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Tuesday, September 15, 2026

Corregedoria da PM conclui que soldado teve intenção de matar mulher durante abordagem na Zona Leste de SP

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A soldado está afastada do cargo desde o episódio. O relatório final da investigação foi enviado à Justiça Militar.

O relatório do Inquérito Policial Militar concluído em 1º de junho já apontava indícios de autoria e materialidade de homicídio. Segundo o documento, Yasmin efetuou um disparo que atingiu Thawanna na região do abdome, provocando a morte horas depois.

A investigação também apontou problemas na forma como a força foi empregada. Para a encarregada do IPM, não havia elementos que demonstrassem risco iminente à vida que justificasse o uso da força letal. O relatório afirma ainda que não ficou demonstrada uma atuação progressiva antes do disparo e aponta inadequação, falta de necessidade e desproporcionalidade no uso da força.

O documento registra que a versão apresentada pela PM era de legítima defesa. Conforme o relato incorporado ao inquérito, Thawanna teria dado um tapa no rosto da policial e avançado em sua direção durante um confronto físico. A versão afirma que Yasmin tentou afastá-la antes de disparar.

Os depoimentos, porém, apresentaram versões diferentes. Uma testemunha afirmou que a discussão teria começado pela policial e relatou que Yasmin teria agredido Thawanna antes de receber o tapa. Segundo esse depoimento, a PM deu dois passos para trás e efetuou o disparo sem dar ordem verbal.

O inquérito analisou, entre outras provas, imagens das câmeras operacionais, laudos necroscópico, de levantamento do local, de disparo de arma de fogo e de lesão corporal da policial.

O relatório também apontou indícios de transgressão disciplinar contra o policial Weden Silva Soares por descumprimento do procedimento de abordagem de pessoa a pé. A investigação, no entanto, afirmou não haver indícios de crime militar ou comum contra ele.

Entenda o caso

A morte dela ocorreu durante uma confusão com policiais militares na madrugada de 3 de abril. Thawanna e o companheiro, Luciano Gonçalvez dos Santos, estavam caminhando quando uma viatura da PM em patrulhamento passou pela rua, e o braço de Luciano esbarrou no veículo. O policial que conduzia o veículo deu ré e questionou o casal sobre andar na rua.

Em 10 de abril, o Instituto Médico Legal (IML) emitiu o atestado de óbito, que aponta hemorragia interna aguda como causa da morte. Socorristas ouvidos pela TV Globo afirmam que a demora no resgate contribuiu diretamente para o agravamento do quadro, já que o ferimento não foi estancado nos primeiros minutos após o tiro.

À época, a família disse que o sentimento era de revolta.

"Policial despreparada, porque se a policial tivesse preparo, ela teria imobilizado a minha irmã, tinha contido, tinha algemado, tinha levado presa, entendeu? Mas a policial preferiu dar um um passo para trás e matar a minha irmã. A minha irmã não oferecia perigo nenhum. A única coisa que a minha irmã fez foi enfiar o dedo na cara da policial e dizer que ela estava errada. Só isso. O dedo de uma pessoa é uma arma? Ela ia matar a policial apontando o dedo? Eu acho que não", afirmou Daiana Martins, irmã de Thawanna.

E complementou: "A polícia matou uma pessoa incrível, tirou a chance de vida da minha irmã. A minha irmã tinha uma vida toda, tinha 31 anos. Ela tinha começado a viver. E os filhos dela? Quem vai suprir a necessidade dos filhos agora? Não há indenização futura que pague a dor dos filhos, da ausência da mãe".

Imagens e depoimentos

Mulher morta por PM: veja contradições entre depoimentos de agentes e imagens de câmera co

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As imagens da câmera corporal e os depoimentos dos policiais militares envolvidos na ação, que terminou com a morte de Thawanna, apresentam contradições.

A TV Globo analisou as imagens e os depoimentos e identificou divergências desde o início da abordagem até o momento do disparo.

Veja os principais pontos:

  • Esbarrão no retrovisor: Segundo os policiais, o marido de Thawanna se desequilibrou e bateu o braço no retrovisor da viatura. As imagens mostram apenas um esbarrão, sem indicar desequilíbrio.
  • Motivo da abordagem: No boletim de ocorrência, os PMs afirmam que retornaram para verificar se estava tudo bem com o homem. Já o vídeo mostra o soldado Weden dando ré e questionando o casal: “a rua é lugar para você estar andando, ca*****?”.
  • Início da discussão: Os policiais dizem que o homem passou a gritar e reclamar, dando início ao desentendimento. As imagens indicam que Thawanna tentou argumentar primeiro — e só depois a discussão começou.
  • Suposta agressão: De acordo com os PMs, Thawanna partiu para cima da policial Yasmin e deu um tapa no rosto dela. Nas imagens, é possível ver a policial se aproximando e discutindo com a vítima, mas não há confirmação visual da agressão.
  • Momento do disparo: A versão dos policiais aponta que foi necessário usar a força para conter a agressão e impedir que Thawanna pegasse a arma da PM. No vídeo, no entanto, só é possível ouvir o disparo.

