Opinião: Empresas precisam parar de tratar voluntariado como evento
Datas comemorativas cumprem um papel importante: chamam atenção da sociedade para causas de relevância e colocam temas fundamentais no centro da conversa. O problema começa quando o compromisso termina junto com o dia.
No voluntariado empresarial, essa reflexão é necessária. Campanhas de Natal, Dia do Voluntariado e mutirões organizados em torno de uma tragédia mobilizam milhares de colaboradores e produzem resultados legítimos, mas não substituem a construção de uma relação contínua com as comunidades.
O Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025 dimensiona essa diferença: entre as empresas participantes da pesquisa, foram registradas cerca de 34,5 mil ações pontuais, contra 1.250 iniciativas continuadas. São quase 28 ações pontuais para cada iniciativa contínua.
De fato, somos muito eficientes em nos mobilizar diante de uma emergência. Quando uma tragédia acontece, empresas e cidadãos respondem rapidamente. Mas os grandes desafios sociais brasileiros não começam quando viram notícia e nem desaparecem quando saem das manchetes.
Educação, redução das desigualdades, inclusão e desenvolvimento dos territórios exigem presença e compromisso duradouro.
Doações e ações pontuais não substituem políticas permanentes
Dito isso, o problema não está nas ações pontuais. Está em pensar que elas substituem uma política de voluntariado. E aí fica a pergunta: se as empresas já mobilizam tanta gente e tantos recursos, por que ainda é tão mais fácil organizar uma ação específica do que construir um projeto permanente?
Na minha avaliação, alguns fatores ajudam a explicar isso. Um deles é a pressão por resultados rápidos e facilmente demonstráveis. Outro é a visibilidade: mobilizações em torno de emergências costumam gerar repercussão imediata, enquanto iniciativas de longo prazo constroem resultados de forma menos evidente.
Há também o desafio da mensuração. É mais simples contabilizar a ajuda a 300 famílias atendidas após uma enchente do que dimensionar, no curto prazo, o impacto de um projeto educacional sobre 300 crianças.
Somam-se a isso questões como falta de governança, programas de voluntariado tratados como campanhas de RH, em vez de parte do propósito da organização, e dificuldades na construção de uma relação efetiva com as comunidades.
A relação com comunidades e a construção conjunta
A relação com as comunidades, aliás, é um ponto especialmente importante e, muitas vezes, desafiador. O impacto social exige vínculo, escuta e acompanhamento. É preciso fazer mais “com” e menos “por”, abandonando a ideia de que uma empresa sabe, de antemão, quais são as necessidades de um território.
A comunidade precisa participar da construção das soluções, e não apenas recebê-las prontas.
Essa construção conjunta amplia a capacidade de gerar impacto e aparece na percepção das próprias organizações: 95,1% dos respondentes do Censo acreditam que seus programas contribuem diretamente para o desenvolvimento das comunidades locais em que atuam.
Voluntariado integrado à estratégia corporativa
O caminho, portanto, é fazer com que o voluntariado deixe de ocupar um espaço isolado e passe a integrar a estratégia corporativa, conectado à cultura organizacional, ao ESG e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O Censo aponta isso como tendência e revela um movimento de valorização do engajamento contínuo. Para 92,7% dos respondentes, iniciativas sociais corporativas reforçam valores, propósito e identidade das empresas.
Assim, as datas podem ser excelentes pontos de partida, só não deveriam ser pontos de chegada. É quando o compromisso permanece que o voluntariado deixa de ser um evento e demonstra como uma empresa escolhe contribuir com a sociedade.
*Fábio Muller é diretor-executivo do CIEDS, Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável, responsável pela secretaria executiva do CBVE, o Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial. Fábio é Doutor em Ciências Políticas e Relações Internacionais no IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro).
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