E se fazer coisas com as mãos fosse bom para a cabeça?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá, malta, sejam bem-vindos a mais um podcast "Somos Todos Malucos". Todas as quartas-feiras um convidado novo aqui para conversas sobre saúde mental, autoconhecimento, novas perspetivas de encarar também a criatividade. Um pouco do que vamos falar aqui hoje. Segundas-feiras, mini episódios intermédios. Já sabem, sou eu apenas a conversar convosco. Partilhem estas conversas, venham ao YouTube, deixem os vossos comentários, deixem também sugestões de convidados. Esta temporada vai ter também, se não me engano, cinco episódios especiais do IPDJ, do Instituto Português do Desporto e Juventude. Vou andar pelo país e vão poder depois vê-los aqui no YouTube e escutar no Spotify, iTunes, Castbox, por aí fora. Ora bem, a convidada de hoje, a Sofia Coutrinheir, é criadora de um projeto que se chama "O Mundo de Sofia". Para a malta mais antiga, é também um livro. Se calhar a malta nova já não se lembra, mas é um livro muito interessante, uma aventura filosófica que muitos de nós lemos na adolescência. Curiosamente ou não, este projeto pode também relacionar-se com este livro. É um projeto dedicado à criatividade, à aprendizagem e também a explorar esta relação que nós temos e que podemos ter entre as nossas mãos, o criar com as mãos, o autoconhecimento e a forma como pensamos e trabalhamos. Sofia, muito obrigado.
Obrigada eu.
Por estares cá. Só por curiosidade, "Mundo Sofia", obviamente, aproveitaste o teu nome, Sofia, e está relacionado com o livro, neste sentido. Também leste "O Mundo de Sofia" ou não?
Também li "O Mundo de Sofia", claro, quem não, nessa altura?
Exato.
Mundo, porque de facto eu gosto de fazer um mundo de coisas diferentes.
Sim.
E Sofia, óbvio. Sofia e, portanto, achei que era aqui uma boa filosofia.
Mas o que te levou a criar este Mundo Sofia? O que te levou até aqui?
Olha, eu sempre fui apaixonada por trabalhos manuais. Eu nasci no Brasil, no Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro.
Mas andei a passear muito por lá. E andei em várias escolas muito diferentes. E eu acho que esta parte artística foi-me bastante incutida desde miúda.
Mas trabalhos manuais o quê?
De coisas que fizesse com as mãos. Eu nunca fui uma aluna excelente.
Pois, eras boa a trabalhos manuais.
Era boa a trabalhos manuais e gostava de fazer uma série de coisas diferentes. E de facto, na escola fui recebendo vários estímulos. Com oito anos imprimíamos "t-shirts" na escola, fazíamos barro, coisas com recorte então imensas.
E vieste para Portugal quando? Ainda pequenina?
Vim com 13.
Com 13, ok.
Sim.
Portanto, isso fazias lá no Brasil.
Isso fazia lá. Sim, quando cheguei cá foi um bocadinho um choque.
Cá é assim, com 13 anos, trabalhos manuais, eu lembro-me de fazer barro.
Sim.
Lembro-me de fazer uma caneca. Madeiras.
Sim.
Ainda encontrei há pouco tempo na casa dos meus pais, um cabide que fiz para os panos da loiça.
E não fizeste nada de smyrna?
O que é isso, smyrna?
Smyrna. Smyrna é com uma agulha, com bocadinhos de lãs assim, costelinhos, tu colocavas assim numa rede.
Sim.
Sim, pegavas a agulha, puxavas.
Parecia um quadro, não era?
Um quadro assim fofinho.
Sim, foi fixe.
Isso ainda fiz cá.
Não sabia que se chamava assim.
Sim.
Smyrna.
Smyrna.
Que engraçado. Sim, fiz isso, claro.
Umas agulhas especiais, parece assim uma agulha com uma argolinha.
Sim.
Macramê também depois fiz cá.
Macramê não. Na primária fazíamos picotado.
Também.
Que era com aquela agulha, era assim um coiso de madeira.
Uma esponja.
E eu lembro-me só do barulho, que aquilo fazia aquele tac.
Hoje em dia os miúdos não podem usar isso na escola.
Porque se podem aleijar, coitadinhos.
Porque se podem aleijar, coitadinhos.
Coitadinhos. E então não fazem porra nenhuma. É basicamente.
Fazem muito menos coisas.
Mas é engraçado, eu tenho boas memórias das aulas. Lembro-me de que dava muito trabalho.
Sim. Demora tempo, tinhas que ter muita paciência.
Sim.
E faz falta.
Mas era coisa que eu não tinha. Mas ao mesmo tempo fazia-me impressão, porque eu imaginava uma coisa muito perfeitinha na minha cabeça, mas depois não saía.
Raramente saía. Mas é engraçado, porque por acaso os meus primeiros empreendedorismos vieram frutos também destes trabalhos manuais. Portanto, é engraçado, tipo macramê, eu às tantas fazia umas pulseirinhas que faziam imenso sucesso, uns colares com conchinhas, que tinha sido bases dadas na escola muito pequeninas.
Mas a tua área profissional sempre foi dedicada a isto?
Não, eu sempre gostei muito disto.
Pronto, mas era hobby.
Era hobby, era filosofia de vida.
Ok.
Depois estive em curso de estilismo industrial.
Ok.
E andei algum tempo pelas fábricas no Norte.
Estilismo industrial é o quê?
No fundo, é moda, mas era muito vocacionado para a indústria.
Pois, para a indústria.
A indústria do vestuário.
Ou seja, mas produzir em massa?
Produzir em massa, sim. Trabalhava para algumas marcas e trabalhávamos com uma série de fábricas.
Produzir coleções.
Sim, diferentes marcas que não sabiam muito bem onde é que haviam de produzir ou queriam uma empresa que tratasse das produções. E eu andei durante uns tempos a fazer isso, mas implicava-me estar a viajar imenso e a maior parte destas fábricas estão para o Norte e portanto a dada altura deixou de fazer sentido e fui fazendo outros projetos na vida.
