Maus-tratos na escola: A professora, os gritos, as agressões

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: maus-tratos na escola, a professora, os gritos e as agressões. É isto que imaginamos quando deixamos as nossas crianças na escola. A agitação infantil, o entusiasmo, o excesso de energia e um dia de aulas normal, onde nada de extraordinário acontece. Mas o que se faz quando o extraordinário passa a ser conversa de casa diariamente? Quando várias crianças da mesma sala chegam a casa e contam histórias parecidas durante dias, semanas, durante mais de dois anos. Histórias sobre uma professora que grita, que castiga, que bate nas crianças, que parte uma régua a agredir um menino autista. Tudo isto se terá passado numa escola de Sintra. Hoje eu vou conversar com a Mariana Furtado, a jornalista do Observador que investigou este caso. Vamos perceber o que a Mariana conseguiu apurar, o que a escola sabia e o que respondeu aos pais que se queixaram, e tentar perceber por que só agora, quando começaram a ser feitas perguntas, é que foi aberto um inquérito. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 24 de setembro. Olá, Mariana, bem-vinda.
Olá, Pedro.
É a primeira vez que estamos a fazer aqui uma história do dia juntos.
É a primeira vez.
Pronto, então bem-vinda aqui a esta nova era. Estou aqui a fazer uma conversa informal, mas a verdade é que este é um assunto pesado, este que nós vamos falar hoje. Como é que te chegou esta informação? Como é que vocês, quando vos chegou essa informação, olharam e perceberam: "Ok, está aqui uma história que nós devemos contar." Quais foram os teus primeiros passos? Como é que foi isto?
Chegam-nos à redação os primeiros dados, ainda muito pouco concretos, de uma situação que se estaria a passar numa escola em Sintra e que envolveria irregularidades com uma professora do primeiro ciclo, de uma turma do terceiro ano. E quando percebemos que a história envolvia aqui alegados maus-tratos por parte desta professora aos alunos da turma, incluindo tanto maus-tratos psicológicos como alguns relatos de maus-tratos físicos, percebemos que tínhamos de ir atrás do fio desta história. E o primeiro passo foi identificar a escola e, a partir daí, fazer o trabalho jornalístico natural de ir à procura dos visados, falar com pessoas, cruzar várias versões que nos chegaram. E também, entretanto, há aqui outra questão, que é o ano letivo que começou na semana passada e fomos estando atentos ao que se ia passando na escola e concretamente na turma com esta professora. E há, desde logo, relatos de algumas situações que acontecem no primeiro dia de aulas e na primeira semana.
Já este ano, agora por estes dias, nomeadamente uma história que tu contas no artigo que escreves. Isto é quase uma coisa vintage, vintage no mau sentido, que é uma reguada com violência tal que a própria régua se parte. Conta mais desta história.
Foi o terceiro dia de aulas, portanto, na primeira semana, terceiro dia, e várias crianças desta turma chegam a casa e contam esta mesma história. A professora tinha batido no braço do colega autista, que tem na turma, com uma régua. Isto acontece no arranque de um ano letivo que já tinha começado também com alguma tensão, logo no primeiro dia de aulas, numa reunião de pais com a professora. E nesta reunião também recebemos relatos de pais que estavam presentes e que contam que a professora avisou à partida que este ano teria de ser diferente e que, ao contrário dos anteriores, iria ter menos tolerância para alguns comportamentos dos alunos e chegou também a ameaçar que pediria uma baixa médica caso a incomodassem com vários tipos de assuntos e com os comportamentos destes alunos e que, nessa situação, os alunos ficariam sem qualquer acompanhamento letivo.
Portanto, isto foi na reunião de pais deste ano, sendo que esta professora já havia relatos de episódios. E eu estou aqui a frisar a palavra relatos porque, lendo o teu artigo, não há nada que comprove verdadeiramente, sem margem para dúvidas, aquilo que se passou. E voltando aqui a estes relatos. Esta professora já não era a primeira vez, nem é o primeiro ano, que há relatos de que qualquer coisa de pouco pedagógico se passava nas aulas.
