Estreia de filme sobre Gonzaguinha resgata obra política e país pouco mudado
Quando criança, Susanna Lira achava exagerada a letra de "Grito de Alerta". Sua mãe, que criou sozinha três filhos de pais diferentes, recorria à gravação de Maria Bethânia nos períodos de separação amorosa.
"Ela quase furou o disco ‘Mel’ de tanto ouvir ‘Grito de Alerta’. Eu achava aquela música muito exagerada. ‘Gente, as pedras cortando, até quando?’, era tudo tão dramático", diz Lira.
Décadas mais tarde, aquela relação afetiva ajudaria a levar a diretora a "Gonzaguinha, da Maior Liberdade", documentário sobre Luiz Gonzaga Jr. que ganhou o Kikito de melhor longa-metragem documental no Festival de Gramado há algumas semanas e chega aos cinemas nesta quinta.
Lira não quis fazer uma biografia cronológica. O roteiro, de Rodrigo Alzuguir, privilegia a formação política do compositor e procura entender como sua trajetória se transformou nas canções que escreveu.
A diretora diz ter ficado especialmente impressionada ao descobrir que Gonzaguinha teve 52 obras censuradas. Para ela, a infância e a juventude ajudam a entender de onde veio essa produção.
Filho de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha foi criado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, por seus padrinhos, e passou também por um internato. "Ele era filho do rei do baião, mas estava à margem. Isso forjou muito ele", afirma.
Lira procurou reproduzir essa perspectiva filmando trabalhadores e pessoas que circulam pelo centro do Rio. "Eu queria falar muito mais sobre o que ele queria dizer do que sobre ele necessariamente. O filme não é uma biografia tradicional; ele é atravessado pelas composições."
A identificação da diretora com o personagem também é política. "Eu sempre falo que meu trabalho é minha militância. Acho que o Gonzaguinha tinha isso também. Ele escrevia aquilo que acreditava que podia mudar nas pessoas, no mundo, a consciência política que podia trazer."
Essa escolha, diz Lira, teve consequências concretas para a carreira do músico. Ela cita temporadas encurtadas por causa do repertório escolhido, apresentações em universidades e shows destinados a arrecadar dinheiro para presos políticos.
"Não é que ele tenha pago um preço porque foi injustiçado. É sobre decisões que você toma e que vão te restringindo. De alguma maneira, ele escolheu um caminho mais difícil, que é o de não querer agradar a todo mundo."
A pesquisa também fez Lira rever a fama de "cantor rancor", expressão que acompanhou Gonzaguinha principalmente nos anos 1970. Antes de fazer o filme, ela imaginava que o rótulo fosse apenas uma implicância da imprensa.
"Quando você mergulha na pesquisa, ele realmente era muito contundente. Às vezes dava umas respostas meio atravessadas, uns olhares não tão simpáticos. Não fazia questão de ser gentil com as pessoas de quem não gostava."
O próprio Gonzaguinha, segundo ela, tinha consciência desse temperamento e admitia que chegava a constranger músicos com quem trabalhava.
"Isso me causou um ‘caramba, esse tipo de artista não existe mais’. Hoje todo mundo é performance, simpatia, todo mundo quer agradar, está atrás do like. Ele não era esse cara."
Lira não enxerga uma ruptura entre esse compositor e aquele que depois se tornou conhecido também por canções românticas. A intensidade, diz, permanece.
Mesmo "Grito de Alerta", afirma, está longe de ser uma declaração amorosa delicada. "É quase ‘eu vou aí te arrancar daí porque quero você’. Tinha uma visceralidade que se comunicava com essa pessoa intensa que ele era."
Uma das principais interferências do documentário sobre o material histórico ocorre na recriação de duas entrevistas concedidas por Gonzaguinha a O Pasquim. Como não localizou os áudios e considerava os textos fundamentais para contar a história, Lira decidiu encená-los com o ator André Dale.
A diretora, que afirma normalmente ser avessa a dramatizações em documentários, optou por deixar explícito que se trata de uma representação. O filme chega a mostrá-la orientando o ator.
"Eu não queria enganar o público. André não tenta imitar o Gonzaguinha, tenta traduzir a expressão desse cara falando aquelas coisas."
Para Lira, talvez o aspecto mais incômodo do filme seja constatar que boa parte do país descrito por Gonzaguinha continua reconhecível 35 anos depois de sua morte.
Ela relaciona letras sobre violência, desigualdade e repressão com personagens que encontrou em seus próprios documentários sobre direitos humanos, como mães de jovens mortos pela polícia.
"É muito legal quando você fala que um artista é atual, mas, no caso do Gonzaguinha, é quase um peso para o Brasil continuar sendo esse país ainda tão desigual."
A diretora diz esperar que o lançamento, em um ano eleitoral, contribua para provocar uma discussão sobre consciência social e política. Não reivindica para o filme, porém, a capacidade de alterar sozinho esse cenário.
"Ele documentou o Brasil com as letras, com as canções. Eu gostaria que as pessoas vissem esse Brasil e percebessem em que lugar dele se posicionam. O filme não tem esse poder nem essa obrigação. A gente vai fazendo as coisas."
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