E quando é que este Mundo de Sofia começa a ganhar dimensão?
Olha, começa quase como uma brincadeira. Este "Mundo de Sofia", este em concreto, começou como um programa de televisão.
Sim. Na SIC.
Na SIC. Na SIC Mulher. Eu, na altura, trabalhava com programas de culinária, tratava do styling, da imagem das marcas, do look do programa e a dada altura, com a equipa com quem trabalhava, começamos a brincar e dizer assim: "Bem, se calhar a Sofia gosta tanto de fazer trabalhos manuais", e na altura também tinha outro projeto relacionado com produção criativa. E então fizemos um piloto e a ideia ganhou forma e este "Mundo de Sofia" foi crescendo neste formato.
E este "Mundo de Sofia", que é este formato que tu dizes, tu ensinas as pessoas e empresas também, já lá vamos, mas tu ensinas as pessoas a poderem não só aproveitar, mas também estimular a sua criatividade, estimular a sua relação, se calhar com a sua criatividade, com o seu próprio corpo, com as mãos.
Sim, só que eu mais do que ensinar uma técnica ou qualquer outra coisa, eu tento inspirar, porque nós temos tantas coisas à nossa volta que podem passar por uma intervenção criativa e às vezes falta-nos assim um clique. E, portanto, eu sempre tentei neste projeto do "Mundo de Sofia", ser um bocadinho da girl next door. É explicar que eu não sou diferente e tudo aquilo que eu faço, se as pessoas tiverem alguma predisposição e vontade, também conseguem fazer. É preciso é agir, querer.
Mas isso leva-me aqui a essa questão que eu tinha aqui que é: por que há tanta gente, e eu se calhar também me incluo aqui em alguns campos.
Sim.
Por que há tanta gente a dizer que não é criativa?
Não são criativas.
E será que essas pessoas ou nós não temos criatividade ou é uma falta de confiança, de vontade?
É uma falta de confiança e de tentar arranjar o momento certo, porque nós estamos à espera sempre de uma perfeição para começar a fazer qualquer coisa. E esse momento não existe. E, portanto, é preciso parar e criar, de facto, as oportunidades. Se calhar, temos lá em casa um banco que está feio há anos. Olhamos para aquilo e não gostamos. Queríamos uma coisa diferente. Então é preciso agir. Vão arranjar o banco, podem lixá-lo, pintá-lo. É tudo um gatilho que é preciso ser executado.
Sim, mas há pessoas que acham que não têm jeito.
Imensas. Aliás, é a coisa que eu mais ouço.
É o que tu deves ouvir mais, é pessoas a dizer: "Ai, não tenho jeito para isto. Eu não sei fazer".
E depois a pergunta a seguir é: qual foi a última vez que tentaste? Tu já tentaste?
Também é verdade, sim.
Porque a maior parte das pessoas não tenta ou então não tenta há tanto tempo.
Mas de onde é que vem essa ideia de "não tenho jeito"?
Olha, eu outro dia estava a ler uma coisa engraçada e de facto, nós quando somos miúdos, nós não temos barreiras. Nós podemos desenhar aquilo que for, os pais acham sempre que é lindo, experimentamos e sujamos as mãos e não temos medo de arriscar.
Sim.
A partir do momento em que nós começamos a crescer, nós começamos a ter a noção do que é certo e do que é errado. E a partir daí, as pessoas ganham uma série de barreiras.
Verdade.
Não é? Se tu és julgado por aquilo que tu fazes, tu queres que o julgamento seja um bom julgamento. Queres que o teu trabalho seja apreciado. E, portanto, se tu tens medo de falhar, tu a dada altura já não tentas. E isso é com as coisas mais simples. Eu outro dia fiz um workshop de aguarela. Eu não sou nenhuma expert em aguarelas, tenho assim uma ligeira base, mas não é isso que aqui importa. O que importa é desafiar as pessoas a experimentarem. A dada altura, tinha uma senhora que devia ter para aí uns 65 anos, que dizia: "Bem, eu acho que a última vez que eu agarrei num pincel, eu estava na escola." E eu penso: "Como assim?" Como é que os anos passam? E quer dizer, não estamos a falar de uma coisa extraordinária. Estamos a falar de uma caixa de aguarelas com um pincel. E as pessoas não arranjam tempo para isso na vida, mas arranjam imenso tempo de estar agarradas ao telemóvel, a fazer scroll.
Sim.
E a consumir sem criar. E isto gera uma frustração.
Sim.
E quando as pessoas ultrapassam essa barreira, é tão bom. Eu acho que nós andamos num bom caminho, porque eu acho que há 11 anos atrás, quando o projeto "Mundo de Sofia" foi feito, as pessoas nem sabiam o que era o DIY, do it yourself.
Exato.
E hoje em dia há uma explosão de influencers e pessoas a quererem experimentar. E vejo uma série de workshops, coisas que há uns anos atrás não existiam. E isso é ótimo.
Por exemplo, a minha mulher sempre disse que não sabia desenhar.
Sim.
"Ah, não sei desenhar". E quando ela fazia desenhos.
Sim.
Passavam rabiscos assim. Ela diz que é a meia frustração. E se calhar foi daí que ela conta muitas vezes essa história, lá está o trauma. Ela diz que uma vez para um primo dela pequenino.
Sim.
Fez um desenho e ele olhou para o desenho e disse assim: "Por que esta bota está a deitar fumo?" Era um carro. E ela conta aquilo tanta vez que ele deve ter ficado traumatizado.
Claro.
E ficou lá a cena de "eu não sei desenhar". Depois começou a tirar um curso de desenho e traz desenhos lindíssimos para casa.
Espetaculares. Nós só nascemos ensinados.
Se são perfeitos. Não, não são perfeitos, mas são muito bons e mais do que isso, é provar-se que consegue fazer.