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Thawanna e o marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, estavam caminhando de mãos dadas, quando uma viatura da PM passou pela Rua Edimundo Audran.

A situação escalou até que Yasmin atirou contra a mulher. Após cerca de 30 minutos, Thawanna foi socorrida ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos. A policial afirma que reagiu após ser atingida com um tapa no rosto (leia mais abaixo).

A ação foi registrada apenas pela câmera corporal de Weden, já que Yasmin não usava o equipamento. Questionada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não explicou o motivo.

🔎 Quando a PM pode abordar alguém? A Polícia Militar só pode abordar uma pessoa quando há fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos, como comportamento ou informações prévias. A ação deve seguir protocolos como identificação do agente, verbalização e uso proporcional da força, sendo o disparo de arma de fogo permitido apenas em situações de risco iminente à vida.

Sucessão de abusos

Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio é um “absurdo” e não segue nenhum protocolo da corporação.

Segundo ele, houve uma sequência de abusos que terminanam na morte de Thawanna, que, na avaliação dele, deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil.

"É abuso desde o começo. O linguajar que [o policial] usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma.

Os abusos continuaram mesmo após o disparo, segundo o pesquisador. Pelas imagens da câmera corporal, os agentes impediram que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão.

O tenente-coronel reforça que uma pessoa só pode ser abordada por um agente quando há fundada suspeita. Contudo, segundo ele, essas regras não são seguidas na prática, em especial nas regiões periféricas, que recebem tratamento diferente das áreas nobres da cidade.

Em muitas situações, como Thawanna que estava apenas andando de mãos dadas com o marido, a abordagem é motivada apenas pela cor ou pelo local onde a pessoa vive.

“As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. [...] Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado”, afirma.

Com 30 anos de experiência na área, o pesquisador diz nunca ter visto algo semelhante e compara o caso a episódios históricos de violência policial em São Paulo, o Massacre do Carandiru e os Crimes de Maio de 2026.

“Trabalhei no serviço ativo por 30 anos, tenho pesquisado violências de uma maneira mais consistente, desde 2009, nunca vi isso. Essa ocorrência para mim, do jeito como aconteceu, é pior do que Carandiru, do que Maio de 2006. Nessa ocorrência, o sistema mostrou exatamente como ele trabalha".

Yasmin entrega a outro PM arma que usou para atirar em mulher — Foto: Reprodução

Falhas na ação policial

Na avaliação de Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, o que aconteceu também não pode ser chamado de abordagem. Na avaliação dele, foi uma desinteligência, ou seja, uma briga entre policiais e o casal.

Ele aponta uma série de falhas na atuação dos agentes, que começam ainda na forma como o patrulhamento foi realizado. Uma delas é o fato de a viatura estar com os sinalizadores desligados, mesmo sendo uma polícia ostensiva.

Segundo o ex-ouvidor, isso pode ter contribuído para o início da ocorrência, já que o casal não teria sido alertado da aproximação do carro. Ele também questiona a forma como a viatura foi conduzida, já que o patrulhamento deve ser feito em velocidade que permita observar o entorno da rua para evitar situações de risco.

Para o especialista, o uso de força letal também não se justifica. Ele lembra que o disparo de arma de fogo só deve ocorrer em situações de risco iminente à vida, o que não aconteceu no caso da Thawanna.

Por fim, Cláudio Silva aponta falha no uso das câmeras corporais, já que a soldado Yasmin não portava o equipamento.

“Não justifica. Além de uma falha dela de não estar com equipamento, tem uma falha do comando dela. O comando dela deveria ter percebido a falta do equipamento. Se o batalhão dela tá usando câmera, o que a faz não usar? Porque onde a câmera chegou, chegou para todo batalhão e para todo efetivo daquele batalhão", explica.

O que mostram as imagens

Vídeo de câmera corporal mostra que mulher morta por PM na Zona Leste de SP não encostou em retrovisor nem iniciou briga — Foto: Reprodução

Em abril, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, por nota, "que todas as circunstâncias do caso são investigadas com prioridade pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas. Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais.

As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso. Cabe ressaltar que todas as provas, incluindo, além das imagens, os laudos periciais e depoimentos, estão sendo analisadas com rigor".

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