BK’ já merece ser citado entre os maiores da história do hip hop nacional?

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Dez anos após ‘Castelos & Ruínas’ e com um show histórico para 50 mil pessoas no Nubank Parque, o rapper carioca consolidou um argumento cada vez mais difícil de ignorar
Kadu Soares (@kadusoares__)
Uma semana depois do show histórico — ainda impactado com o feito — dá para sentir o peso do que aconteceu no Nubank Parque, na noite de 19 de setembro. BK’ se apresentou para 50 mil pessoas em São Paulo — superando o público de Kendrick Lamar no mesmo local e igualando o de Travis Scott — e tornou-se o primeiro rapper brasileiro a fazer um show solo em um estádio desse porte. Foi nesse pós-show que uma pergunta surgiu na minha cabeça: “BK’ já está no Top 3 dos maiores da história do hip hop nacional?” Em Ícaros (2022), ele já tinha avisado: “Guarde meu lugar na mesa / Guarde meu lugar na história”. Mas afinal, essa cadeira já é dele ou ainda falta alguma coisa?
Para discutir isso, nada melhor do que começar pelo top 2: Racionais MC’s e Emicida. Inegociáveis. (Também não há ordem, já que definir qual dos dois ocupa o primeiro lugar seria outra reflexão, igualmente válida, que fica para uma próxima.)
Sobrevivendo no Inferno (1997) não é só o maior disco do rap brasileiro, é um dos documentos mais importantes da cultura popular do país. Do outro lado, Leandro Roque de Oliveira construiu um projeto artístico e político de rara consistência: de Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe (2009) a Emicida Racional Vol. 2: Mesmas Cores e Mesmos Valores (2025) — que referencia justamente o grupo —, juntos, formam o pódio.
Mas e a terceira cadeira? Há quem diga que ela é de Sabotage, assassinado em 2003 antes de ver o que teria construído. Outros defendem que o dono seja Black Alien, que provou que o rap brasileiro podia ser visceral e, ao mesmo tempo, completamente fora do padrão. Há ainda quem aposte em Facção Central, RZO, MV Bill, Negra Li ou Criolo. É, indiscutivelmente, uma briga boa.
Vamos por partes… Facção Central, RZO, MV Bill e Negra Li estão no top 10 — e qualquer lista sobre a história do rap brasileiro precisa dos quatro. O primeiro deles, Facção Central, construiu um dos catálogos mais radicais do rap paulistano, com rimas afiadas e que documentaram uma realidade que a indústria preferia ignorar. Já o RZO foi a escola de uma geração inteira da Zona Sul de São Paulo — grupo que, inclusive, apadrinhou o próprio Sabotage e construiu uma consistência técnica e conceitual que influenciou quem veio depois. MV Bill chegou da Cidade de Deus com um discurso ativista antes de existir algoritmo para isso — e manteve essa postura por décadas, quando muitos viraram as costas. Por fim, Negra Li abriu o rap para as mulheres. Se hoje estamos falando da grande geração do rap feminino, é preciso lembrar do trabalho de Liliane de Carvalho. Os quatro são importantíssimos, inegáveis — mas que, por diferentes razões, não chegaram à consistência de discografia, à influência intergeracional ou ao alcance necessários para a terceira cadeira.
Falando de Criolo, o paulistano tem o argumento mais sedutor da fila — e o mais difícil de refutar com frieza. Nó na Orelha (2011) foi feito num estúdio improvisado, como a “última tentativa” antes do artista considerar abandonar a música, e se tornou um dos discos mais interessantes da história da música brasileira — não só do hip-hop. Misturou samba, bolero, afrobeat, reggae e ritmos latinos com rap de um jeito que ninguém tinha feito antes; venceu prêmios, foi eleito melhor álbum daquele ano pela Rolling Stone Brasil e abriu o gênero para um público que jamais imaginou que aquilo era para si. “Não Existe Amor em SP” é um dos momentos mais bonitos da música popular brasileira dos últimos 20 anos. O argumento de Criolo é o da ruptura: além de ter feito um grande disco, mudou o que o rap podia tocar. O problema é que, para fazer isso, ele precisou sair do rap — e nunca mais voltou de verdade. Depois de Nó na Orelha, Criolo foi para o samba, para a MPB, para outros territórios. Uma escolha artística legítima e bela, mas a terceira cadeira do hip hop nacional precisa de alguém que dedicou a carreira ao movimento. E os que vêm a seguir fizeram exatamente isso.
