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Sunday, October 11, 2026

A discografia da Legião Urbana, do pior ao melhor

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Referência no rock brasileiro, banda liderada pelo vocalista Renato Russo lançou sete álbuns de estúdio em pouco mais de uma década

Pedro Hollanda (@phollanda21)

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Não é grande exagero imaginar que praticamente todo brasileiro já escutou pelo menos uma música da Legião Urbana. A banda formada por Renato Russo (vocais), Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria) foi um dos nomes mais importantes do rock no país durante a década de 1980, oferecendo contornos poéticos e musicais diferentes dos seus contemporâneos.

Enquanto outros artistas tiraram inspiração do punk e do new wave, a Legião incorporava elementos do indie rock britânico nascente, como Public Image Ltd. e The Smiths, além de influências folk e de literatura. O resultado inspirou um culto contínuo à obra da banda. Mesmo após a morte de Renato em outubro de 1996, o público brasileiro manteve a chama acesa.

A Rolling Stone Brasil preparou um ranking dos sete álbuns de estúdio lançados pela Legião Urbana durante sua carreira. Nenhum disco póstumo será incluído na lista, bem como a compilação Música para Acampamentos (1992).

Ranking: discografia Legião Urbana

7. As Quatro Estações (1989)

Quando o brasileiro médio reclama da onipresença da Legião em rodas de violão pelo país, é porque presenciou alguém “assassinar” uma música do grupo, muito possivelmente desse álbum, na sua frente. “Pais e Filhos” virou parte do tecido cultural nacional graças ao seu refrão emocionante que a esse ponto virou clichê, mas vale destacar a letra impressionista, que traz recortes desconexos de momentos cotidianos entre os arquétipos apontados. Enquanto isso, “Há Tempos” e “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto” são clássicos inegáveis do grupo.

Ainda assim, As Quatro Estações tem problemas. O exemplo mais claro disso é “Monte Castelo”, uma adaptação de um soneto de Luís de Camões cuja pretensão parece cada vez pior com o passar dos anos. Em “Eu Fui Um Lobisomem Juvenil”, o épico sobre não se conformar com as expectativas ou padrões da sociedade que provavelmente existia na imaginação dos integrantes é minado pelas limitações técnicas da banda.

A falha fundamental desse álbum é: ambição demais, execução de menos. O grupo vivia o auge do seu sucesso comercial e, inegavelmente, As Quatro Estações tem alguns dos maiores hits de sua carreira. Contudo, Renato e companhia queriam alçar voos maiores para os quais não estavam prontos — ou sequer tinham a capacidade de alçar. Os discos subsequentes apontaram aprendizado quanto a isso.

6. Legião Urbana (1985)

É cheio de hits? Com certeza. “Geração Coca-Cola”, “Será”, “Por Enquanto” e “Ainda É Cedo” ajudaram não apenas a consagrar a Legião Urbana, mas fazer o legado dela persistir décadas dali pra frente. O problema é que todos esses clássicos ganharam versões melhores em álbuns ao vivo, dada a pobreza da gravação original.

O produtor José Emílio Rondeau conhecia as referências da banda, mas a equipe da gravadora EMI não parecia ter o conhecimento técnico necessário para fazer o álbum soar o melhor possível em seu equipamento de última geração. O resultado é extremamente datado, a ponto de hoje em dia ter mais em comum com obras lo-fi que buscam emular memórias nebulosas da época.

5. A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996)

É muito complicado falar sobre A Tempestade ou O Livro dos Dias sem abordar sua concepção. Durante sua produção, Renato Russo estava morrendo de complicações causadas pela Aids e, embora isso fosse uma informação guardada a sete chaves, o falecimento iminente do cantor permeia todo o trabalho — tanto a obra em si quanto a percepção dela desde então.

A Tempestade ou O Livro dos Dias apresenta a verve lírica do frontman em canções como a abertura raivosa “Natália”, a crônica bem-humorada de “Leila” ou a parceria com Marisa Monte em “Soul Parsifal”. Há exemplos de artistas usando o cenário de morte iminente para criar uma despedida emocionante, mas a impressão é que Renato Russo não quis seguir por esse caminho. Embora o assunto seja recorrente nas músicas, não se trata de um disco sobre estar morrendo. Talvez seja sobre fazer arte enquanto há tempo. 

