O que Starbucks, LinkedIn e Broadway ensinam sobre liderança nos EUA?
Nova Iorque, EUA* - O que uma cafeteria da Starbucks, a sede do LinkedIn e os palcos da Broadway têm em comum? À primeira vista, pouco. Mas, para um grupo de empresárias e executivas brasileiras, esses três universos ajudaram a responder uma pergunta que acompanha profissionais em diferentes momentos da carreira: o que é preciso para se tornar uma liderança reconhecida e com posicionamento?
A resposta vai além de conquistar um cargo, acumular experiência ou entregar bons resultados. Envolve saber se comunicar, construir relacionamentos, desenvolver uma reputação e, principalmente, conseguir demonstrar o próprio valor.
Foi com essa proposta que 20 líderes, entre empresárias, executivas e líderes brasileiras, trocaram seus escritórios por Nova York, entre 27 de setembro e 2 de outubro de 2026, para participar de uma edição especial do Programa Salto + Alto, imersão voltada ao desenvolvimento da liderança feminina.
Criado em 2023 pela jornalista e empresária Tatiana Marzullo, que acumula 27 anos de experiência no mercado de comunicação, o programa levou as participantes a conhecer modelos de gestão de grandes marcas americanas, conversar com executivas que chegaram ao topo de multinacionais e ouvir histórias de brasileiras que reconstruíram suas carreiras nos Estados Unidos.
A programação incluiu visitas à Starbucks Reserve Roastery, à LIM College, à sede do LinkedIn e atividades de comunicação relacionadas à Broadway. Também houve encontros com empresárias brasileiras que construíram negócios no mercado americano.
Mais do que conhecer empresas, a proposta foi discutir cinco competências que, segundo Marzullo, ganham importância à medida que uma profissional avança na carreira: comunicação, posicionamento, reputação, influência e coerência.
"Existe uma diferença entre ser boa no que faz e ser reconhecida pelo impacto que gera. Existe também uma diferença entre ter voz e se sentir autorizada a usá-la", afirma Marzullo.
Ao longo da viagem, a EXAME acompanhou histórias e experiências que mostram como essas competências aparecem na prática, desde a contratação de funcionários de uma cafeteria até as decisões de brasileiras que chegaram à liderança de multinacionais.

Tatiana Marzullo, empresária e fundadora do Salto + Alto, na abertura do programa em Nova Iorque. Junto com ela, Kete Jesus, executiva brasileira que chegou à vice-presidência global da IBM (Dione Lopes/Divulgação)
A primeira lição: liderança também é saber ocupar espaços
A experiência começou longe das salas de reunião.
No primeiro dia, as participantes percorreram diferentes pontos de Nova Iorque em uma limusine, fizeram fotografias pela cidade e encerraram o passeio na Times Square, onde viram suas imagens projetadas em um dos famosos telões da região.
A atividade simbolizava um dos desafios discutidos durante a imersão: aprender a ocupar espaços de visibilidade e reconhecer a própria trajetória.

Imagem do "Programa Salto + Alto" passando nos telões da Times Square, em Nova Iorque (Dione Lopes/Divulgação)
O encontro daquele dia terminou com uma conversa com Kete Jesus, executiva brasileira que chegou à vice-presidência global da IBM.
Nascida em Catanduva, no interior de São Paulo, Kete cresceu em uma família humilde, perdeu o pai aos oito anos e começou a trabalhar aos 14. Aos 17, conseguiu um estágio na IBM, onde iniciou uma carreira que a levaria a diferentes países.
Anos depois, Kete foi avançando na carreira, se formou em Administração e conquistou cargos internacionais em Dubai e Nova York, onde vive hoje e está em uma posição de liderança global.
Mas a carreira internacional também trouxe desafios. Ao mudar de país, percebeu que o reconhecimento conquistado no Brasil não era automaticamente transferido para outros mercados.
"Você chega em outro país, eles não sabem quem você é. Eles não se importam com a sua história."
Para Kete, uma das principais competências de uma liderança é reconhecer suas habilidades sem permitir que a opinião de outras pessoas determine seus limites profissionais.
"Eu sou do princípio do 'por que eu não?'", afirma. "Eu aprendi a parar de deixar os outros terem mais voz do que eles merecem em cima de mim."
A executiva também compartilhou uma reflexão sobre o significado do sucesso, inspirada por uma conversa com o empresário Flávio Augusto. Na ocasião, Kete perguntou por que ele continuava trabalhando mesmo depois de conquistar um patrimônio bilionário.
A resposta mudou sua maneira de enxergar a carreira.
"A vida é sobre a energia da construção", afirma.
O sucesso, para a executiva, não está apenas no dinheiro, no cargo ou no reconhecimento, mas na capacidade de continuar aprendendo, desenvolvendo projetos e criando oportunidades.
"A construção te mantém relevante, te mantém humilde. A energia da construção te mantém atenta e leal aos seus princípios", diz.