Sim, os relatos vêm já desde o primeiro ano da professora com esta turma, no ano letivo de 2024 para 2025. E desde aí as crianças iam deixando escapar alguns relatos de coisas que aconteciam na sala de aula e iam deixando escapar estas situações junto dos pais. Queixavam-se também que a professora gritava muito, que até lhes causava dor de cabeça os gritos que a professora tinha em sala de aula e havia até alunos de outras salas, de outras turmas, que chegavam também a ouvir os gritos da professora. E depois contavam outras coisas, que ficavam sem intervalo por castigos, que não podiam ir à casa de banho também por castigos, que a professora lhes dizia coisas como: "Acordem pra vida" se alguém estivesse a chorar ou se não conseguisse terminar uma tarefa nas aulas. No fundo, todos eles, as crianças com quem falamos e os pais das crianças com quem falamos, nos contam que não queriam ir pra escola, que não gostavam da professora e que queriam outra professora.
Isto já tinha impacto na forma como os miúdos se apresentavam aos pais, ou seja, o tipo de comportamento das crianças perante a escola estava a mudar?
Sim, em alguns casos, mudanças significativas. De alguns alunos que estavam muito entusiasmados no início das aulas para começarem a escola, e é uma escola nova, seria a primeira experiência mais a sério numa escola, e que ao longo dos primeiros meses De aulas no primeiro ano, este entusiasmo inicial começa a mudar e começam alguns problemas, se bem que, também devo fazer essa ressalva, há alunos que não relatavam estas questões aos pais e que não demonstravam propriamente problemas com a professora, mas que depois confrontados pelos pais, relatavam o mesmo que outras crianças contavam por iniciativa própria.
Nós ouvimos aqui várias crianças, portanto, grande parte desta história é como se fosse uma espécie de puzzle que fosse montado porque os vários pais recebiam relatos parecidos das crianças relativamente aos episódios daquilo que se passaria na sala de aula. Um dos pontos em comum desses relatos tem a ver com uma criança com autismo. O que é que os colegas contavam sobre essa criança?
Os colegas deste aluno expressam-se de maneiras diferentes e com palavras diferentes, mas fazem essencialmente as mesmas descrições. Houve uma criança a contar que a professora lhe batia na cabeça com tanta força que a cabeça do aluno ia para trás e para a frente, faz esta descrição.
De imagem mesmo daquilo que acontecia.
E noutro episódio, também contado por mais do que um aluno, a professora partiu um apontador da sala enquanto batia no aluno autista. Além de contarem também que a professora gritava muito, particularmente com este aluno, e que por vezes ele, o aluno, a chegava também a morder de volta. E aliás, numa dessas situações, a professora foi mordida por este aluno e gritou pela ajuda das auxiliares e pedia que se chamasse a polícia. Mas também numa outra ocasião, com um aluno diferente, aqui é um relato de uma alegada violência física para com um aluno que não este aluno autista, e que durante um momento de meditação, que a professora costumava fazer em sala de aula, todas as crianças tinham de estar deitadas e de olhos fechados. E há um dos alunos que abre os olhos e a professora repara e terá levantado este aluno do chão com violência, puxando-o pelo colarinho. E os vários pais recebem este relato, não apenas do próprio, mas de outros colegas que assistiram.
Isto configura situações no mínimo preocupantes. Não estamos a dizer que aconteceram, porque, mais uma vez, estamos a falar aqui de uma série de relatos, grande parte deles coincidente, mas são relatos de pais que ouviram das crianças que frequentam a mesma sala de aulas, mas eu imagino que isto seja preocupante a vários níveis. Primeira coisa, falaste com a família da criança, nesse caso da criança autista.
Essa é uma questão sensível, porque estamos a falar do que nos pareceu e do que falámos também com outros pais que conhecem esta família. Parece-nos um contexto familiar mais vulnerável e falamos também de uma mãe que não esteve presente, não está presente em muitas das reuniões de pais que são tidas entre a professora e esta turma do terceiro ano. Não chegámos a esse contato direto com a família. Mas a informação que recolhemos junto de várias outras fontes, incluindo vários pais de colegas desta turma e de outras turmas, deu-nos uma total garantia de que a história e que pelo menos os relatos e as versões destes relatos eram sólidos e que eram coincidentes nos pontos fundamentais.