Mas o resultado não é aquilo que está em causa.
Pois. Então o que está em causa? No trabalho, o que tu dizes às pessoas? Que o objetivo não é o resultado.
Não, é o processo. Eu acho que o mais importante é o processo.
O que é que ganhas com o processo?
Olha, tu consegues equilibrar aqui uma série de emoções no processo, que é importante ter em conta. Por exemplo, as pessoas não fazem as coisas bem, normalmente, à primeira. E, portanto, o poder lidar com a frustração de errar e ter a capacidade de voltar a tentar é uma coisa extraordinária. E isto é uma coisa que nós devemos transportar para tudo na nossa vida, não é só para os trabalhos manuais. E isso também se adquire aqui. Há uma coisa que eu não divulgo muito, mas eu faço alguns workshops com crianças. Tem pouca coisa aqui no Instagram E comecei a fazer isto um bocadinho por brincadeira, porque tinha uma data de amigas minhas que viam o programa com as filhas e diziam: "Sofia, faz lá isso, as minhas filhas iam amar." E a dada altura, comecei a fazer uns ateliês em minha casa com grupos de 12 miúdos. Ano passado eu tive 48 miúdos, foram quatro semanas.
É uma escola, é um infantário.
É quase, é um colónia de férias. E é muito engraçado conseguir trabalhar nestes miúdos e ver como é que os miúdos estão hoje em dia. Há miúdos que não sabem agarrar numa tesoura, porque há uma série de coisas que são perigosas, que foram lhe bloqueados, de certa forma, o acesso, que há coisas muito simples que estão a ficar de lado. A paciência de passar cola e esperar que seque. As pessoas querem tudo para o imediato. E nos trabalhos manuais, estas coisas têm que ser trabalhadas, porque se tu na inteligência artificial, hoje em dia, tens imensos atalhos e imensas ajudas. Na inteligência manual, tu não tens.
Exato, não há maneira.
Tu não tens. Tu tens que saber esperar, tens que lidar com a frustração de recomeçar e treinas muita coisa com os trabalhos manuais. E quem diz trabalhos manuais, diz o tricô, o crochê, um simples trabalho de fazer recortes.
Isso é uma coisa curiosa, da tua experiência e daquilo que vês, o que acontece à nossa cabeça quando estamos concentrados numa atividade manual?
A concentração. E quando estás concentrada a fazer uma coisa ali, tu desligas das outras.
Até acho que é quase um processo meditativo.
Sem dúvida. E é muito engraçado quando eu faço os workshops para as empresas, no fundo, para adultos, eu acho que eu adoraria chegar e dizer: "Olha, não é para meter telemóveis", mas eu acho que isto cria nas pessoas uma resistência e uma ansiedade, que não é suposto ali naquele momento. E portanto, os telemóveis vão para os workshops, mas sabes o que é engraçado? Ficam sempre a preto. As pessoas nem tocam no telemóvel, não tocam nos ecrãs dos telemóveis, porque não têm tempo, porque estão concentradas a fazer aquilo que ali está. E depois é ótimo, porque eu adoro fazer trabalhos manuais sozinha, mas também adoro fazer em grupo. Se as pessoas estiverem com as mãos ocupadas, as pessoas estão com a cabeça também muito mais liberta para conversarem umas com as outras. E isto tem um efeito.
Isso é muito curioso, porque isso remete-me para imagens de infância.
Sim.
Em que no prédio onde eu vivia, nos Olivais, era um prédio pequeno de seis inquilinos e muitas vezes havia as vizinhas que iam para casa da minha mãe ou a minha mãe para casa das vizinhas fazer crochê na sala, sentavam-se ao lado umas das outras, ou tapetes de arreoles.
Espetacular.
E realmente estão sentadas com o tapete a fazer e a conversar.
E sabes o que é engraçado? Por isso a expressão, não é: "Vou aqui tricotar, vamos aqui para o corte e costura."
Pois é, corte e costura. E quando tu queres contar fofocas, faz assim. Mas é verdade. E isso é uma coisa que já não vai acontecer.
Olha, eu até tenho esperança que sim. Se calhar não nessa dimensão, mas eu acho que as pessoas estão mais atentas, estão cada vez mais atentas. Eu vejo cada vez mais grupos de mulheres a fazerem crochê, grupos de clubes de colagens, de recortes. É uma coisa muito engraçada, agarrarem revistas e recortar e fazer composições, porque não requer esforço mental. Tem aí uma espécie de um atalho.
Sim.
Porque as pessoas podem pensar: "Eu vou fazer um desenho, mas o desenho vai ficar uma porcaria." Mas se tu de repente tiveres uns recortes de umas revistas e umas imagens, é aqui uma espécie de um atalho.
Ok, sim.
Te dá aqui umas ferramentas e umas sementinhas e é seguir.
Essa questão, por exemplo, do crochê, eu acho que isso era a meditação dos nossos avós.
Era.
O fazer crochê, porque era uma hora ou duas, o tempo que tivessem ali.
E tu já fizeste crochê alguma vez? Já viste o que é preciso andar a contar e a não perder.
Ou crochê com as duas agulhas? Já não me lembro.
Esse é tricô.
Ou era tricô.
Sim, crochê é com uma agulha, é uma agulha com gancho.
Então era crochê.
Mas tens que contar em qualquer um deles.
Com lã.
Sim, pode ser lã, o que for. Tem o fio.
Eu acho que era a minha avó que fazia.
Sim.
Eu já não me lembro, a minha mãe era costureira. E eu já não lembro se foi a minha avó que me ensinou ou a minha mãe, mas eu lembro de fazer cachecóis e meias.
Espetacular.
Portanto, eu acho que era crochê.
E tens que estar atento e agir, porque isto de facto é uma ginástica mental.
Metia sobre o pescoço a linha.
Mantens ali a tensão.
Tinha essa agulha que tem um gancho no fim.
Essa é de crochê.