Kete Jesus, executiva brasileira que chegou à vice-presidência global da IBM, palestra sobre liderança para mulheres que participaram do Programa Salto + Alto (Dione Lopes/Divulgação)
O que a Starbucks ensina sobre gestão de pessoas
No segundo dia de imersão, a primeira empresa que o grupo visitou foi a Starbucks Reserve Roastery, em Nova York, uma nova operação da rede americana que combina cafeteria, gastronomia e experiências para os consumidores. Com três andares, venda de roupas e acessórios, bar e até uma mini fábrica, o novo modelo da rede busca encantar e fidelizar os clientes, frente a tantas ofertas de padarias que tem na região. O modelo ainda não chegou ao Brasil e só existe em apenas 5 lugares do mundo: New York, Chicago, Milão, Tóquio e Xangai.
Ali, a principal lição estava além do café, mas também na maneira como a empresa organiza sua equipe.
Na Starbucks, os funcionários são chamados de partners, ou parceiros. A nomenclatura procura reforçar a ideia de pertencimento e a importância dos profissionais para a experiência oferecida aos clientes.
Na visita, Jarred Okosun, gerente associado da Starbucks Reserve Roastery em NY, comentou sobre as lições de liderança da rede e seus maiores desafios, como encontrar pessoas que compartilhem os valores da empresa está entre os maiores desafios da operação.
"Eu diria que o maior desafio está na aquisição de talentos, ou seja, em encontrar as pessoas certas, que queiram seguir a nossa cultura", afirma.
Na contratação, a empresa considera experiências em hotéis e outros negócios ligados à hospitalidade, e não apenas o conhecimento sobre preparação de bebidas.
A lógica é que um bom atendimento depende tanto das habilidades técnicas quanto da capacidade de criar conexões com o consumidor.
Mas a estratégia também exige atenção às condições de trabalho.
"Você não pode pedir que sua equipe trabalhe 40 horas por semana, ofereça experiências extraordinárias e faça de tudo pelos clientes se não criar um ambiente em que essas pessoas se sintam seguras, acolhidas, respeitadas e valorizadas", afirma o gestor.
A unidade também procura manter escalas previsíveis e identificar funcionários com potencial para assumir futuras posições de liderança.
A lição para empresários é que a experiência do cliente começa dentro da empresa. Em negócios que dependem do atendimento, contratar, desenvolver e valorizar profissionais faz parte da estratégia comercial.

