Alemanha deve investir em usina de metanol verde no Espírito Santo, diz CEO da Atlanteo
São Paulo A Alemanha está em processo avançado de negociação para investir milhões de euros na primeira usina de metanol verde da Atlanteo, afirma Andreas Eisfelder, CEO da empresa germano-brasileira. A planta será construída a partir do ano que vem no Espírito Santo e deve começar a operação plena em 2030.
Eisfelder não informou o valor exato do aporte, mas diz que os ministérios alemães de Assuntos Econômicos e Energia e de Pesquisa, Tecnologia e Espaço já comunicaram a aprovação preliminar dos recursos.
O metanol é um combustível líquido na temperatura ambiente, produzido tradicionalmente a partir de gás natural ou carvão. A versão verde, feita com fontes sustentáveis, é uma aposta para a transição energética de setores que não poderão ser eletrificados.
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"É uma molécula muito versátil, que vai ser utilizada na descarbonização do transporte marítimo, da aviação, como matéria-prima para o combustível sustentável, e do setor químico", diz Eisfelder, que trabalhou na Siemens Energy por mais de duas décadas e se mudou da Alemanha para o Brasil em 2020.
Ele fundou a Atlanteo em 2023, com foco em atender à demanda da União Europeia por energia limpa. A empresa pretende iniciar as exportações de metanol verde em 2030, ano a partir do qual o bloco exigirá que ao menos 6% do combustível de aviação usado em aeroportos europeus seja sustentável.
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Antes de entrar nos tanques dos aviões, o metanol terá de passar por mais uma etapa de processamento, e uma empresa desenvolve essa tecnologia no porto de Roterdã, o principal da Europa. Navios preparados para receber o composto poderão ser abastecidos diretamente.
"O metanol verde é um produto altamente refinado, extremamente denso em capital e tecnologia", diz Eisfelder.
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Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesA companhia produzirá o combustível com CO2 (dióxido de carbono) biogênico, extraído de resíduos agrícolas coletados localmente. A técnica não envolve queima, e os resíduos serão processados em biodigestores.
De quatro a cinco pequenas centrais hidrelétricas a fio d’água (sem reservatório) serão construídas para fornecer energia limpa a eletrolisadores, máquinas que quebram a molécula da água, para fabricar hidrogênio verde (H2). Na sequência, o hidrogênio reagirá com o CO2 por meio de síntese química, gerando o metanol.
Eisfelder diz que o projeto não envolverá o transporte do hidrogênio verde, um dos maiores desafios do setor: no mesmo momento em que a molécula de H2 for gerada, será usada no reator.
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Por ser líquido, o metanol verde também terá armazenamento mais fácil que o hidrogênio, afirma.
A usina piloto, chamada Alba, terá potência de 20 MW e capacidade de produção anual de 10 mil toneladas de combustível, segundo o CEO. Ele diz que o volume é "uma gota no oceano", mas simboliza os passos iniciais de uma indústria.
A demanda europeia tem potencial para movimentar um mercado de mais de € 120 bilhões (R$ 716 bilhões) até 2040, afirma.
"A pergunta é: qual fatia o Brasil vai pegar? Eu espero que o Brasil tenha pelo menos 10% do mercado europeu de combustíveis sustentáveis, mas é uma ambição. Se o Brasil fizer as coisas certas, pode ser até mais."
Ele diz que a competitividade da energia renovável e do agronegócio brasileiros motivaram a instalação no país, enquanto a escolha pelo Espírito Santo se deve à construção do porto de Aracruz e a uma proximidade com o banco de desenvolvimento estadual. A ideia é que o modelo seja replicável em qualquer local com fontes limpas e biomassa.
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"Estamos falando de independência tecnológica e geopolítica, com a geração descentralizada de energia, que fortalece as democracias e deixa uma participação mais justa na cadeia de valor. O propósito da Atlanteo não é virar a próxima Shell do planeta", afirma o CEO.
A companhia recebeu investimentos do empresário Antoine Maleh e tem parceria com o Instituto Fraunhofer, da Alemanha. O nome Atlanteo, diz Eisfelder, se refere ao oceano Atlântico e simboliza a colaboração entre sul-americanos e europeus, inclusive no acordo entre o Mercosul e a União Europeia.
"O Mercosul tem muito debate sobre carne, soja e produtos agrícolas, mas acredito que o que vai adicionar muito em volume de comércio será energia. O Brasil tem mais uma oportunidade de entrar nas novas cadeias de energia que o continente europeu está disposto a pagar", afirma.
Embora o processo de licenciamento ambiental da primeira usina ainda não esteja finalizado, Eisfelder diz que não há previsão de secas impactarem a geração hidrelétrica no local e que a empresa planeja instalar painéis solares, para atuar de forma complementar.
Ele relata que gestoras que poderão receber recursos do EcoInvest Brasil, programa do governo federal cujo quinto leilão será voltado a projetos sustentáveis e inovadores, procuraram a Atlanteo em busca de parcerias.
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"Nossa solução é uma ótima candidata para absorver grandes quantidades de energias renováveis onde hoje tem curtailment", afirma o CEO, citando o corte forçado na geração de energia por conta do excesso de fontes limpas, principalmente painéis solares.
"Ao mesmo tempo, é quase como uma bateria, porque dá para reduzir o consumo elétrico quando a sociedade tem outras demandas mais urgentes", acrescenta. A lógica é de que a usina de metanol verde poderia se adaptar rapidamente às oscilações na carga, com reação em milissegundos.
O CEO afirma que a tendência atual é de digitalização, descarbonização e descentralização de sistemas energéticos, em contraste com os complexos de petróleo e gás.
"Essas tendências entram no mundo das moléculas e viabilizam a produção digital, desfossilizada e descentralizada de combustíveis líquidos quimicamente idênticos à gasolina, ao diesel, e ao querosene, mas feitos por energias renováveis e biomassa."
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