Lula, suplicando que não deixasse a defesa da democracia da Nicarágua nas mãos de Flávio Bolsonaro. Lula mandou-o bugiar. A Nobel da Paz venezuelana Maria Corina Machado rogou 5 minutinhos com o presidente do México (Gustavo Petro), do Chile (Gabriel Boric), e o próprio Lula – todos lhe deram uma tampa (Lula chegou ao ponto de passar um raspanete à senhora, cujos direitos políticos foram confiscados por Maduro). Princípios ou são universais ou apenas treta casuística.
Lula governou o Brasil durante a maior parte do século XXI (pessoalmente ou, num mandato, via Dilma Roussef, que ele próprio chamou o seu “poste”). E com aquele jogo de soma zero da polarização sectária: nós contra eles, pois estamos às cavalitas no lado certo da história. Tudo o que estivesse meio milímetro à destra do PT era extremíssima-direita (Gestapo). Incluindo notórios sociais-democratas, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin – este último cinicamente branqueado para, como vice-presidente, adoçar a candidatura de Lula, embora até ontem fosse demonizado como membro da Opus Dei. Aliás, o que Alckmin dirá de Erika Hilton, trans que foi “a mulher” mais votada da história na Câmara dos Deputados de SP – e o que “ela” dirá dele?).
Apesar do bibelô Alckmin, e num país subjugado por facções criminosas (em muitos redutos PCC e Comando Vermelho têm mais armas do que a polícia, e os cidadãos andam pelas ruas a tremer como varas verdes), Lula perpetua o dogma de que todo facínora não passa de um oprimido que não arranjou um emprego fixe.
A vitória de Lula na segunda volta (como seria a de Flávio) é mais um estertor na crónica crise brasileira. Uma crise de legitimidade institucional, de estagnação de um país que patina sem realmente avançar, sempre aquém daquilo que promete. O Lulismo e o Bolsonarismo são os irmãos siameses que mantêm a toxicodependência política da sociedade brasileira. Ambos conhecem o interior de uma cadeia como a palma da mão – mas não pelo tempo necessário.
Lula, cérebro do mensalão e do petrolão, recebeu pena de 21 anos de prisão, condenado por unanimidade em 3 instâncias jurídicas diferentes. As provas da corrupção eram tão conclusivas que até o inspetor Clouseau resolvia o caso num piscar de olhos. Um dos subornos foi uma quinta em São Paulo, que Lula alegou nunca ter visto mais gorda – embora no respectivo lago flutuassem placidamente dois barcos com os nomes dos netinhos dele. O homem que acaba de tornar-se Presidente da República pela quarta vez nunca foi “absolvido” – apenas libertado (depois de 580 dias atrás das grades) por um bizantinismo jurídico tão espúrio que foi quase assim: “Ó, Brasileiros, olhem ali um elefante!” Olhamos para o outro lado, e depois Lula estava livre como um passarinho.
Bolsonaro é o maior cabo eleitoral de Lula – e vice-versa: yin e yang da farinha do mesmo saco. Lulistas e bolsonaristas borram-se de medo uns dos outros – e com razão, pois ambos são toscos, corruptos, antediluvianos. Os dois lembram-me um epigrama de José Mourinho em fevereiro de 2007, sobre um colega treinador de futebol: “ O Jaime Pacheco só tem um neurónio, e mesmo esse trabalha mal”.
Os Bolsonaros habitam um casulo concentracionário e saloio, com uma religiosidade melodramática e beata, e ideias de jerico. Nunca compreenderam o alcance e o ethos da aversão popular ao PT, confundindo-a com adesão ao clã, quando era uma escolha tantalizante e desesperada entre o roto e o rasgado.
Flávio não tem aquele feitio tempestuoso do pai, nem o marialvismo rasca de um Trump. É o melhor que se pode dizer dele, e ainda assim nos dois debates televisivos conseguiu ser acusado de etarista (chamou surdo a Lula) e capacitista (chamou Lula “9 dedos”). Alvo de dois inquéritos no STF, é investigado por lavagem de dinheiro com apostas online, ao lado do suspeitíssimo advogado Willer Tomaz. Sem falar nos R$ 134 milhões que o senador embolsou de Daniel Vorcaro para produzir uma hagiografia do pai. Ou na sua ligação com os “milicianos” do Rio de Janeiro, organização paramilitar formada por atuais e antigos agentes de segurança pública. Após a derrota, Flavio, do alto dos seus quase 60 milhões de votos, fanfarroneou-se: “Não vou abandonar a oposição, não vou fugir!” Horas depois, pirou-se. Como disse Brecht, infeliz o país que precisa de heróis.
Como fica o país do Carnaval? Embora a concorrência venal seja renhida, o STF é o supremo símbolo da degradação institucional, e provavelmente o principal motivo da derrota de Lula na primeira volta – daí que depois os juízes lulistas calaram o bico. Alexandre de Moraes, que meteu Jair Bolsonaro na cadeia, nunca deu um pio sobre os R$ 130 milhões que o escritório de advocacia da sua mulher embolsou de Vorcaro – cujo contrato ele próprio editou -, nem sobre os whiskies que degustaram juntinhos sem Londres.