E ficava ali, e aquilo, o processo. Aliás, eu posso relacionar isto com a conversa que já tive aqui com outras pessoas, que sim, posso dizer de alguma maneira que é um processo meditativo, porque é um processo repetitivo.
Sim.
E tu estás só naquele movimento.
É repetitivo, mas tu tens que ter ali imensa concentração, porque tens que contar.
Sim, é quase como se tu ligasses duas partes do cérebro, uma parte mecânica que está habituada a fazer isso.
A mão.
Sim. É muito curioso.
É um extraordinário exercício mental e manual.
E que evolução é que tu vês nas pessoas?
Olha, vejo assim e assim. Eu acho que há muitas pessoas que estão atentas e que tentam trazer este mundo manual para este nosso universo que está cada vez mais digital. E isso é importante. Há pessoas que eu acho que estão a leste, mas eu tenho sentido, a nível corporativo, uma adesão gradual e o feedback tem sido muito bom, porque há pessoas que estão metidas num universo tão fechadinho, que este gênero de atividade, sobretudo em grupo, acaba por ser um enorme incentivo à socialização. E depois, isto às vezes pode começar a ser despontado num único evento, num único workshop, mas isto depois pode se traduzir pra casa.
Pois, isso era a minha questão, até que ponto é que muita gente faz aquilo: "Ah, fiz só um workshop e está feito." Até que ponto é que isto desperta nas pessoas esse interesse de querer continuar?
Eu adorava dizer-te que conseguimos a 100%. Provavelmente não.
Não acontece com nada.
Mas vai acontecendo. E isso, só por si, é ótimo. Se tu conseguires que duas ou três pessoas em cada workshop se lembrem e que depois queiram repetir isto em casa, porque há várias pessoas que dizem: "Ah, isto é tão fácil, isto eu até posso tentar em casa com os meus filhos." Olha, que bom que seja uma atividade pra fazer em família.
Sim, diz, desculpa.
Ou mesmo em casa, ou mesmo sozinhas. Há pessoas que estão sozinhas que, se calhar, em vez de ficarem frustradíssimas a ver as vidas dos outros online.
As férias nas Maldivas.
Se calhar se produzirem alguma coisa, o sentimento de realização quando tu começas um trabalho manual e de repente concluis e ficas orgulhoso do resultado, isto dá imensa satisfação.
E como é que tu consegues levar essas aprendizagens pra outras áreas da tua vida? O que isso te traz, por exemplo, apesar de não seres psicóloga, mas por exemplo, se calhar já tiveste pessoas em workshops, pessoas que lidam com a ansiedade, pessoas que lidam com ou que passaram por processos de burnout ou que estão simplesmente desgastadas. O que é que elas conseguem aprender daqui? O que é que conseguem levar daqui pras outras áreas?
Pra já têm que perceber que o fato de fazerem estes projetos não tem nenhum julgamento. As pessoas não são julgadas por aquilo que fazem e, portanto, que devem fazer, que devem tentar, mas que o resultado não deve ser julgado e que não deve ser encarado como um problema de vida. E, portanto, se nós olharmos também às tantas pros nossos problemas, se tentarmos olhar pras coisas com alguma leveza, a vida não é um trabalho manual.
Parece que as pessoas já não sabem fazer as coisas simplesmente por fazer, não é?
São tão perfeccionistas que às vezes nem tentam.
Isso é uma boa frase.
Não é?
Porque já sabem que vão errar.
Já sabem que vão errar. E às vezes é engraçado que as pessoas dizem: "Ai, fazes no programa, aquilo parece tudo tão fácil." E no final, a dada altura, dava-me alguma frustração, porque eu dizia: "Mas é que isto não é verdade. Vocês não imaginam a quantidade de horas que eu passei e a quantidade de erros que eu fiz até chegar ao resultado que eu queria." E isto é um bocadinho a vida das pessoas. Quer dizer, nós não conseguimos se não tentarmos às vezes suficientes.
E é aquilo que tu estavas a dizer, o objetivo é mais de aproveitar o processo, não é?
Sim.
Enjoy.
Não há mal em voltar a tentar. Nós erramos na vida.
Quantas pessoas é que tu tens nos teus workshops, que a preocupação é a produtividade?
Todas, quase todas.
"Ai, mas eu nunca mais vou acabar isto."
Quase todas. "Ai, isto tá feio." A maior parte dos projetos não dão pra deitar e começar fora. Por exemplo, se eu for pintar um lenço de seda, você não vai me agarrar e deitar fora. Você tem que continuar. Outro dia houve uma que pintou um prato de cerâmica e disse: "Isto tá a ficar péssimo." Eu disse assim: "Olha, agora não vais desistir, porque não vais poder lavar o prato e não vais poder continuar. Faz até o fim." E de repente chega ao fim e diz: "Ah, até ficou giro." Dá-nos muitas vezes um bloqueio no meio de um processo criativo. A quem não? Tu não tens bloqueios no processo criativo?
Felizmente, a minha relação com o processo criativo tá muito mais tranquila.
Sim.
No sentido, se eu tô bloqueado, eu não começo a panicar, não vou estressar, vou fazer outra coisa qualquer.
Estás a ver um aprendizado pra vida? É isso. Às vezes é preciso parar, abstrair, voltar a começar. Faz parte.
Ou, como tu estás a dizer, muitas vezes eu tô a escrever qualquer coisa.
É continuar.
E tô a achar: "Que grande bosta que isto aqui está. Bora, siga." E continuo. Continuo até o fim, depois paro, encosto, releio, vejo. Olha, afinal consigo aproveitar isto, consigo mudar aquilo.
A única coisa que não podes fazer é desistir.
Pois.
O resto, se não desistires, não vais conseguir nunca.
Sim. Essa satisfação. Tu vês também essa evolução de pessoas. Os workshops quanto tempo é que duram?
Estes duram à volta de uma hora e meia. Estes que eu faço mais vezes.
E há aulas, pessoas que tens...
Olha, António, eu não tenho tido muito tempo pra aulas.
