Análise: crise no STF turbina discurso da direita, mas não deve definir eleições ao Senado
A crise inédita que eclodiu no Supremo Tribunal Federal (STF) tem implicações que vão além do âmbito jurídico ou da eleição presidencial. Nos estados, ela entrou na disputa pelas 54 vagas do Senado em jogo neste ano pelo debate sobre uma reforma do Judiciário e pela pressão para que candidatos se posicionem sobre o impeachment de ministros. Não por acaso, pois o Senado pode julgar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade.
A pauta, porém, está longe de produzir um efeito eleitoral uniforme e pode não ser determinante nas campanhas. De acordo com pesquisa Datafolha divulgada em 18 de setembro, 34% dos eleitores dizem que teriam mais chance de votar em um candidato ao Senado que defenda o impeachment de ministros do STF, mas outros 31% afirmam que isso reduziria a chance de voto e 30% afirmam que a posição de candidatos a favor do impedimento de ministros não faria diferença. Dois em cada três eleitores, portanto, são indiferentes ou contrários a essa pauta. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, quase a metade (49%) diz que a defesa do impeachment aumenta a chance de voto, em linha com o discurso bolsonarista antissistema.
O confronto do bolsonarismo com o STF antecede a crise atual e nada tem a ver com questões ligadas a suspeitas de corrupção e tráfico de influência contra os ministros. Afinal, antes de surgirem as dúvidas sobre a extensão da relação de Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, aliados de Jair Bolsonaro já pediam o impeachment do ministro e faziam da composição do Senado uma prioridade.
O eixo do discurso nunca foi um eventual caso de corrupção de Moraes, mas sim sua atuação em investigações e processos envolvendo Bolsonaro e aliados, inclusive a ação penal na qual o ex-presidente foi condenado, em 2025, por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Pedidos de impeachment contra Moraes apoiados pela oposição já foram apresentados -e engavetados- no Senado desde 2021.
A parcela do eleitorado mais identificada com o bolsonarismo já chegaria a 2026 inclinada a votar em candidatos que prometessem confrontar Moraes, apoiar seu impeachment ou defender o afastamento de ministros indicados por governos petistas.
Zeitgeist anti-STF
A novidade está no possível efeito sobre quem não se identifica de maneira estável nem com o petismo nem com o bolsonarismo. É aí que entra o zeitgeist — expressão alemã que significa “espírito do tempo”, o clima predominante de percepções e sensibilidades de determinado período.
As revelações envolvendo o Supremo, a troca pública de acusações entre ministros e o debate sobre conflitos de interesse ampliaram a desconfiança em relação à Corte. Para um eleitor independente, que decide seu voto por critérios morais, de integridade ou de funcionamento das instituições, esse ambiente pode transformar o STF em um elemento de decisão que antes não existia com a mesma intensidade. Isso não significa que ele se sobreponha automaticamente aos demais.
Marcelo Pimentel, cientista político e vice-presidente da Associação Brasileira dos Pesquisadores Eleitorais, chama a atenção para essa diferença. Para ele,“o impeachment de ministros do STF entra na pauta de candidatos do bolsonarismo, claro, mas não é necessariamente determinante para o voto”.
Política local importa
A própria natureza da eleição ao Senado reduz a possibilidade de um único tema nacional capturar toda a disputa. Em 2026, cada eleitor dispõe de dois votos. Isso aumenta o peso da composição das chapas, da capacidade de um candidato tornar-se a segunda escolha e, principalmente, dos arranjos estaduais. “Eleição de dois votos é bem diferente, conta ter um companheiro de chapa para fazer dobradinha e o apoio estadual do governador, especialmente se bem avaliado, bem como de prefeito”, diz Pimentel.
Em outras palavras, a configuração política local é crucial para as eleições ao Senado. São Paulo oferece um exemplo. Ricardo Salles (Novo), ex-ministro de Bolsonaro e um dos candidatos com discurso mais frontal contra Moraes e o STF, aparecia com 5% no Datafolha divulgado em 11 de setembro. Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) tinham 13% cada, André do Prado (PL), 11%, e Guilherme Derrite (PP), 10%. O quadro não torna a pauta anti-STF irrelevante, visto que tanto Derrite quanto Prado têm discurso crítico a Moraes e Simone Tebet também cobrou explicações do ministro do STF. O exemplo mostra, porém, que isoladamente o zeitgeist anti-Moraes não foi suficiente para levar Salles a favorito na eleição.
Em Santa Catarina, onde a direita bolsonarista tem tido desempenho eleitoral mais forte nas últimas duas eleições, o tema encontra terreno mais favorável. Lá, a pesquisa Real Time Big Data divulgada em 17 de setembro mostra uma disputa apertada: Carol de Toni (PL) tem 24%, enquanto Carlos Bolsonaro (PL) e Esperidião Amin (PP) aparecem com 20% cada, tecnicamente empatados. Os três são críticos do Supremo.
Mesmo ali, porém, a adesão ao discurso anti-STF não distingue por si só quem ocupará as duas vagas, dado que o senador e ex-governador Amin segue como competitivo ao explorar em sua campanha, além de promessas pró-impeachment do STF, o fato de ser catarinense e conhecer o estado.
Outro estado que reforça o peso das raízes e alianças locais é Roraima. Hélio Lopes (PL), deputado eleito pelo Rio de Janeiro que transferiu o domicílio eleitoral para o estado e recebeu apoio de Bolsonaro, aparece com 9% na pesquisa Real Time Big Data divulgada em 10 de setembro. Teresa Surita (MDB), ex-prefeita de Boa Vista, lidera com 25%, seguida por Nicoletti (PL), com 17%, pelo senador Chico Rodrigues (PSB), com 16%, e Helena da Asatur (PSD), com 15%.
Em Pernambuco, estado em que a esquerda tem historicamente mais votos que o bolsonarismo, o candidato Mendonça Filho (PL) tem feito em sua campanha menos o ataque ao STF e mais o que chama de “defesa da família”. O senador Humberto Costa, do PT, que disputa a reeleição, por sua vez, incorporou ao seu discurso a defesa de investigações sobre Moraes. Ambos aparecem empatados em segundo lugar na pesquisa Real Time Big Data divulgada em 16 de setembro, com 21% e 20%, respectivamente. Marília Arraes (PDT) aparece em primeiro lugar, com 27% das intenções de voto.
"Lógico que o ministro Alexandre de Moraes tem um mérito pela condução que ele deu à tentativa de golpe de Estado contra o governo Lula, mas por outro lado ele não está imune a ser julgado. Tendo havido comprovadamente irregularidades, uma relação promíscua com empresários, e até mesmo algum tipo de beneficiamento, temos que ser duros e, se for o caso, fazer um processo de impeachment", afirmou Costa durante uma sabatina ao sr questionado sobre as suspeitas que pairam sobre o ministro.
A crise do STF tem sido um vetor de mobilização nas candidaturas, mas as 27 eleições para o Senado continuam sendo, em grande medida, 27 disputas estaduais. Apoio de governadores, prefeitos e deputados, redes políticas locais, promessas de recursos para saúde e educação e emendas já enviadas seguem tendo papel relevante.
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