Habitação, polícia e o “Fascismo” que paira pelo ar

De repente, as manifestações, as acampadas e as redes sociais inundaram-se de frases bonitas a informar que tínhamos recuado 50 anos… Será que esta chusma sabe o que foi realmente o fascismo? O que é viver num regime de extrema-direita? O que é viver numa ditadura sem liberdade de expressão? Obviamente que não e espero nunca nenhum de nós o venha a sentir na pele. Apenas ouvi relatos de familiares meus, que contavam que nem sequer podiam conversar entre si, não podiam falar de política, quanto mais protestar na rua. Confundir a polícia, que cumpre a sua missão em defesa do Estado de direito, salvaguardando a segurança, com a PIDE, é sórdido e revela total ignorância. Curiosamente, não ouvi ninguém que apregoa o início da falência da democracia, criticar os totalitarismos da extrema esquerda e a tirania comunista. Se vivessem nesses regimes, jamais alguém se atreveria a ter qualquer comportamento contestatário, semelhante ao que se está a passar. Ninguém seria livre de expressar o seu pensamento.
Há já algum tempo, tem havido um abuso de linguagem na utilização da palavra fascismo. Uma palavra que carrega um peso histórico muito sombrio, que deve ser sempre relembrada e que justamente por isso, não deve ser banalizada. Caso contrário, poderemos cair numa espécie de síndrome da fábula do “Pedro e o lobo”. De tanto se gritar fascismo, quando tal não era real, as pessoas poderão já não reagir à palavra quando houver mesmo esse perigo iminente.
De 15 para 16 de outubro, assistiu-se a mais uma manifestação em Lisboa, juntamente com muitas outras, pela causa da habitação. Até aqui, tudo bem. É uma luta justa, visto que, infelizmente, o país enfrenta uma das mais graves crises habitacionais de sempre. O que me entristece, é perceber que tivemos de chegar a este ponto para se verificar que depois da Troika, tivemos oito anos de governo socialista, quatro deles em geringonça, durante os quais se podia, de facto, ter-se investido massivamente no setor e apostado numa verdadeira reforma habitacional. Tal não aconteceu. Culpou-se o Passos e a Lei Cristas, a especulação, os alojamentos locais e os ricos. Os costumeiros culpados coletivos, atribuídos pela esquerda. Escancararam-se as portas a milhares de imigrantes sem um plano para as receber com dignidade e, ao mesmo tempo, havia uma geração jovem que queria sair de casa dos pais.
A tal esquerda que tanto apregoa humanidade para os jovens, não se insurgiu, contra as políticas do governo PS, na época em que tinha influência política . Construíram-se poucas casas por parte dos operadores privados e menos ainda, no que toca à construção pública. Simplificadamente, segundo a lei da oferta e da procura, os preços dispararam, visto que para uma oferta pouco ou nada reforçada, houve uma procura sobreaquecida. Era óbvio que se iria tornar um problema sério. Quando este governo chegou, por muito que me digam que já deveria ter resolvido a questão, é impossível e irrealista, fazê-lo em dois anos. Aliás, as leis do arrendamento, ainda em vigor em, são as da era Costista. Mas aparentemente, o PS prefere manter tudo na mesma, apesar do brutal aumento de rendas, que os portugueses têm sentido.
Expresso a minha perplexidade, perante os cartazes que fui observando, sobretudo aqueles que diziam que a polícia, o governo, eram fascistas, que o capitalismo era o “pai de todos os nosso males” e que tínhamos de desmantelar todo o sistema, através de uma revolução! Desmantelar as instituições, destruir a “democracia burguesa”, os tribunais e os media. Fazer tudo por via de Assembleias Populares! Em suma, o espírito do protesto resumiu-se a um slogan: «Em vez de recuarmos uma hora, recuámos 50 anos».
A causa da habitação é premente e fundamental, mas tenhamos a lucidez de não amalgamar o exercício da livre manifestação saudável, com movimentos extremistas, que se associam a essa causa, instrumentalizando-a, acicatando a polícia e desafiando as instituições democráticas de modo a obterem uma escalada da situação, colocando-os num papel de vitimização. Desse modo tentam ampliar a sua base de apoio e reiniciam o ciclo. Galvanizam a rua pelo grito e com as suas palavras de ordem, geram uma polarização e uma anarquia crescente.
Talvez ninguém se lembre das declarações do então ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro em abril de 2023, aquando das manifestações pela habitação. Dizia então do alto do seu pedestal: “uma agressão contra um agente das forças de segurança é uma agressão contra todos nós” e que “qualquer ofensa contra os agentes da autoridade é uma ofensa a todos nós, ao Estado de Direito, que se baseia em normas e tem fundamentos democráticos que resultam da legislação”. Nas mesmas circunstâncias, avançou-se para uma carga policial. Mas esperem, na altura o governo era de esquerda, e por isso os cidadãos que apregoam os «amanhãs que cantam» nunca se lembraram de o associar à extrema-direita e ao fascismo. Enfim, o exponente máximo da hipocrisia.
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