Isso por quê? Eu queria te perguntar se tu acompanhas o processo evolutivo das pessoas.
Não, mas sim, porque há alguns sítios onde eu faço workshops com frequência, não são sobre as mesmas técnicas. Nós costumamos espalhar várias sementinhas. Sim, normalmente quando começo a ir a uma empresa, os workshops a seguir vão sempre os mesmos, bloqueiam aquelas vagas todas. Eu gosto de tentar plantar várias sementinhas, porque eu gosto imenso de técnicas diferentes. Gosto de pintar cerâmicas, gosto de fazer caixas de cartão, gosto de fazer estampagens com carimbos, pintar lenços de seda. Não é que eu seja uma super expert em tudo, mas eu consigo fazer algumas coisas. E eu gosto de espalhar estas sementinhas de projetos diferentes, porque eu acho que ninguém tem jeito para tudo, mas é giro experimentar.
E o que tu fazeres essas coisas te trazem a ti?
A mim dá uma imensa satisfação, ver o desbloqueio das pessoas nestes eventos.
Não, eu estou a falar de ti.
A mim?
Sim. O que te traz tu criares?
A mim traz-me uma imensa felicidade. É uma satisfação imensa. Por exemplo, resolver às vezes pequenos problemas, que não são problemas. Por exemplo, eu queria imenso fazer uns carimbos. Não conseguia fazê-los de uma maneira. Fui tentar fazer de outra, e depois a dada altura arranjei uma terceira solução que ficou espetacular, agora num próximo workshop vou ter uns carimbos lindos, com umas ilustrações fantásticas. Mas todo este processo, que é muito simples, não é simples. Quando tu olhas depois o carimbo lá feito, pensas: "Já está". Mas ninguém imagina as horas que foram de pensar e criar.
Mas isso, se calhar, vem da tua família ou não? Isso foi-te incutido desde pequena?
Se calhar um bocadinho, que a minha família é muito grande, eu também tenho muito a quem ir buscar. Mas isto também aprende-se.
Por que eu estou a dizer isto? Porque eu estava a relacionar eu em casa.
Sim.
Pequenas coisinhas, eu gosto de ser tipo MacGyver.
Sim.
E dá-me essa satisfação. Dá-me a satisfação de pensar: "Como é que eu resolvo isto?"
Certo.
Sem chamar cá alguém para resolver isto por mim. Como é que eu resolvo isto? E é esse processo que desgasta, que depois parece: "Olha, fiz isto assim", e o pessoal: "Olha, ficou fixe." Mas até chegar aquilo, eu tive que matar a cabeça a pensar como é que havia de fazer.
É exatamente esta atitude que é precisa.
E é essa a satisfação que me dá de ficar: "Como é que eu vou fazer? O que eu posso usar aqui em casa? Olha, se eu usar esta caixa, se eu fizer isto e se eu puser ali, cortar aqui."
É exatamente essa atitude criativa de pôr em ação, que é preciso para os trabalhos manuais e para a vida, porque depois isto reflete-se. Olha, se calhar poupaste uns trocos num canalizador que ia lá em casa ou no carpinteiro.
Também já me dei mal.
Também acontece. Não estou a dar sugestões para ninguém lá em casa substituir nem o carpinteiro, nem o marceneiro, nada. Mas se calhar o pintor ali para pintar o banco, se calhar podes.
Sim, ou pegar umas caixas. Eu no outro dia estava no meu escritório assim: "Preciso aqui de uma estante. Não me está a apetecer comprar aquelas estantes tipo IKEA."
Aproveitar o que tu tens.
E eu pensei assim: "Tenho ali uns caixotes de fruta de madeira. Se eu os empilhar assim desta maneira, não sei o quê, se pregar aqui uns aos outros." Fiz uma estante para livros, não sei o quê, com várias formas, umas para cima, outras para baixo.
E não ficaste orgulhoso?
Fiquei.
Boa.
Até chamei a minha mulher e disse: "Olha só para isso que eu fiz."
Espetacular.
E eu acho que é isso que tu dizes, dá essa satisfação. E eu acho que também as pessoas terem a oportunidade de criar, devolve-lhes a-
Uma confiança.
Sim, e à sua natureza.
Sim.
De alguma maneira, não é?
É. Qual é a melhor ferramenta que nós temos?
Sim.
É esta.
Não é? Nós vivemos num mundo cada vez mais tecnológico. Que eu acho que nós nos afastamos. Tu hoje em dia, se queres comer, mandas vir comida.
Sim.
Queres fazer o que for, ChatGPT.
O meu filho mais novo outro dia dizia-me: "Ó mãe, eu quero ser carpinteiro." O do meio olhou assim de lado e disse: "Boa, espetacular."
É giro.
"Que bom. É tão honrado. Olha, quer melhor profissão? Faz falta a todos." E de facto, hoje em dia, estavas tu a dizer que fizeste uma estante. É muito fácil hoje em dia, nós comprarmos as coisas feitas. Às vezes é mais fácil, às vezes é mais barato, não dá trabalho. Às vezes é mais caro ires comprar tintas e as tábuas para fazeres as coisas em casa do que comprar feito. Mas ninguém nos tira a satisfação e o orgulho depois de concluir estes projetos, de saber: "Fui eu que fiz." Isso é ótimo.
Tu nas empresas, este projeto que tu tens, o Maker Mindset.
Sim.
Que projeto é este?
Que amor. Isto é uma filosofia, que no fundo convida as pessoas a aprenderem a fazer.
Pelas palavras. Exato. Ter o mindset de um fazedor, é isso?
Exatamente.
O mindset de um criador.
Sim. E não é preciso tu saberes tudo antes de fazeres. Portanto, é aprender fazendo e tendo aqui atenção ao orgulho ou satisfação no tal processo que nós estávamos a falar, sem julgamento do produto final. Portanto, é uma atitude de fazer, de criar, de experimentar, de duvidar, de pesquisar, mas sobretudo de fazer e de continuar fazendo, porque não há melhor maneira de aprender do que fazer.