Jarred Okosun, gerente associado da Starbucks Reserve Roastery em NY (Layane Serrano /Divulgação)
Na universidade de moda, uma lição sobre como ser reconhecida no trabalho
Ainda no segundo dia, as brasileiras visitaram a LIM College, instituição de ensino fundada em Nova York, em 1939, com o objetivo de ampliar as oportunidades profissionais das mulheres no varejo.
A faculdade nasceu para preparar trabalhadoras que, naquela época, encontravam dificuldades para avançar além das funções de vendas. Mais de oito décadas depois, a instituição oferece formação em áreas como moda, marketing, gestão e varejo.
Durante a visita, uma conversa com executivas que construíram carreiras nos Estados Unidos trouxe à tona uma diferença importante entre a maneira como profissionais brasileiros e americanos comunicam suas conquistas.
"No Brasil, crescemos com uma determinada ideia de humildade. Quando falamos sobre nossas conquistas, nossos resultados ou nossas qualidades, muitas vezes existe o receio de parecermos arrogantes", afirma Marcella Medaglia, brasileira que atua na área de parcerias e desenvolvimento de lideranças da Universidade de Nova York (NYU).
Para ela, essa postura pode prejudicar profissionais que entregam bons resultados, mas não conseguem demonstrar seu impacto.
"Nos Estados Unidos, especialmente em Nova York, o crescimento profissional e as promoções dependem de dois fatores. Primeiro, você precisa entregar resultados. Segundo, precisa mostrar esses resultados."
O conselho não significa transformar cada conquista em autopromoção, mas reconhecer que a visibilidade também faz parte da construção de uma carreira.
"Entre em uma sala não pedindo para ser ouvida, mas esperando ser ouvida", diz Marcella.
Outra lição veio de Angel Ahmed, consultora internacional de marketing e educação, que destacou a importância dos relacionamentos profissionais.
"Hoje, é mais importante quem conhece você do que quem você conhece", afirma.
Segundo ela, o verdadeiro valor do networking está nas pessoas que conhecem seu trabalho, confiam na sua capacidade e podem recomendar seu nome mesmo quando você não está presente.
Mais de oito décadas depois de sua fundação, a LIM College, em Nova York, se tornou um destino para estudantes de diferentes partes do mundo que desejam construir uma carreira internacional na indústria da moda e dos negócios.
Segundo Danielle Yannota, vice-presidente sênior e diretora de crescimento da LIM College, os estudantes estrangeiros já representam 65% dos alunos dos programas de pós-graduação, superando a participação dos americanos. Anteriormente, esse percentual estava próximo de 40%.
A mudança reflete o avanço da internacionalização da instituição, que aposta na combinação de conhecimento acadêmico, experiência prática e conexões com empresas para preparar profissionais para o mercado global.
"Oferecemos aos estudantes conhecimento, conexões e experiências para que possam se tornar líderes da indústria global da moda e do estilo de vida", afirma Danielle.

Mulheres que participaram do Programa Salto + Alto visitam a LIM Collegem, em New York (Layane Serrano /Divulgação)
Duas brasileiras e dois caminhos para empreender nos Estados Unidos
A imersão também levou o grupo a White Plains, no estado de Nova York, para conhecer histórias de brasileiras que transformaram experiências pessoais em oportunidades de negócios.
Uma delas foi Cleo Pilon, empresária que nasceu em uma família humilde no Maranhão e deixou o estado aos 17 anos.
Na época, vendeu um fogão e um botijão de gás usados por R$ 600 para comprar uma passagem de ônibus para São Paulo. Chegou à capital paulista com R$ 200 no bolso e começou a trabalhar como recepcionista.
Depois de passar por diferentes profissões, ingressou no mercado de estética e, anos mais tarde, se mudou para os Estados Unidos.
Hoje, desenvolve negócios no setor de beleza e projetos voltados à mentoria de mulheres.
"Eu não posso escolher a minha origem, mas posso decidir o que vai ser melhor para o meu destino", afirma a executiva que recebeu as mulheres em sua casa, que fica no mesmo bairro do prefeito de New York.
A empresária conta que uma das mudanças mais importantes de sua carreira foi reconhecer o valor comercial de habilidades que antes considerava naturais, como construir relacionamentos e conectar pessoas.
"Olhe para aquilo que você tem de forte, não para aquilo que você tem de fraco", afirma.

