Gloria Perez exalta o poder das novelas para discutir assuntos sociais: 'Contra a emoção ninguém tem defesa'

A novelista Gloria Perez, de 78 anos, foi fonte de pesquisa para o livro Luz, Camêra... Compulsão, que reúne análises de cenas de Vale Tudo, Breaking Bad e O Clone para explicar como o cérebro do dependente funciona. Por que Heleninha Roitman nunca conseguiu largar a bebida em Vale Tudo? Por que Mel, de O Clone, afundou na cocaína mesmo vendo a própria vida desmoronar?
Responsável pela autoria de sucessos como Barriga de Aluguel (Globo, 1990), O Clone (Globo, 2001) e Caminho das Índias (Globo, 2009), Gloria tem o costume de apostar em campanhas sociais em suas obras de ficção. "Contra a emoção ninguém tem defesa. A emoção toma as pessoas. Com o sentimento de empatia despertado, elas refletem, questionam a maneira como enxergavam aquele assunto e repensam", afirma a autora.
Em Luz, Camêra, Compulsão, a médica psiquiatra Analice Gigliotti e as psicólogas Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman sinalizam como dramaturgia gera comoção ao trazer personagens tomados pelo vício e pela dependência.
Você tratou de temas de vício e dependência de forma contundente em novelas como O Clone, Travessia, A Força do Querer. Para você, como é abordar estes temas, muitos deles considerados tabus nas famílias?
Os assuntos que escolho são aqueles que me interessam compreender, e escrever é meu caminho para isso. O viés dramatúrgico vem depois, é o jeito de contar. Falar de um tema a partir da vivência humana, buscando a empatia, mexendo com as emoções de quem assiste, sempre pareceu a forma mais eficiente de jogar o assunto na mesa, para que seja discutido e repensado.
De todos os seus personagens que tinham vícios, dependências ou compulsão, é possível eleger o que teve maior impacto positivo?
Com o Nando (Thiago Fragoso) e a Mel (Débora Falabella), em O Clone, muitos dependentes procuraram clínicas, muitas famílias compreenderam o que acontecia com seus filhos e se puseram atentos para os sinais de uma pré-dependência. Como em todos os meus trabalhos, para construir Nando e Mel fui ouvir pessoalmente pessoas que viviam aquela condição. Até então só ouvia falar da dependência química pela polícia e médicos.
Já enfrentou algum tipo de resistência, desconfiança?
Em O Clone, fui ouvir os dependentes expliquei claramente a intenção da história, a exposição que traria e perguntei -- como pergunto sempre --, o que queriam que a sociedade soubesse sobre eles, porque esse ponto de vista também seria incluído. A partir daí, as desconfianças cessaram. O que queriam que a sociedade soubesse é que apesar de terem feito coisas que consideravam horríveis e imperdoáveis, eles não eram assim: a droga os submetia e os fazia assim. Penso que o mérito conquistado pela campanha veio deles, da maneira como abriram seus corações. Para quem vive ou está começando a trilhar esse caminho, a voz de quem já viveu, está vivendo, será sempre mais convincente.
As campanhas sociais são marcos da sua obra.
Outras campanhas, em maior ou menor grau, também tiveram muito impacto, como as crianças desaparecidas de Explode Coração, os esquizofrênicos de Caminho das Indias, o trans de A Força do Querer, entre outras.
Qual a importância de tratar destes temas no cinema e na TV?
A importância é que são veículos que podem chegar ao grande público através do emocional. Quando você se dirige à razão esbarra nos pré-conceitos. Mas contra a emoção ninguém tem defesa. A emoção toma as pessoas, e possuídas pelo sentimento de empatia despertado, aí sim, elas refletem, questionam a maneira como enxergavam aquele assunto, repensam.
Nas livrarias
Luz, câmera… compulsão! – Como filmes, séries e novelas explicam as dependências humanas (Editora Máquina de Livros) - preço estimado R$ 85 (versão impressa)
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