E se não existir uma profissão “certa” para mim?

Há alguns anos, acompanhei uma jovem que me disse uma frase de que nunca mais me esqueci: “Mas eu não quero UMA profissão.” Explicou-me que não havia nenhuma profissão que adorasse por inteiro. Em todas encontrava coisas que gostaria de fazer e outras que sabia que não lhe interessariam. E, sobretudo, não queria sentir-se reduzida a uma única profissão quando existiam tantas atividades, funções e áreas diferentes que lhe despertavam curiosidade.
“Gostava de fazer qualquer coisa híbrida, mas não sei se isso é possível. Parece que me querem fechar numa única opção. Querem que escolha agora um curso no ensino superior e depois assuma uma profissão para o resto da vida, quando até sabemos que o mercado de trabalho já não funciona assim.”
Esta jovem tinha uma lucidez pouco comum para a sua idade. E aquilo que dizia estava profundamente certa, apesar do pânico que a sua aparente “indecisão” provocava à sua volta.
Todos nós já perguntámos – ou já nos perguntaram – “o que queres ser quando fores grande?”. É provavelmente uma das perguntas mais repetidas durante a infância e a adolescência, mas é também uma das que mais urgentemente precisa de ser reformulada.
A pergunta parece inocente, mas encerra várias premissas. A primeira é que existe uma profissão “certa” para cada um de nós. A segunda é que essa profissão representa uma espécie de destino profissional que temos de descobrir – quase como uma revelação, eventualmente com a ajuda de um psicólogo. A terceira é que, quanto mais cedo a encontrarmos, melhor. Evitamos escolhas erradas, mudanças de curso, recomeços e desvios de percurso. Porque mudar ainda é, demasiadas vezes, interpretado como sinal de instabilidade, falta de foco ou incapacidade para saber o que se quer.
Tudo isto está errado na forma como conceptualizamos o mercado de trabalho atual. E está igualmente errado à luz do que hoje sabemos sobre orientação e desenvolvimento de carreira.
Para começar, talvez a pergunta não devesse ser “o que queres ser quando fores grande?”, mas antes: “o que gostarias de aprender a ser e a fazer?” Parece uma simples mudança de palavras, mas altera profundamente o raciocínio. O foco deixa de estar na descoberta de uma resposta que terá de ser perseguida para o resto da vida e passa para a exploração: que interesses tenho? Que problemas gosto de resolver? Em que ambientes funciono melhor? Que competências gostaria de desenvolver? Que experiências quero ter? Que contributo gostaria de dar?
É esta exploração que nos permite aprender a construir e a tomar bem decisões sobre o nosso futuro, ao longo do tempo. E escrevo deliberadamente “tomar bem decisões”. Sou frequentemente corrigida quando utilizo esta expressão: “quer dizer tomar boas decisões”. Não. Na minha área de atuação, interessa-me muito mais ensinar uma pessoa a tomar bem uma decisão do que garantir-lhe que está a tomar uma boa decisão.
Porque tomar bem uma decisão significa fazê-lo de forma consciente, informada e coerente com aquilo que sabemos sobre nós próprios e sobre o mundo naquele momento. Já dizer que uma decisão é “boa” pressupõe uma capacidade que nenhum psicólogo, professor, pai ou orientador possui: adivinhar o futuro.
Uma escolha pode parecer excelente hoje e deixar de fazer sentido daqui a dois, cinco ou dez anos. Não necessariamente porque a pessoa se enganou, mas porque entretanto mudou. Porque aprendeu. Porque descobriu novos interesses. Porque surgiram profissões e oportunidades que antes não existiam. Porque o mercado mudou. Ou, simplesmente, porque aquilo que queremos da nossa vida também muda.
Por isso, talvez devamos deixar de preparar os jovens para acertarem à primeira. Precisamos de os preparar para saberem escolher, experimentar, avaliar e, quando necessário, voltar a escolher. Porque uma carreira não se constrói através de uma grande decisão tomada aos 17 ou 18 anos. Constrói-se através de muitas decisões tomadas ao longo da vida.
E o mais importante não é que todas sejam “boas”. É que aprendamos, cada vez melhor, a tomá-las bem.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.