A empresária Cleo Pilon recebe as mulheres que participaram do Programa Salto + Alto em sua casa em Nova Iorque para conversar sobre empreendedorismo feminino (Maria Gabriela /Divulgação)
Outra história compartilhada foi a de Celina Bredemann, brasileira que deixou o emprego de secretária no Brasil para acompanhar o marido aos Estados Unidos, em 1998.
Depois de trabalhar no comércio, Celina se uniu à paraguaia Marina Cardozo para abrir, em 2014, a Araras Coffee, uma cafeteria e mercado brasileiro em White Plains. O negócio começou com uma cafeteira doméstica e recursos limitados.
"Araras nunca voam sozinhas, estão sempre em dupla. Como eu e a Marina", afirma Celina, ao explicar a escolha do nome.
Hoje, a empresa registra faturamento anual próximo de US$ 2 milhões, segundo a cofundadora, emprega sete mulheres e já recebeu clientes conhecidos, incluindo o ex-presidente americano Bill Clinton e encomenda da modelo Gisele Bündchen.
Hoje, as sócias estudam transformar a marca em uma rede de franquias.
"Crescer, sim, mas sem perder a essência. O feito à mão, o toque humano, é o que torna tudo especial aqui", afirma.
As duas histórias mostram caminhos diferentes para o empreendedorismo, mas compartilham uma característica: a capacidade de reconhecer oportunidades e reconstruir a própria trajetória em ambientes desconhecidos.

Participantes do Programa Salto + Alto 2026, em NY, visitam a cafeteria Araras Coffee & More, criada por Celina Bredemann (Layane Serrano /Divulgação)
Treinando líderes coerentes: os 4 pilares para ser uma liderança mais produtiva e humana
Depois de conhecer histórias de brasileiras que construíram negócios nos Estados Unidos, as participantes dedicaram um dia inteiro a uma pergunta: o que realmente faz uma pessoa ser uma boa líder?
O treinamento foi conduzido por Lara Bezerra, executiva brasileira que construiu uma carreira de quase 30 anos na indústria farmacêutica, sendo 20 deles fora do Brasil. Ela foi a primeira mulher nomeada presidente executiva do Grupo Bayer na América Latina, na Venezuela, e também ocupou o cargo de CEO da Roche Pharma na Índia.
Hoje, Lara é fundadora da WorkCoherence, consultoria especializada em desenvolvimento de líderes e transformação da cultura organizacional.
Durante o encontro em Nova York, a executiva apresentou às participantes seu conceito de liderança coerente, baseado na capacidade de alinhar valores, comportamentos e decisões profissionais.
"Coerência não é um estado, é uma disciplina", afirma.
Segundo Lara, um dos maiores erros de quem busca crescer na carreira é acreditar que liderança depende apenas da capacidade de entregar resultados. Para ela, o verdadeiro desafio é reconhecer quem você é e compreender quem está se tornando ao longo da trajetória profissional.
"Quem é a pessoa que você está se tornando nessa jornada de ser líder? Você está se tornando a pessoa que você quer, de quem você gosta?", questiona.
Ao longo do treinamento, Lara apresentou quatro pilares que considera fundamentais para construir uma liderança coerente:
- Integralidade: desenvolver autoconhecimento e reconhecer os próprios valores, sem moldar toda a identidade às expectativas dos outros.
- Intencionalidade: compreender os motivos por trás das escolhas e avaliar se decisões profissionais estão alinhadas aos objetivos pessoais.
- Coerência: aprender a lidar com emoções, conflitos e situações difíceis sem abandonar os próprios princípios.
- Aprendizado contínuo: reconhecer que não se sabe tudo e buscar conhecimento por meio de estudos, experiências e relacionamentos.
Uma das reflexões mais importantes do encontro foi sobre o desconforto que acompanha o crescimento profissional.
"O desconforto, para mim, é um campo de treinamento", afirma Lara.
A executiva defende que situações de insegurança, medo ou ansiedade não devem ser interpretadas automaticamente como sinais de incapacidade. Muitas vezes, são consequências naturais de assumir responsabilidades maiores.
"Quando você começa a sentir conforto no desconforto, você entende que está em um lugar onde vai aprender."
Lara também compartilhou uma mudança que percebeu nas preocupações dos executivos ao longo dos últimos anos.
Desde que deixou o mundo corporativo, em 2020, realizou aproximadamente 500 mentorias. Segundo seus registros, entre 2020 e 2022, as principais demandas estavam relacionadas à reestruturação organizacional e à gestão de mudanças. Já em 2025 e 2026, ganharam espaço questões como autoconfiança, esgotamento emocional e transição de carreira.
"Em 2026, a maioria das minhas mentorias está sendo sobre transição de carreira, porque ninguém quer trabalhar mais em um lugar onde não se sente bem", afirma.
Para a ex-CEO, a transformação também exige uma mudança na maneira como as empresas avaliam suas lideranças.
Um gestor pode alcançar todas as metas e, ainda assim, criar um ambiente marcado pelo medo e pela insegurança. Outro pode conquistar resultados semelhantes enquanto desenvolve a confiança e o potencial de seus funcionários.
"Os líderes ressonantes ativam o melhor das pessoas porque elas se reconhecem no ambiente que ele criou", afirma.
Ao final do treinamento, Lara reforçou uma mensagem que se conectava aos demais aprendizados da imersão: o sucesso de um líder não deve ser medido apenas pelos resultados que entrega, mas também pelo ambiente que constrói e pelas pessoas que ajuda a desenvolver.
"O líder coerente cultiva um ambiente onde as pessoas possam florescer", afirma.

