Trump não consegue dominar a linguagem da política brasileira
"O governo Trump 2.0 está melhor do que Trump 1.0, certo? Pois bem, Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."
Foi o que declarou Flávio Bolsonaro neste ano. Filho do polêmico ex-presidente Jair Bolsonaro e um dos principais concorrentes na eleição presidencial brasileira de outubro, Flávio vem tentando unir os dois países em torno de um projeto político comum.
E o presidente Donald Trump tem atendido a esse desejo com o maior prazer. Desde que voltou ao cargo, o republicano tem demonstrado interesse pela política brasileira. Em junho, compartilhou na Truth Social um artigo que descrevia a próxima disputa presidencial do país como o "próximo grande teste" do projeto trumpista de "tornar as Américas grandes novamente".
No entanto, a eleição será decidida por uma questão muito brasileira: quem fala em nome da nação? Os dois lados da disputa competem ferozmente para oferecer uma resposta.
Bolsonaro insiste que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um veterano estadista progressista, rendeu-se diante do crime organizado e de uma esquerda internacional corrupta; Lula, por sua vez, classifica o grupo bolsonarista como um bando de bajuladores servis de Washington, dispostos a ceder tudo em troca do apoio americano.
Lá Fora
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A acusação, de ambos os lados, é que o adversário está entregando a nação aos interesses estrangeiros, e que somente um deles é digno de confiança.
Esse embate tipicamente brasileiro define a vida pública do país há mais de um século. Em vez de reescrever os termos da política brasileira, Trump apenas forneceu à esquerda e à direita novas munições para uma antiga disputa ideológica. O presidente americano pode dizer que está moldando a América Latina à sua imagem. Mas, no Brasil, ele está atrasado em relação aos acontecimentos.
Há muito o Brasil é assombrado pela distância entre o seu potencial e a sua capacidade de entrega. Possui o quinto maior território do planeta, vastos recursos naturais e uma população de mais de 200 milhões de habitantes.
Durante a maior parte do século 20, sua economia cresceu mais rapidamente do que a de praticamente qualquer outro país. E, no entanto, a maior nação da América Latina nunca chegou a se tornar aquilo que seus entusiastas sempre afirmaram que ela seria: uma potência global de prosperidade compartilhada.
Essa distância persistente entre promessa e realidade foi o que transformou o nacionalismo na linguagem dominante da política brasileira. Quem conseguisse explicar por que o Brasil não havia correspondido às expectativas —e o que fazer a respeito— detinha a chave do sucesso político.
A partir da década de 1920, duas grandes visões passaram a disputar essa chave. A versão progressista sustentava que a incapacidade do Brasil de concretizar seu potencial estava enraizada na desigualdade e na apropriação do Estado por elites que se beneficiavam da exploração estrangeira. Uma ampla agenda reformista tornou-se condição prévia para o desenvolvimento nacional.
Sob o presidente João Goulart, no início da década de 1960, essa visão assumiu a forma das "reformas de base", um conjunto de políticas que incluía reforma agrária, direito ao voto para brasileiros analfabetos, limites à remessa de lucros por empresas estrangeiras e maior controle estatal sobre os recursos naturais.
Tendo a Guerra Fria como pano de fundo, a linguagem da autodeterminação nacional tornou-se um idioma comum da política democrática brasileira.
Um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos, em 1964, pôs fim a isso. Em seu lugar, os generais que tomaram o poder fundiram propaganda patriótica e autoritarismo com violência.
Ao defender a ditadura militar, Roberto Campos, o intelectual ministro do Planejamento do regime, atacou o que chamava de "nacionalismo temperamental" —que descartava como emotivo e economicamente desastroso— e insistiu que a disciplina de mercado e o alinhamento com Washington constituíam o verdadeiro interesse nacional.
O patriotismo da ditadura, que atingiu o auge em 1970, quando o Brasil conquistou sua terceira Copa do Mundo de futebol, esperava que os cidadãos sentissem orgulho do país sem levantar questões incômodas sobre a quem ele servia. Os que o faziam eram retratados como obstáculos ao desenvolvimento da nação ou submetidos a destinos muito piores.
A ditadura terminou em 1985, mas a batalha para assumir o manto do nacionalismo prosseguiu. Quando Jair Bolsonaro (PL) prometeu, durante a campanha de 2018, que "os marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria" e afirmou que "nós somos o Brasil de verdade", prontos para "construir uma nova nação", ele não estava tanto copiando a cartilha de Trump quanto recorrendo à própria herança política de seu país.
Conservadores haviam feito proclamações semelhantes ao longo da Guerra Fria, quando denunciavam nacionalistas progressistas como "subversivos perigosos". Bolsonaro atualizou o conteúdo, mas a forma era a mesma: reivindicar para si a representação da nação, deslegitimar a esquerda como antibrasileira e insistir que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.
Seu filho vem tentando repetir a mesma manobra. Flávio fez da segurança um dos principais eixos de ataque a Lula, argumentando que o presidente e seu partido são passivos com o crime organizado.
Recorrendo a Washington, Flávio Bolsonaro ajudou, em maio, a conseguir que os Estados Unidos classificassem as duas maiores organizações criminosas do Brasil, PCC e Comando Vermelho, como grupos terroristas. Mas essa abordagem tem um custo político.
Quando Trump impôs novas tarifas aos produtos brasileiros no mês passado, Lula conseguiu se apresentar de forma convincente como defensor da soberania brasileira contra a ingerência estrangeira. O mesmo ocorreu no ano passado, quando Trump iniciou uma guerra comercial contra o Brasil a pedido da família Bolsonaro.
Esse é o dilema que a direita brasileira sempre enfrentou quando se alinha de forma excessivamente explícita a Washington: a esquerda transforma esse alinhamento em prova de que não se pode confiar à direita a defesa do interesse nacional.
Foi o que aconteceu na década de 1950, quando os conservadores foram estigmatizados como fantoches do imperialismo americano. Aconteceu durante a ditadura, quando o modelo de desenvolvimento do regime foi atacado por enriquecer multinacionais estrangeiras às custas do Brasil.
E está acontecendo agora, enquanto a avidez de Flávio por mobilizar a ajuda de Washington é criticada por colocar os interesses de outro país em primeiro lugar.
Nada disso significa que as intervenções de Trump sejam irrelevantes. Em uma disputa tão acirrada, a pressão de Washington poderia inclinar a balança do resultado, como ocorreu em outros lugares da América Latina durante o Trump 2.0. Mas as forças que impulsionam a eleição são muito mais profundas do que qualquer coisa publicada no Truth Social.
A economia brasileira, embora resiliente, continua frustrando expectativas, com juros altos e preocupações persistentes em relação à dívida pública. A segurança pública é outra fonte de ansiedade; a criminalidade é uma das principais preocupações dos eleitores.
E a população, embora ainda polarizada, dá sinais de cansaço. Pesquisas recentes mostram que 20% dos eleitores não se identificam nem com Lula nem com seu principal adversário.
As viagens frequentes de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos têm claramente o objetivo de projetar influência no Brasil, reforçando a imagem de um futuro presidente que impõe respeito à superpotência do hemisfério.
Mas cada oportunidade de posar para uma foto com o movimento Maga fornece mais munição para o argumento central de Lula: o de que o grupo bolsonarista trocou a dignidade e a democracia do Brasil pela aprovação dos Estados Unidos. Quem quer que vença em outubro, a velha pergunta permanecerá: quem realmente fala em nome do Brasil —e quem o vendeu?
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