Isto já diziam os nossos pais, não é?
Pois.
Exato.
É tão simples ao mesmo tempo, não é?
Sim. Por isso é que eu há pouco estava a perguntar se também vinha da tua infância, porque o meu pai era metalúrgico.
Sim.
O meu pai construiu uma casa Literalmente. Na casa onde eu cresci, muitos dos candeeiros de lá são feitos em ferro pelo meu pai. E eu acho que vê-lo fazer essas coisas e vê-lo trabalhar em casa, também tudo que era bricolage, pequenas coisas, também me despertou esse interesse, a caixa de ferramentas. Despertou esse interesse de ser eu a resolver pequenas coisas.
E, de facto, nós temos a capacidade de ser exemplo para os nossos filhos e, portanto, que bom que o teu pai, de certa forma, foi exemplo.
Mas essas profissões estão a desaparecer. Outro dia estava a ver, há um conjunto de profissões do nosso tempo que já não existem.
Pois.
E hoje em dia é muito trabalho de IT.
Isto vai ser agora uma discussão super profunda.
Quem vão ser estes pais?
Os que fazem estas coisas.
Os que são de IT, de informática, que estão ligados às tecnologias, se eles não tiverem trabalho manual, como é que se vai incutir isso às novas gerações?
É um grande desafio.
Não é?
É. Definitivamente, não vai ser só ver vídeos. Se os vídeos servirem para incentivá-los depois a ter esta atitude com este maker mindset e depois quiserem concretizar estes projetos, ótimo. Senão, ficam assim um bocadinho preguiçosos.
Será que isso vai limitar também depois a criatividade e a frustração?
Sem dúvida. Aquele processo que estávamos a falar, de saber esperar, de errar e voltar a tentar. Esta paciência tem que ser adquirida, porque senão às tantas tornam-se pessoas um bocadinho frustradas.
Sim, sem paciência.
Sem paciência.
O trabalho que tu fazes para as empresas, qual é o objetivo? Quando te procuram, qual é o objetivo? De certeza tu já deves ter tido histórias tipo: "Esta malta não falam uns com os outros, são todos em guerras."
Quantas vezes. Eu acho que são vários, sobretudo é pôr uma série de pessoas à volta de uma mesa com hierarquias completamente diferentes e à volta desta mesa de um projeto de trabalhos manuais, as pessoas são todas iguais.
Pois é.
E outra coisa que eu acho engraçado e que eu tento muitas vezes dizer: isto não é um team building. Não é aquele clássico team building com imensas mensagens subjacentes de produtividade e de estímulo. Não é isto. Este trabalho faz-se sozinho, porque aqui, de facto, apresenta-se na prática um momento de lazer, de criatividade, um espaço de tempo. É ali um buraquinho ao meio do dia. As pessoas não precisam de ir para fora do local do trabalho, não precisam de quebrar as rotinas. Uma coisa que eu tento nestes workshops, é óbvio que há exceções, mas a maior parte destes workshops são feitos ou no intervalo da hora do almoço ou ao final do dia, porque a ideia não é que isto se torne uma quebra na produtividade, porque eu acho que as empresas também não querem isto, mas que se torne um momento de lazer dentro do dia, sem que isto se torne para as empresas uma ausência do trabalhador no seu posto de trabalho. Mas eu sinto que as pessoas quando entram no workshop a hora do almoço, saem depois com uma energia completamente diferente e renovada. Portanto, é com leveza, com criatividade, com alguma socialização.
Sim. Eu ia te perguntar: mas que aprendizagens é que eles podem levar para o seu trabalho? A flexibilidade?
O não ter o medo de tentar, o não ter o medo de serem julgados, o não ter medo de errar.
Eu aposto que se calhar depois ainda ficam uns dias a falar sobre o que fizeram.
Sem dúvida. Então nos de cerâmica é muito engraçado, porque nós levamos as peças, as peças depois têm que voltar para serem cozidas, e depois quando voltam, o dia já foi uma alegria, a seguir, outra alegria. E de vez em quando também vou recebendo mensagens das pessoas que fizeram projetos no workshop e dizem: "Olha que giro que isto ficou na minha casa." A dada altura também já fiz uns de costura e dizem: "Olha a produção de sacos para a praia que eu fiz, porque aprendi a coser à máquina contigo." E portanto, esta sementinha que é plantada nos workshops, às vezes pode se tornar um hobby e uma razão de bem-estar na vida das pessoas.
Já tiveste exemplos desses?
Já tive alguns, mas deixa-me contar-te um que eu tive outro dia, que eu fiquei absolutamente impressionada. Estava uma miúda, nós fizemos uma caixa de cartão que demorou um tempão, foi um workshop maior, foram quase três horas. E a miúda durante o processo todo dizia imensas vezes: "A minha mãe sempre disse que eu não tinha jeito". E ela lá fazia, não sei o quê, de vez em quando esparagajava e dizia assim: "A minha mãe sempre disse que eu não tinha jeito". E depois a dada altura, no final do workshop, tinha a sua caixa feita, que estava impecável. A miúda de repente começou a chorar. Diz assim: "Eu afinal tinha jeito". Sim, mas é preciso tentar, fazer.
Essa frase diz muita coisa.
De repente, quebrou-se ali uma razão de uma insegurança, que eu espero que Que dê frutos.
Tu tiveste gente que continua?
Sim.
E que criam os seus próprios projetos ou não? Porque às vezes a malta tem de criar aqueles projetos.
Claro que tenho. Muitas vezes estou no workshop a trabalhar.
Já tens concorrentes?
Provavelmente tenho bastantes.
Já tiveste pessoas que seguiram, que têm os seus próprios projetos?