Precisamente 7 minutos depois de proclamada a vitória de Lula (que interrompeu 7 triunfos consecutivos da direita na América Latina), Moraes aguçou as garras de Wolverine e Freddy Krueger, retirou o ódio do freezer e mandou a polícia apreender o passaporte de Flávio. Se Flávio fosse o novo presidente, isso tinha acontecido? Em Janeiro, Moraes será o novo presidente do STF, e Lula poderá nomear mais três ministros da instituição, totalmente partidarizada (“aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei!”), que censura até as redes sociais de adversários – em 2024, Alexandre de Moraes chegou a suspender o X (então, Twitter) no Brasil, durante um mês e meio.
O novo Congresso (Senado e Câmara Federal) não deverá estragar Lula com mimos. O bloco da direita tem 283 cadeiras, o Parlamento mais conservador desde 1985. O PT terá apenas 70, e o conjunto da esquerda, 88. A direita pretende pedir o impeachment de Alexandre de Moraes, na medida em que o Senado é o único órgão com prerrogativa constitucional para essa estocada.
O Brasil é a maior economia da América Latina, e a 8º maior do mundo, segundo o FMI, com um PIB acima dos da Rússia e da Itália. Onde o país estava nesta altura do campeonato sem os seus empatas parasitários, com o crónico clientelismo, em que líderes políticos trocam favores, serviços ou benefícios materiais por apoio e votos? Toma lá, dá cá – e, como dizia o Principe Salinas, tudo muda para que tudo continue na mesma. O hierarca acena com bijutarias assistencialistas (empregos públicos, remédios, vagas em creches, materiais de construção ou dinheiro), em troca da fidelidade eleitoral do cidadão. Os recursos públicos, que deviam ser distribuídos a toda a sociedade de forma transparente e equitativa, são desviados como propriedade privada dos políticos para fins particulares.
Não é de hoje, claro – mas as democracias maduras emanciparam-se do vício, que remonta aos patrícios e plebeus na Roma Antiga, com o vínculo entre o patrono e o cliente. Na Idade Média, evoluiu para o suserano e os vassalos e servos. Na chamada República Velha no Brasil (1899 a 1930), reinou o “coronelismo”, quando os latifundiários (pseudocoronéis) controlavam o voto de populações rurais dependentes.
No Brasil contemporâneo, o populismo assistencialista continua a vender saúde, ainda que o uso de cargos ou verbas em troca de votos seja agora crime eleitoral. Sacrifica-se o futuro em favor de um distributivismo de curto prazo. Perdoam-se dívidas e dá-se até dinheiro vivo: superordenados para os da cobertura, migalhas para os do rés-do-chão.
Só para a segunda volta, Lula torrou R$ 350 milhões (55 milhões de euros) em miminhos demagógicos. Entre outras coisas: um dia a menos de trabalho por semana, transporte público gratuito, aumento no Bolsa Família (já de si uma transferência de renda discutível) e a cereja do bolo: canetas para emagrecer Mounjaro ou Ozempic (seguramente, foi aqui que Flávio lixou-se de vez. Quem não quer uma cinturinha de vespa?). No Brasil, não Freud, mas fraude explica. Todos são inocentes, e todos são cúmplices. Mas a conta terá de ser paga.
O otimista dirá que a ausência de Flávio pode viabilizar o surgimento na direita de líderes democráticos, competentes e honestos – quem sabe o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reeleito à primeira volta, com 63% dos votos, contra um tiquinho do candidato lulista. Na esquerda, Lula terminará o seu quarto mandato com 85 anos. Como sempre foi uma divindade monoteísta, a sucessão será um bico de obra.
Admito que o Brasil talvez tenha saída, pois ainda não roubaram o aeroporto Tom Jobim (autor da linda canção que é o título desta crónica), embora eu prefira Lisboa a Miami. Mas sou pessimista. Momento histórico? Diria histérico. O Brasil chegou fundo do poço, e só não partiu-se todo porque roubaram o fundo e o poço. Antes do golpe de Estado de 1964, a oposição dizia que o país estava ao pé do precipício. Com o golpe, os militares garantiram que as coisas iam melhorar. E com um tal “milagre económico”, que tudo ia de vento em popa. Os respectivos slogans foram: 1) “O Brasil está à beira do abismo” 2) “O Brasil deu um passo em frente” 3) “Agora ninguém pára este país!”.
N’’O Mito de Sísifo”, sobre um desgraçado condenado pelos deuses a empurrar montanha acima um enorme pedregulho, que quando chega ao cume rola para baixo outra vez, incessantemente, e ele começa tudo de novo, Albert Camus diz: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Bem, continua a haver o carnaval brasileiro, mas depois são 361 quartas-feiras de cinzas. Haja masoquismo.
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