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Thursday, October 15, 2026

Hitler no Peru

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Hitler Mussolini venceu as eleições para a câmara de Queropalca, região centro do Peru – e derrotando a extrema-direita.

Sim, comece por aproveitar a oportunidade para rever os seus sentimentos em relação à progenitura, caso o tenha abençoado, como a do cronista, com um par de nomes próprios em vez de um só. Reconsidere o julgamento sobre um Bruno Manuel, um Ricardo Jorge, um Paulo Alexandre – mesmo uma Carla Patrícia poderá não estar assim tão mal, afinal.

A história conta-se em poucas linhas. Hitler Mussolini Simeón Flores, 45 anos, ensino secundário completo, gerente de uma empresa ligada ao aluguer de maquinaria, transporte de mercadorias e construção de estradas, venceu no início do mês as eleições para a liderança da sua terra-natal, um pequeno município rural na província de Lauricocha, departamento de Huánuco. Foi uma luta renhida, que terminou com a vitória do partido de centro-esquerda Ahora Nación por mais 25 votos do que o Renovación Popular, de Gaspar Osorio. “Musso”, como preferiu ser tratado durante a campanha (enfim, o b.i. não lhe deixava nenhuma boa hipótese), ganhou prometendo melhorar as estradas – área da sua especialidade –, expandir os sistemas de regadio, construir um novo estádio municipal e promover o turismo (esta parte está feita, só com o nome de baptismo). A tomada de posse acontecerá a 1 de Janeiro.

São desconhecidas as convicções políticas dos pais do novo autarca de Queropalca, nascido 36 anos depois das mortes do líder do partido nazi alemão e do do fascismo italiano, não por acaso ocorridas com apenas dois dias de separação. Por outro, sabe-se que não faltam Hitlers no Peru, não tanto por duvidosas simpatias políticas, asseguram os peruanos, mas simples referência a nomes reconhecidos da cultura popular, adoptados frequentemente na ignorância das biografias de quem os celebrizou. Mas caramba: acertar logo em dois dos mais violentos ditadores do século XX é bingo.

O caso, de resto, não é tão bom como aquele de 2018, quando, no mesmíssimo Peru, um candidato chamado Hitler Guesclin Alba Sánchez e outro chamado Lenin Vladimir Rodríguez Valverde disputaram as eleições para a câmara de Yúngar, na região andina de Áncash, a 300 tortuosos quilómetros de Queropalca (na altura, o primeiro venceu a contenda histórica apresentando-se como “o Hitler bom” e slogans de gosto discutível como “Hitler regressa” ou “Hitler com o povo”). Mas serve para nos fazer pensar no valor corrente de nomes e categorias políticas.

A muitos quilómetros dos Andes e na margem de outro oceano, discutimos hoje os equilíbrios possíveis num novo problema de três corpos: PS, PSD e Chega, respectivamente definidos como centro-esquerda, centro-direita e direita radical. Se o partido do centro-direita está mais perto de um ou de outro ou se é equidistante; e, portanto, se o futuro da governabilidade depende do entendimento para a formação de um bloco central, que deixe de fora os extremos, ou da divisão entre dois blocos: um entre as forças de esquerda e outro entre as de direita.

De diferentes formas e em diferentes pontos de evolução da experiência, as mesmas questões se vão colocando hoje por toda a Europa. Mas, tal como o Hitler Mussolini de um pequeno município andino com pouco mais de 600 eleitores não será exactamente a mistura política das figuras que o seu nome imediatamente traz à memória, talvez a “direita” com que temos baptizado os novos partidos políticos não seja a mesma que conhecemos da História. Chega, Vox, AfD, Rassemblement National, são os primeiros a definir-se como à direita do sistema e não a direita do sistema, ou a prova de como um pequeno acento grave pode fazer toda a diferença. Não são “a direita” nem “a esquerda”; estão fora do binómio. Podem até ser a esquerda de outra coisa, outro sistema que ainda esteja só a começar a desenhar-se. Como um dia liberais foram todos os que quiseram derrubar o absolutismo e republicanos os que se opuseram à monarquia. As diferenças só as perceberíamos depois.

Até há 10, 15 anos, quando comprávamos um electrodoméstico, ele vinha inevitavelmente acompanhado de um manual de instruções cada vez maior. A mais pequena torradeira chegava acoplada com um livro, ou vários, com centenas de páginas, em letra miúda. Até que, um dia, a Apple implodiu o manual de instruções – e nada, nunca mais, se atreveu a aparecer com um. Em 2026, se um produto, qualquer que seja, for menos do que “intuitivo” na aprendizagem da sua utilização, é imediatamente posto de lado e condenado ao fracasso. A política, hoje, também tem de ser assim. A realidade ou é entendida “intuitivamente” ou atira-se fora aquele partido e pega-se noutro. Lamentável, mas real. Ninguém já quer políticos que tentem explicar o que fazer para combater a inflação, o aumento dos impostos, o preço da habitação, a crise dos combustíveis, a degradação dos serviços públicos ou, em geral, concretizar todos os sonhos de todas as gerações; querem um que resolva. Que funcione. Que descomplique.

Hitler Mussolini Simeón Flores militava, ainda até ao ano passado, no Fuerza Popular, partido de direita liderado pela nova Presidente do Peru, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, que comandou os destinos do país durante a derradeira década do século XX. À frente de um partido de esquerda com nome aparentemente de direita, Ahora Nación, bateu um partido de extrema-direita com nome aparentemente de extrema-esquerda, Renovación Popular. As palavras já não querem dizer o que já quiseram dizer. Os objectos nelas reflectidos poderão estar mais perto ou mais longe do que parecem. E andarmos aqui, confundidos pelos nomes, a tentar arranjar maneira de fazer o sistema funcionar com qualquer coisa que só deseja parti-lo.

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