Olha, eu, por exemplo, outro dia, que já foi na altura de Santo António, fiz uns altares de Santo António e às tantas tinha uma mulher lá que dizia: "Isto é giro, onde é que eu arranjo isto?" E eu dizia: "Arranjas não sei onde." "E onde é que eu arranjo isto?" "Arranjas não sei onde." E depois a dada altura mandou-me uma fotografia e disse: "Olha, fiz estes todos para oferecer à minha família." Olha que bom!
Pois é, isso é uma boa perspectiva. Lá está, de prendas de Natal.
Isso, temos muitas ideias.
Não é?
É.
Prendas de Natal, tu podes criar, poupas e estás ali a criar. É algo muito pessoal, não é?
Tem um significado completamente diferente. Eu acho que dos bens mais escassos que nós temos hoje em dia, é o tempo. E, portanto, se tu deres alguma coisa feita com o teu tempo, o significado acaba por ser bom.
Sim. Tu fazes só esses workshops, imagina, nas empresas, é uma vez? Ou tu és tipo...
Não, eu vou fazendo com alguma frequência. Normalmente, quando entro nas empresas, raramente saio.
Fazes o quê? Uma vez por mês, X em X tempo.
Sim, agora na altura do verão fica um bocadinho menos. Agora no Natal, uma agenda cheia.
Eu acho é que o que pode ser curioso é exatamente isso que tu dizes, que é voltar um pouco ao tempo dos nossos avós. E eu acredito que, não sei, diz-me tu, se calhar estás depois atenta também ao que as pessoas fazem e dizem. Tu vês relações humanas a desenvolverem-se nos workshops?
Claro, sim. E às vezes é assustador. São pessoas que trabalham nas mesmas empresas, e eu trabalho também um bocadinho em sítios com várias empresas diferentes, e muitas vezes há empresas onde as pessoas não se conhecem, as pessoas são muitas. Hoje em dia as pessoas trabalham maioritariamente em regimes híbridos e, portanto, as pessoas não têm ligações umas com as outras. Olha, outra coisa engraçada também: outro dia estava um engenheiro informático, veio fazer um curso de costura. Sem preconceitos, mas normalmente os de costura vão as mulheres quase todas. E ele dizia-me: "Eu passo o dia inteiro com números, a programar." Era um francês. "Se eu não tiver um bocadinho de alguma coisa manual na minha vida, o meu cérebro esgota-se, parte." E é giro, se calhar, trabalhar, de facto, várias áreas, porque nós precisamos dos ecrãs, nas suas mais diversas formas, mas é importante equilibrar e, de facto, estes hobbies manuais fazem-nos trabalhar outras partes do cérebro e das emoções.
Eu acho que nos faz trabalhar uma coisa, sobretudo, que é a presença.
Sim.
Não é? Tu tens que estar presente.
Estavas a falar de tricotar há bocado. Eu estava a lembrar também, nos Estados Unidos, há uma moda enorme, agora menos, mas nos tempos das nossas avós muito mais, que era o scrapbooking, em que tu fazias álbuns de fotografias com uma série de recortes. E então era muito típico as americanas estarem com os seus álbuns, com os seus papéis decorados, e passavam serões a montar fotografias, no fundo, a trabalhar as suas memórias, a guardá-las e a transformá-las num momento especial. E, portanto, nós precisamos de fazer muito scrapbooking ao longo da nossa vida.
Eu não sei como é que estão as escolas. Eu devia saber isto, porque eu tenho três filhas na escola. Mas, por acaso, vou perguntar-lhes. As aulas de trabalhos manuais já não são trabalhos manuais, agora é outra disciplina.
Eu vou te dizer o que eu sinto das experiências que eu vou tendo. Por acaso, agora um filho meu mudou de escola, mas na escola antiga tinham a possibilidade de se inscreverem em algumas aulas, mas no plano curricular normal têm a educação visual.
Pois, educação visual, exatamente.
Tem muito desenho. E há muitos miúdos que não têm jeito nem paciência para desenho e, portanto, faz muita falta ainda aquela manualidade que nós tivemos no nosso tempo, com as mirna.
Desculpa interromper-te, mas eu acho que nas aulas procura-se a perfeição.
Isso sem dúvida.
As aulas de EVT, educação visual e trabalhos manuais, que nós tínhamos. Isto por quê? Porque de repente lembrei-me, obviamente, dos trabalhos que elas trazem para casa quando têm que fazer aqueles das várias formas geométricas e as cores, etc. E dá-me a ideia que eles procuram muito a perfeição.
Os professores aí já sabem qual é o resultado final que querem.
Exatamente.
Nós estamos a falar que parece a mesma coisa, mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. Isto aqui é uma coisa bidimensional e os trabalhos manuais são tridimensionais.
Sim, e tu não procuras é isso. Tu tens uma previsão do resultado, mas não sabes se vai sair exatamente assim e tens sempre aquele condão pessoal, da imperfeição pessoal. Por exemplo, se tu fores fazer uma caneca ou o que quer que seja, eu lembro-me, a minha caneca tem os meus dedos.
Sim.
Tem essa coisa muito pessoal.
António, eu acho que é, sobretudo, criar, de facto, estes momentos, criar as oportunidades para se desenvolver as mãos, as nossas capacidades, e brincar, e não levar-nos tão a sério. Os trabalhos manuais devem ser isto, devem ser uma experimentação.
Eu acho que essa experimentação é muito benéfica em termos de saúde mental. Essa é a memória que eu tenho. E eu vejo isso, por exemplo, nessas coisas que eu faço em casa, eu quando olho por mim, passaram, se for preciso, duas horas.
Olha, por exemplo, nos lares de idosos, a importância que é
E acham que, se calhar, estão só a ocupar o tempo dos velhos.
Mas não é.
Pois.
E eu já fiz alguns trabalhos também sociais em alguns lares e faz bem, une.
Tu fazes em casa com os teus filhos?
Faço alguns.
Em casa tu és respeitada.
Não, eu tenho meu filho do meio.
E qual é que é o carteiro? É o mais novo?