Lara Bezerra soma 30 anos de experiência corporativa, sendo 20 anos fora do Brasil. Durante o programa Salto + Alto ela fala sobre como ser um líder coerente (Layane Serrano /Divulgação)
Broadway: a importância da voz e da presença
A comunicação também teve espaço na programação. Em um estúdio utilizado para ensaios e audições de produções da Broadway, as participantes tiveram uma experiência de oratória com Angela Pierce, atriz americana formada pela Juilliard School, uma das mais reconhecidas instituições de artes cênicas dos Estados Unidos.
Com experiência em 11 produções da Broadway e participações em séries como Law & Order, The Blacklist e Manifest, Angela compartilhou técnicas utilizadas por atores para controlar o nervosismo, desenvolver presença e conquistar a atenção do público.
Mas, em vez de começar com discursos ou apresentações, a atriz pediu que as executivas formassem um círculo, fechassem os olhos e respirassem profundamente.
A primeira lição foi simples: antes de aprender a falar em público, é preciso aprender a estar presente.
"Quando você está apresentando a si mesma e a sua empresa, está transmitindo confiança, contando uma história e demonstrando entusiasmo por aquilo que vai compartilhar", afirma Angela.
Segundo a atriz, um dos erros mais comuns de quem precisa falar diante de outras pessoas é antecipar mentalmente tudo o que pode dar errado. Esse comportamento aumenta a ansiedade, provoca tensão no corpo e prejudica a respiração.
"Quando começamos a ficar ansiosos ou nervosos, ou nos antecipamos ao momento da apresentação, prendemos a respiração", explica.

Mulheres do Programa Salto + Alto treinando oratória e expressão com atriz da Broadway, diretamente de Nova Iorque (Dione Lopes)
Durante o treinamento, as participantes fizeram exercícios de postura, respiração e aquecimento vocal. Uma das práticas consistia em inspirar durante cinco segundos, segurar o ar por outros cinco e expirar pelo mesmo período.
Para Angela, a postura e a maneira como uma pessoa ocupa o espaço também influenciam a confiança transmitida ao público.
"Queremos que vocês estejam presentes, disponíveis e confiantes. Porque a confiança faz com que as pessoas na plateia confiem em vocês", afirma.
Depois dos exercícios, as executivas foram convidadas a realizar leituras em voz alta, em inglês, diante do grupo. A atividade acrescentou um desafio para as brasileiras: comunicar uma mensagem em outro idioma, mesmo diante do receio de cometer erros.
Angela explicou que, antes de qualquer apresentação importante, é fundamental ensaiar, pedir a opinião de alguém de confiança e verificar se as ideias estão organizadas.
"Certifique-se de que, ao trabalhar um texto, seus pensamentos estejam tão claros quanto a intenção daquilo que você está dizendo", orienta.
A atriz também incentivou as participantes a substituir pensamentos negativos por uma mensagem de autoconfiança.
"Estou preparada. Estou confiante. Tenho algo a dizer e vou estar presente neste momento."
Para ela, a voz de cada profissional merece ser ouvida, independentemente do cargo, da experiência ou do idioma.
"Sua voz é muito necessária para a conversa e para todas as conversas das quais você participa", afirma.
A experiência mostrou que técnicas utilizadas por atores nos palcos também podem ajudar executivos em apresentações de resultados, negociações, reuniões com investidores e conversas com equipes.
Afinal, não basta dominar um assunto. É preciso conseguir transmitir esse conhecimento com clareza, presença e confiança.
"Comunicar bem não significa apenas falar com desenvoltura. Também envolve ter clareza sobre a mensagem que se deseja transmitir e coerência entre o discurso e as atitudes", afirma Tatiana Marzullo, idealizadora do Programa Salto Alto.