Entretanto, isso não impediu o público de julgar o álbum em comparação a outros cantos do cisne na história da música popular. Não é magnífico nesse aspecto porque não se propõe a cumprir essa função. É apenas um disco abaixo da média da Legião Urbana.

4. O Descobrimento do Brasil (1993)

Na virada para a década de 1990, a Legião Urbana estava no auge do seu sucesso e de suas ambições musicais. Renato e cia claramente se inspiraram no pop barroco feito pelo R.E.M. na mesma época em “Vinte e Nove”, com arranjo cheio de violões, bandolins e cordas. “Vamos Fazer Um Filme”, por sua vez, evoca a sonoridade do The Smiths, uma das principais influências da banda desde o começo, na sua roupagem mista de acústico e elétrico.

Só que não fica resumido a isso. “Perfeição” traz guitarras barulhentas misturadas com batidas eletrônicas, enquanto “Love in the Afternoon” tem cítaras, tablas e outros instrumentos indianos. Nas letras, Renato fazia um diário do Brasil pós-Collor, alternando entre otimismo cauteloso e desconfiança direcionada ao ufanismo.

O que impede O Descobrimento do Brasil de estar mais alto no ranking é uma questão de força do material. Os três álbuns acima deste no ranking são apenas exemplos melhores da personalidade musical e da força da Legião como banda.

3. Legião Urbana V (1991)

Muitas vezes descrito como o álbum prog da banda, Legião Urbana V, na verdade, apenas não tem o mesmo imediatismo dos lançamentos anteriores. Trata-se de um disco muito contemplativo, claramente inspirado pela música tradicional italiana, que Renato Russo viria a explorar em Equilíbrio Distante (1995). Isso sem abrir mão de mudanças bruscas, como na épica “Metal Contra as Nuvens”.

A vantagem sobre outras obras da banda do mesmo período reside na força das composições de modo geral. Além da já citada “Metal Contra as Nuvens”, vale apontar a qualidade de “Sereníssima” e “O Teatro dos Vampiros”, com seu lamento sobre perda da juventude em meio às demandas do capitalismo.

2. Que País É Este 1978/1987 (1987)

O álbum que carrega o maior épico da Legião Urbana – “Faroeste Caboclo” – conseguiu superar um curioso mal histórico. O sucesso do trabalho anterior, Dois (1986), fez a gravadora EMI querer capitalizar e lançar algo logo em seguida. O problema era: não tinha material novo.

Que País É Este 1978-1987 acabou construído a partir de sobras das sessões dos dois primeiros álbuns. Não somente isso. Várias das músicas incluídas, como “Química”, “Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você)” e até mesmo “Faroeste Caboclo”, já existiam há quase dez anos. Foram compostas quando Renato Russo fazia parte da banda punk Aborto Elétrico – também formada por futuros integrantes do Capital Inicial – ou do seu projeto solo subsequente, Trovador Solitário.

O diferencial desse disco para a estreia de 1985 é a clara melhora na qualidade da produção. Tudo aprendido antes foi aplicado para dar ao material a maior potência possível. Isso fica evidente na faixa-título “Que País É Este”, que lembra os momentos mais ferozes do The Clash e ainda traz elementos dos arranjos folk que a banda adotou com o tempo.

1. Dois (1986)

Falar sobre Dois é como tentar discutir a importância de “Aquarela do Brasil” ou “Garota de Ipanema”. Trata-se de um álbum tão inserido na cultura brasileira a ponto de ser parte do DNA nacional. E faz sentido. Corresponde à coleção mais forte de músicas da carreira da Legião Urbana.

Numa época em que seus contemporâneos ainda não haviam se desenvolvido emocionalmente como compositores, Renato Russo nadava de braçada. Seja na narrativa LGBTQ+ de “Daniel na Cova dos Leões”, o indie rock nervoso sobre envelhecimento “Tempo Perdido” ou até mesmo a anticolonialista (e quase impossível para os integrantes tocarem ao vivo) “Índios”, a Legião mostrava uma maturidade muito além de seus anos sem sacrificar imediatismo.

A obscuridade das referências fazia as pessoas irem procurar os significados, porque o elo criado pelas músicas as compelia. São poucos os álbuns capazes de tamanha façanha.

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Pedro Hollanda (@phollanda21)

Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como IgorMiranda.com.br, Scream & Yell e Rock'n'Beats.

TAGS: dado villa-lobos, legião urbana, marcelo bonfá, renato rocha, renato russo
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