É o mais novo. Eu acho que vai ficando assim o bichinho. Nós mudámos agora de casa há pouco tempo e o meu filho do meio encontrou, na arrecadação dos avós, um saco de golfe de há não sei quantos anos atrás, aquilo já virou um candeeiro. Há umas coisas que já nem é preciso, já vem deles e, portanto, é giro. Espero que eles tenham absorvido aqui alguma coisa e que gostem.
De todas as áreas que tu exploras, se pudesses recomendar uma única atividade de bricolage, o que é que tu recomendarias?
Olhar para aquilo que tens em casa. Como tu fizeste as tuas estantes, é olhar para aquilo que tem em casa e pensar: "O que já existe aqui, que eu, se calhar, até nem gosto e que poderia ser aproveitado ou melhorado?" Eu acho que é muito importante nós termos também a noção e o cuidado com o meio que nos envolve, de que não devemos começar as coisas de novo, que é importante reutilizar, reciclar e, portanto, se nós pudermos cuidar daquilo que temos em casa com algum trabalho manual, eu acho que isto é importante.
Mas como é que as pessoas podem procurar? Quer dizer, primeiro podem procurar a ti. Podem ir ao teu site.
Podem, tem lá algumas dicas.
Tens workshops. Fazes workshops só para empresas, não?
Normalmente, hoje em dia, só para empresas.
Então tenho que trabalhar numa empresa.
Têm que convidar. Falem aos recursos humanos e convidem para lá ir.
Exatamente, era o que eu ia dizer, falem com os recursos humanos, podem sugerir. Mas tens lá dicas.
Nós temos um site cheio de tudo. Todos os "Mundos de Sofia" estão disponíveis também online, foram quatro temporadas, mas vários episódios especiais. E hoje em dia, felizmente, de facto, online nós conseguimos aprender tanta coisa. E se não, vão a uma loja especializada em tintas ou qualquer coisa, e também tiram lá as vossas dúvidas.
E de atividades, se pudesses recomendar uma atividade, tipo crochê ou coser, qual é que tu recomendarias como uma que seja um bom momento para tu estares sozinha ou sozinho durante uma hora?
Olha, eu agora ando a experimentar bordados, que é uma coisa que eu acho muita graça.
Bordados é que têm aquele-
Um bastidor. Sim, eu já fiz outro gênero de bordados com uma agulha mágica, que é a fada do lar, mas hoje em dia ando a tentar fazer mais bordados tradicionais. Por que eu acho isso uma boa atividade? Porque é uma atividade muito portátil, num saquinho qualquer, tu consegues levar isto para vários sítios.
Ou seja, tu dizes: "Vou sacar do meu tablet" e sacas do bordado.
Exatamente. Esta semana fui a uma consulta, eu estava à espera e a dada altura tinha uma data de meadas que queria arrumar nuns cartõezinhos, e eu estive lá à espera, mas a enrolar as minhas bobines todas arrumadinhas, em vez de passar o tempo no telemóvel.
E as pessoas ao lado?
Riam-se, vieram perguntar, arranjei imensas amigas enquanto estava ali à espera. É muito engraçado, estás a ver? Se eu estivesse no telemóvel, ninguém metia conversa comigo.
É verdade.
Mas como eu estava ali e as pessoas vinham: "O que é que está a fazer? Ai, que giro! Eu já não fazia isto há tanto tempo." E foi muito engraçado, porque eu estive numa interação com duas senhoras que eu não conhecia nem do carro elétrico, e a dada altura elas largaram o telemóvel e estavam lá na conversa comigo. Portanto, giro, bom.
É engraçado, porque isso de alguma maneira, não é que vá provar cientificamente o que quer que seja, mas mostra o quão desligados nós estamos de certas tradições que tinham realmente uma função, que se calhar nós na altura não compreendíamos.
São extremamente agregadoras.
Não é?
É.
E que têm esse papel. Lá está, eu olho para trás e vejo a minha avó a fazer crochê e era um hábito, mas realmente era um hábito que, se calhar, de alguma maneira, lhe trazia serenidade durante o dia.
E tu já reparaste, a nível de arte, que tu tens imensos nomes de pintores super conhecidos, mas tens imensa dificuldade em dizer o nome de alguma mulher. Mas se tu pensares, por exemplo, uma parte destas mulheres estavam a fazer bordados e a importância que estes bordados têm a nível dos paramentos, da beleza, da nobreza. Tudo isto era feito por mulheres. Os homens, se calhar, alguns estavam a pintar, mas mulheres, muitas delas bordavam. E têm aí obras de arte. Uma parte delas perdem-se, não tiverem museus, mas de qualquer maneira, estava aí muita arte.
Sim. Que mensagem é que tu gostarias de deixar a quem nos está a ouvir sobre tudo aquilo que nós estivemos a falar aqui?
Que experimentem, que não se julguem, que tentem arranjar tempo para experimentar, fazer um hobby novo, porque de facto é bom, dá-nos satisfação.
Sofia, muito obrigado.
Obrigada eu.
Por esta conversa. Podíamos ter estado aqui a tricotar.
Podíamos. Fazemos outra vez.
Fica para a próxima. Trazemos umas linhas de crochê.
Combinado. Eu não sou muito boa aí, ainda vou ter que aprender mais, mas os bordados arranjo-te.
Eu o crochê gostava de perceber até que ponto a minha memória se lembra de alguma coisa.
É um bom exercício.
Ainda tenho que ver.
Quando fizeres, depois conta-me.
Eu lembro-me perfeitamente de estar sentado a fazer meias.
E as tuas filhas sabem?
Não.
Então? Tens aí um desafio.
Já são adolescentes, já não consigo fazer nada a elas.
Consegues. Pelo exemplo, chegas lá.
Obrigado, Sofia.
Obrigada eu.
Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Olha, podem ouvir esta conversa também a fazer um trabalho manual qualquer. Partilhem as vossas experiências com trabalhos manuais, o que vos preenche, se já experimentaram, o que é que fazem. E muito obrigado por estarem desse lado. Até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.