Então, pergunta seguinte: como é evidente, e tu começaste esta conversa a dizer que jornalisticamente fizeste aquilo que tinhas que fazer, nomeadamente contactar os visados, imagino que tenhas tentado contactar a professora, contactado a escola, quais foram as respostas que tu tiveste?
Tentámos contactar a própria professora, a coordenadora pedagógica, uma coordenadora que chegou a estar em reuniões com alguns destes pais que se mostravam preocupados com a situação, com as várias situações dos próprios filhos e que afetavam também os colegas. Uma coordenadora também que chegou a receber e-mails de várias mães preocupadas com a situação e expor estas situações. Ambas, portanto, a professora e a coordenadora pedagógica do agrupamento, nunca responderam aos nossos pedidos de contacto. Já o diretor do agrupamento respondeu, mas sem esclarecer a maior parte das nossas perguntas e diz-nos apenas três coisas. A primeira é que não tinha qualquer indício destas situações nos últimos anos, o que nós sabemos não ser verdade, porque tivemos acesso aos vários e-mails enviados por vários pais ao longo destes anos e inclusive para o e-mail da direção.
Portanto, era impossível eles não saberem de nada ou não leram os e-mails ou essa resposta precisa de esclarecimento adicionais.
Mas há também uma denúncia anônima que foi feita logo na primeira semana deste ano letivo e que é dada resposta a essa denúncia anônima e a resposta vem do próprio e-mail geral da direção e para o qual têm sido enviados durante estes anos estas outras denúncias. A segunda coisa que o diretor nos diz é que abriu um processo de averiguação interno para clarificar estes factos e, por fim, também que por causa desse processo não poderia responder a mais questões nossas. Mas há também um detalhe importante que é: o diretor nunca chega a negar que os factos tenham acontecido.
Não desmente que as coisas tenham acontecido.
E depois voltámos também a perguntar-lhe, na sequência da resposta que ele nos deu, se a professora seria afastada preventivamente durante o tempo deste processo de averiguação. Também se os pais seriam informados sobre este processo que corre com a professora dos seus filhos, mas não obtivemos mais resposta e sabemos que os pais não foram informados deste processo.
Muito bem. O Ministério da Educação já disse alguma coisa sobre isto? Imagino que tenhas contactado também.
Até ao momento que gravamos este episódio, final da tarde de quarta-feira, o Ministério da Educação ainda não respondeu às nossas perguntas e perguntámos se lhes chegou alguma denúncia, se tinham conhecimento de queixas anteriores relativamente a esta professora, se havia processos disciplinares noutras escolas. E até outros dados, como o rácio de auxiliares afetos a esta escola para acompanhar estes alunos com necessidades especiais na sala de aula. E como disse, não obtivemos resposta, mas junto do Ministério Público conseguimos confirmar que não há, até agora, qualquer inquérito a decorrer.
Ou seja, apesar destes relatos e apesar da gravidade da situação, apesar de isto já ser um comportamento alegadamente repetido, a verdade é que nenhum destes pais fez uma queixa crime.
Certo. Não, nenhum pai chegou a apresentar uma queixa crime junto do Ministério Público ou fazer queixa na polícia. Tentaram sempre resolver esta questão dentro da escola e com a escola. Em alguns casos, face à não resolução desta situação, os alunos saíram da escola. Os pais pediram a sua transferência.
Já aconteceu isso precisamente por este caso que estamos a falar e que tu escreveste no Observador. Mariana, obrigado.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei hoje com a Mariana Furtado, a jornalista do Observador, que investigou as denúncias feitas pelos pais desta escola de Sintra, onde poderá haver maus-tratos por parte de uma professora. O artigo da Mariana tem mais pormenores, incluindo a história de uma das crianças que começava a chorar só de pensar em ir às aulas. Foi acompanhada por uma pedopsiquiatra e acabou por mudar de escola. As queixas continuaram até à semana passada. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.