Uma das maiores gravadoras do mundo aposta no Brasil — e começa pelo rap
A Interscope passou quase dois anos estudando o mercado brasileiro antes de definir os primeiros parceiros de sua expansão no país. Nesta sexta-feira, 6, a gravadora de nomes como Kendrick Lamar e Eminem anuncia a contratação do rapper BK e um acordo de distribuição e desenvolvimento de novos artistas com a Supernova Entertainment.
A aposta ocorre em um mercado de música gravada que faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, segundo a Pró-Música Brasil. O crescimento de 14,1% superou em mais de duas vezes a média mundial, de 6,4%, e levou o Brasil à oitava posição entre os maiores mercados, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI).
Em entrevista exclusiva à EXAME, José Cedeño, vice-presidente executivo e gerente-geral da Interscope Capitol Miami, conta que a operação latino-americana começou há sete anos, com foco no repertório em espanhol. O Brasil ficou para uma etapa posterior.
“O Brasil é um país super grande, complexo, super interessante, mas era muito para começar uma operação”, afirma.
A relação do executivo com o país antecede sua carreira na música. Cedeño morou no Brasil entre 2009 e 2011, período em que conheceu mais de perto a cultura e a diversidade brasileiras.
“Quando você já abriu os olhos para o Brasil, é difícil fechar os olhos.”
Essa experiência pessoal se soma ao interesse comercial pelo volume de consumo do país. Mas Cedeño faz uma ressalva sobre o papel que pretende desempenhar nesse mercado.
“O importante não é que a gente está descobrindo o Brasil ou que a gente vai mudar alguma coisa para o Brasil. O Brasil já está cheio de cultura, já está cheio de música fantástica.”
Investimento sem orçamento fechado
A Interscope não divulgou os valores dos acordos com BK e Supernova nem definiu um orçamento fechado para o Brasil. Segundo Cedeño, os recursos acompanharão as oportunidades de negócio e o alinhamento com os artistas.
“A gente vai achar o dinheiro. Essa parte não me preocupa”, afirma. “Não estamos tentando assinar 500 artistas, mas sim achar os artistas certos.”
A companhia também monta uma equipe própria no país, com parte dos profissionais já em atividade. As próximas contratações dependerão das necessidades dos projetos.
"O foco é contribuir e fazer as coisas bem feitas para os artistas e para os parceiros", diz
Os contratados terão acesso a profissionais de desenvolvimento artístico, marketing e marketing digital, além de equipes em mercados como Estados Unidos, América Latina e Espanha.
“A gente tem o time, a força, a experiência... só depende do que o artista quer.”
Por que começar com BK e Supernova
A escolha do rap e do trap aproxima a expansão brasileira da trajetória da Interscope no hip-hop. A companhia construiu relações com artistas como Dr. Dre, Eminem e Kendrick Lamar, além de parcerias com selos e empreendedores do gênero.
Para Cedeño, há uma conexão entre essa história e a produção brasileira. BK chamou a atenção pela identidade artística, pelo público e pela estrutura profissional que já desenvolveu. O executivo assistiu a um show do rapper em São Paulo.
“O que ele está fazendo hoje com os shows que ele consegue vender dentro do Brasil é impressionante”, afirma. “Ele sabe o que ele faz, já tem audiência.”
O primeiro lançamento da parceria será um álbum de remixes pelos dez anos de Castelos & Ruínas, estreia de BK. O projeto terá novas versões das faixas, com outras produções e colaborações.

Interscope: José Cedeño e BK celebram contrato que marca nova etapa na carreira do rapper. (Divulgação/Pepe Rodrigues/Interscope)
“Eu estou muito orgulhoso de conseguir que ele mesmo e que o time dele acreditem no que a Interscope pode fazer para ele, para a carreira dele, especialmente nesse momento onde ele está”, diz Cedeño.
Com a Supernova, o acordo inclui distribuição exclusiva do catálogo e uma parceria para contratar novos artistas. O executivo vê na equipe do selo o perfil empreendedor que a Interscope busca para desenvolver negócios.
“Eles são independentes, e escolheram trabalhar com a gente em várias áreas.”
A colaboração já começou antes do anúncio. As empresas celebram o lançamento de Essência de Risco, de Niink, no início de outubro, e preveem uma nova mixtape ainda em 2026. Gustavo Pimentel e Nagalli também estiveram em Los Angeles para conhecer a equipe da Interscope e discutir projetos.
'A música é brasileira e é assim que tem que ficar'
O movimento acompanha o avanço econômico do repertório brasileiro nas plataformas. Segundo o Spotify, artistas do país geraram aproximadamente R$ 2 bilhões em royalties em 2025, alta de 24% sobre o ano anterior. Os valores são destinados aos detentores de direitos, responsáveis pelos repasses conforme os contratos.
Na plataforma, os royalties da música em português cresceram 26%, o maior avanço entre os idiomas que geraram mais de US$ 100 milhões no ano. O dado inclui consumo doméstico e internacional e não mede, isoladamente, a exportação do repertório.
Para os artistas interessados em conquistar outros países, o idioma é uma das questões que atravessam a estratégia. Cedeño recorre à experiência com a música em espanhol, mas reconhece que a expansão não acontece de imediato.
“A música é brasileira e é assim que tem que ficar. E se alguém quer ser parte dessa música, então eles vão ter que se adaptar”, afirma.
A proposta não exige que os artistas cantem em inglês ou espanhol. A decisão de experimentar outro idioma deve partir deles.
“Talvez um americano vá querer cantar em inglês, mas o artista em português vai continuar cantando em português”, diz. “Ou talvez um americano ou latino vai começar a cantar em português.”
O acesso à estrutura internacional também poderá servir a projetos voltados ao público nacional, seja pela colaboração com produtores ou pelo uso das equipes de divulgação.
“Tem artistas que não têm interesse em sair do Brasil, por exemplo, mas é possível que eles queiram trabalhar com a gente por vários motivos.”
O desafio de crescer fora de um mercado grande
A força do consumo doméstico ajuda a atrair investimento, mas também pesa na decisão dos artistas sobre quanto dedicar a outros países. Uma carreira estabelecida no Brasil pode sustentar uma agenda de shows extensa, enquanto a expansão internacional exige recursos e tempo, sem garantia de retorno.
“A vantagem que tem o Brasil é que é um país muito grande. Então é fácil ficar no Brasil girando o tempo todo e não dá tempo para sair”, avalia Cedeño.
O custo em dólares entra nessa conta. O executivo acredita que experiências bem-sucedidas podem estimular novos projetos, mas ressalta que o Brasil tem condições diferentes das do mercado de língua espanhola, que circula por vários países e encontra uma população numerosa nos Estados Unidos.
“Quando um, dois ou três conseguem fazer com sucesso, aí vão vir os outros. E isso que vai trazer a força, isso que vai trazer o movimento”, completa.
Glossário
O que é Interscope?
Gravadora internacional de grande porte, responsável por artistas como Kendrick Lamar e Eminem, agora expandindo operações para o Brasil.
O que é Pró-Música Brasil?
Organização que representa a indústria fonográfica brasileira e fornece dados sobre o mercado musical do país.
O que significa marketing digital?
Conjunto de estratégias de promoção e divulgação de conteúdo usando plataformas online e mídias digitais.
O que é rap e do trap?
Gêneros musicais de origem urbana com forte expressão no Brasil, caracterizados por rimas e batidas distintas, agora foco da expansão da Interscope.
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