Mulheres do Programa Salto + Alto na sede da Broadway, em Nova Iorque (Dione Lopes)
No LinkedIn, a lição é que reputação vale mais do que seguidores
Na quinta-feira, as participantes visitaram a sede do LinkedIn, em Nova York, onde também almoçaram e participaram de uma conversa com Tyrona Heath, diretora da plataforma e cofundadora do The B2B Institute, centro de estudos voltado ao marketing entre empresas.
O encontro abordou um desafio cada vez mais presente na carreira de executivos e empreendedores: como construir uma reputação profissional em um ambiente digital marcado pela disputa por atenção?
Para Heath, o primeiro passo não é definir quantas publicações fazer ou como conquistar mais seguidores.
"A pergunta não é o que devo publicar, mas pelo que quero ser conhecida", afirma.
A executiva defende que profissionais identifiquem os assuntos nos quais possuem conhecimento e experiência suficientes para contribuir com outras pessoas.

Tyrona Heath, diretora do LinkedIn e cofundadora do The B2B Institute, fala como destacar o perfil profissional e as empresas na plataforma global (Dione Lopes/Divulgação)
Na avaliação de Heath, construir autoridade não significa simplesmente compartilhar opiniões, mas ajudar o público a compreender problemas e encontrar soluções.
"É ajudar alguém a diagnosticar um problema complexo e oferecer uma ação que essa pessoa possa realizar. É, essencialmente, resolver um problema em voz alta."
Heath também questiona a busca excessiva por curtidas e visualizações.
"Se a sua meta é conseguir mil curtidas e compartilhamentos, provavelmente não é a meta certa. Você está participando de um jogo de longo prazo."
Outro tema foi o impacto da inteligência artificial na maneira como profissionais são encontrados e reconhecidos.
Segundo a executiva, a reputação digital pode influenciar não apenas a percepção de recrutadores e empresas, mas também a maneira como sistemas de inteligência artificial identificam especialistas.
"Não são mais apenas as pessoas que tomam decisões sobre a sua autoridade. São também os grandes modelos de linguagem."
Isso não significa que publicar no LinkedIn garanta recomendações por ferramentas de IA, mas reforça a importância de construir uma presença profissional consistente em diferentes canais.
"Estamos escrevendo para pessoas, mas também estamos escrevendo para máquinas", afirma.

Programa Salto + Alto leva mulheres líderes à sede do LinkedIn em Nova Iorque, EUA (Dione Lopes/Divulgação)
Veja também: Quer destacar o seu perfil no LinkedIn? Faça esta pergunta a si mesmo, diz executiva global
Da zona norte do Rio à liderança da L'Oréal nos Estados Unidos
"É difícil, mas não é impossível." Foi com essa frase, repetida pelo pai durante a infância, que Raquel Baron, criada em Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro, construiu a mentalidade que a levou a uma posição de vice-presidência do Grupo L'Oréal nos Estados Unidos.
Durante um encontro do Programa Salto Alto, no restaurante da Tiffany & Co., na Quinta Avenida, em Nova York, a executiva compartilhou os desafios de sua trajetória internacional e como uma doença rara transformou sua visão sobre carreira e liderança.
Filha de um homem que começou a trabalhar no corte de cana-de-açúcar aos cinco anos, Raquel cresceu em uma família que enxergava a educação como caminho para transformar o futuro. Com bolsas de estudo, frequentou escolas particulares e começou a aprender inglês aos dez anos.
"Quando as pessoas falam que eu tive muita sorte porque a L'Oréal me mandou para Londres, eu dou risada. A sorte que eu tive na vida foi a família em que nasci", afirma.