Black Alien é um deles. Gustavo de Almeida Ribeiro nasceu em São Gonçalo, entrou no Planet Hemp em 1996 quase por acidente e acabou sendo parte central de dois dos discos mais importantes da banda: Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para (1997) e A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000). Em 2004, lançou Babylon by Gus — Vol. 1: O Ano do Macaco, reconhecido até hoje como um dos melhores discos de rap nacional — com referências cinéfilas, flow único, mistura de inglês e português e uma postura que sempre questionou o status quo. Black Alien nunca seguiu tendência, nunca abaixou a cabeça para ninguém, nunca abriu mão de nada — e influenciou gerações de MCs que carregam sua postura sem saber. Entretanto, a discografia solo nunca sustentou o mesmo ritmo: foram apenas três álbuns. Uma carreira construída fora do sistema, com momentos de brilho inegável, mas sem a sequência contínua de álbuns que a terceira cadeira exige.
Sobrou só um: Sabotage. Mauro Mateus dos Santos tinha 29 anos e deixou, em vida, apenas um álbum: Rap é Compromisso! (2000). São 11 faixas que venderam 1,7 milhão de cópias (segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Disco) e que, ao lado de Sobrevivendo no Inferno, redefiniram o rap paulistano. “Respeito é Pra Quem Tem”, “Na Zona Sul” e “Cantando Pro Santo” são músicas que não envelheceram um dia sequer. Assassinado em 24 de janeiro de 2003, ele nunca chegou a saber a dimensão do que construiu. (A título de curiosidade, em 2024, os filhos lançaram Sabotage 50, álbum póstumo que celebrou o cinquentenário do nascimento do rapper, com participações de artistas de toda a cena — sem nem pedir cachê. Esse tipo de reverência não se compra; e não é qualquer pessoa que a tem). Ainda assim, o argumento de quem defende que a terceira cadeira é do Sabotage é delicado, porque não estamos comparando discografias: estamos comparando o que foi com o que poderia ter sido. E, infelizmente — e, mais uma vez, com todo o respeito devido —, por muito pouco ele não se senta nessa cadeira.
Então chegamos em Abebe Bikila. O que diferencia ele de todos esses nomes é a combinação de fatores que nenhum dos outros conseguiu reunir ao mesmo tempo: consistência de discografia, influência intergeracional, expansão de público sem perda de identidade e consciência artística de quem sabe o que está construindo. Cinco álbuns, — sem contar EPs e mixtapes —, cinco versões diferentes de um mesmo artista que nunca precisou se repetir para crescer. Cinco álbuns — sem contar EPs e mixtapes — e nenhum deles soa como o anterior. Castelos & Ruínas (2016) traz a pureza e a urgência de quem tinha 26 anos de vida para despejar num disco de uma vez só. Gigantes (2018) marca a expansão: BK’ percebeu que cabia mais gente na narrativa e abriu o universo. Dois anos depois, O Líder em Movimento (2020) é um posicionamento político em sua essência. Ícaros, de 2022, foi quando a bolha estava prestes a estourar. Nele, o rapper recorre à mitologia grega para falar do próprio percurso — e já pede, em verso, um lugar nessa mesa que estamos discutindo. Por fim, DLRE prova que dá para alcançar novos públicos sem trair a própria identidade.
E isso, sem contar o impacto na cena atual. L7NNON se define como “aluno” em verso. Djonga já disse que olhou para BK’ e pensou que, se ele conseguiu, também conseguiria — e foi assim que construiu um dos maiores selos do rap nacional, a Quadrilha, inspirado no que BK’ fez com a Gigantes. Artistas de todos os cantos vieram para São Paulo ver o que seria do show, vieram acompanhar a história sendo feita.
Além de tudo isso, ainda há um argumento que transcende a discografia, os shows e os números: o rap nacional está se esvaziando — é evidente. A popularização trouxe alcance, mas diluiu a essência. Virou produto antes de virar arte. O próprio BK’ já refletiu sobre isso em entrevista ao Tracklist: “Quando a parada se populariza muito, dá uma sensação de que todo mundo pode fazer, e a gente sabe que o rap não é assim”. Num cenário em que a pressão para simplificar nunca foi tão alta, a busca por números está mais forte que nunca e a tendência é a “tiktokalização”, BK’ faz o movimento contrário: traz de volta o tesão pelo rap, a profundidade lírica, o compromisso com a arte. E faz isso de um jeito acessível o suficiente para lotar estádio.
“Meu rap nunca foi consciente; sempre foi consequente”, rima o rapper em “Pessoas”. Essa consequência está — ou é — o Nubank Parque lotado, no Maracanã à espera e em cada artista que ouviu Castelos & Ruínas e teve a vida transformada. A terceira cadeira está ocupada. E, a cada vez que BK’ sobe a um palco desse tamanho, fica mais difícil imaginar quem poderia tirá-lo dela.
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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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