Raquel Baron, vice-presidência do Grupo L'Oréal nos Estados Unidos, comenta sua trajetória internacional (Dione Lopes/Divulgação)
Formada em Administração, construiu carreira em supply chain, área predominantemente masculina. No Reino Unido, passou a competir por oportunidades com profissionais formados em universidades como Oxford e Cambridge.
"Foi esse sangue nos olhos que se tornou meu diferencial. E é até hoje", diz.
Mas a trajetória também foi marcada por um episódio que mudou sua relação com o trabalho. Enquanto atuava no Reino Unido, Raquel foi diagnosticada com a síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada (VKH), doença autoimune rara que pode comprometer a visão. Ela chegou a perder a capacidade de enxergar, ficou afastada do trabalho por aproximadamente dois meses e passou por cinco anos de tratamento.
"Eu aprendi a lição de ser workaholic de uma forma muito dura. Eu perdi minha saúde", afirma.
A experiência também lhe ensinou uma lição sobre liderança. Ao comunicar o diagnóstico ao chefe, ouviu uma resposta inesperada: "Raquel, você toma o tempo que precisar. E me diz o que você precisa da gente."
Quando retornou ao escritório, ainda com dificuldades para enxergar, recebeu equipamentos adaptados para continuar trabalhando. O acolhimento mudou a forma como passou a liderar suas equipes.
Anos depois, questionada sobre o motivo de seus funcionários demonstrarem tanta lealdade, respondeu: "Eu não me esqueço de que eles são seres humanos."
Para Raquel, resultados e empatia precisam caminhar juntos. "Eu cobro muito, mas sempre no privado. Nunca exponho ninguém, porque lembro que eles são seres humanos."
Depois de construir uma carreira internacional e enfrentar uma doença que comprometeu sua visão, a executiva continua levando consigo a principal lição do pai: "É difícil, mas não é impossível."

Programa Salto + Alto, no restaurante da Tiffany & Co., na Quinta Avenida, em Nova York (Dione Lopes/Divulgação)
O que essas experiências ensinam sobre o futuro da liderança?
Ao longo dos seis dias, as participantes conheceram modelos de negócios, ouviram histórias de executivas e empreendedoras e discutiram desafios que atravessam diferentes setores. O programa acabou com um café da manhã no Central Park, com discussões sobre o papel da liderança que as executivas decidiram assumir depois dessa imersão.
Na Starbucks, a mensagem foi que valorizar funcionários é parte da estratégia de conquistar clientes. Na LIM College, o aprendizado esteve na importância de comunicar resultados e construir relacionamentos profissionais. Na Broadway, o foco foi desenvolver a voz e a presença. Já no LinkedIn, a discussão mostrou que reputação e conhecimento podem ser mais relevantes do que métricas de popularidade.
As histórias de Kete Jesus, Cleo Pilon, Celina Bredemann e Raquel Baron também revelaram que trajetórias profissionais raramente seguem uma linha reta. São marcadas por resiliência, dificuldades financeiras, inseguranças, decisões arriscadas e necessidade de adaptação.
Para Tatiana Marzullo, fundadora do Programa Salto + Alto, essas experiências reforçam uma questão central: mulheres podem reunir experiência, conhecimento e resultados, mas ainda enfrentar dificuldades para ocupar espaços de influência.
"A mulher pode ter competência, resultado, experiência e uma história extraordinária, mas ainda assim não ocupar o espaço que poderia ocupar", afirma. "A liderança não se resume ao cargo ocupado, mas à capacidade de transformar conhecimento e experiência em impacto, confiança e reconhecimento."
*Jornalista viajou a convite do Programa Salto + Alto

Formatura das mulheres que participaram do Programa Salto + Alto em Nova Iorque (Dione Lopes/Divulgação)
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