Filho de refugiados do nazismo criou a maior varejista do Paraná e faz R$ 38 bilhões com 4 mil lojas
O varejo brasileiro de beleza cresce por um caminho diferente do resto do comércio: em vez de abrir lojas com capital próprio, as maiores redes do setor repassam o ponto, o estoque e a operação a terceiros.
Segundo o Instituto Retail Think Tank (IRTT), mais da metade das 50 empresas com maior presença física no país usa franquia. É o formato que permite chegar longe sem construir.
É o caso do Grupo Boticário, que vendeu 38,1 bilhões de reais em 2025 e tem 3.898 pontos de venda, a maioria operada por franqueados.
É a maior varejista do Paraná e a quinta do Brasil no TOP 300 do Varejo Brasileiro, levantamento do IRTT publicado neste mês.
Sozinha, responde por 38% de tudo o que as 20 empresas paranaenses da lista faturaram no ano.
O grupo começou em 22 de março de 1977, quando o farmacêutico Miguel Gellert Krigsner abriu uma farmácia de manipulação na Rua Saldanha Marinho, no centro de Curitiba, com cerca de 3.000 dólares emprestados de um tio. Miguel Krigsner:
Em março, a consultoria Euromonitor apontou o Boticário como o maior varejista de beleza do mundo em número de pontos de venda.
Nos últimos anos, está num plano de investimento de 4,14 bilhões de reais em ampliação de fábricas e logística, com planta nova em Pouso Alegre, em Minas Gerais, e obras em Curitiba e em Camaçari, na Bahia.
O que vem pela frente concentra dinheiro em produção e em tecnologia, e não em pontos de venda.
A companhia hoje calcula cerca de 70% das previsões de demanda dos franqueados que aderem ao sistema, mantém sistemas próprios de transação em todos os canais e amplia a operação de venda para outros comércios, que já soma 200.000 pontos não proprietários.
Quais sãos as 10 maiores varejistas do Paraná
Vinte empresas com sede no Paraná entraram no TOP 300 do IRTT, somando 101,2 bilhões de reais.
Doze delas atuam em supermercados, hipermercados ou atacarejo, o formato que mistura atacado e varejo no mesmo salão.
- 1) Grupo Boticário: R$ 38,1 bilhões
- 2) Super Muffato: R$ 20,4 bilhões
- 3) Gazin: R$ 13,8 bilhões
- 4) Condor Super Center: R$ 7,0 bilhões
- 5) Farmácia e Drogaria Nissei: R$ 3,0 bilhões
- 6) Cia. Beal Alimentos: R$ 2,9 bilhões
- 7) Madero: R$ 2,3 bilhões
- 8) Mercado Móveis: R$ 2,1 bilhões
- 9) Supermercado Jacomar: R$ 1,7 bilhão
- 10) Ítalo Supermercados: R$ 1,7 bilhão
O líder vende quase o dobro do segundo colocado. O Boticário cresceu 7% em 2025 e está entre as cinco maiores varejistas do país, um grupo que soma 341,6 bilhões de reais, ou 25,6% do total das 300 maiores. É a única das cinco que não tem ações em bolsa.

Loja do O Boticario em São Paulo (Leandro Fonseca/Exame)
Qual é a história da empresa
Miguel Gellert Krigsner nasceu em La Paz, na Bolívia, em 9 de janeiro de 1950. Os pais eram judeus, ele polonês e ela alemã, e chegaram à América do Sul fugindo do nazismo. A família se mudou para Curitiba quando Miguel tinha 11 anos.
Ele queria medicina e não passou. Cursou Farmácia e Bioquímica na Universidade Federal do Paraná e se formou em 1975.
Fez estágio em indústria farmacêutica e em laboratório de análises clínicas, as duas saídas profissionais da época, e não quis nenhuma das duas.
Em 1977, no fim do curso, abriu a farmácia de manipulação com três colegas e o empréstimo do tio. O pai, Jacob, tinha uma loja de confecções no centro da cidade e não acreditava no negócio.
Os primeiros produtos foram um creme à base de colágeno, um creme de elastina para estrias, um xampu e um banho de algas marinhas. Os hidratantes iniciais eram preparados numa batedeira.
A loja que mudou tudo
A decisão de levar a marca para fora de Curitiba veio dois anos depois da abertura.
Em 1979, Krigsner abriu uma loja no Aeroporto Afonso Pena. Tripulações e passageiros compravam os produtos e levavam para outros estados.
A marca ficou conhecida no país antes de existir uma única franquia.
O franqueamento veio na década seguinte e virou o método da casa. Hoje o Boticário é a segunda maior rede de franquias do Brasil em número de operações, com 3.898 unidades, atrás da Cacau Show, que tem 4.713, segundo a Associação Brasileira de Franchising.
Krigsner tem 76 anos, preside o conselho de administração e controla cerca de 80% do grupo ao lado do cunhado e sócio Artur Grynbaum.
Em setembro de 2026, a Forbes o colocou na oitava posição entre os brasileiros mais ricos, com patrimônio estimado em 35,7 bilhões de reais.
Fora do varejo, ele criou a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza em 1990, uma das primeiras iniciativas privadas de conservação ambiental do país, e participou da criação do Museu do Holocausto de Curitiba, aberto em 2011.
De marca única a nove marcas
O grupo deixou de ser uma rede de perfumaria e virou um conjunto de negócios com públicos diferentes.
Além de O Boticário, o portfólio reúne Eudora, Quem Disse, Berenice?, Vult, O.U.i, Dr. Jones, Truss, Au.migos Pets e Beleza na Web.
Em 2025, a rede principal abriu 113 lojas. A Eudora inaugurou dez e chegou a 20 unidades. A Beleza na Web abriu cinco e chegou a 12.
A Quem Disse, Berenice? passou a ocupar espaço dentro de mais de 1.300 lojas de O Boticário, em vez de disputar pontos próprios.
O crescimento foi rápido. A companhia vendeu 18 bilhões de reais em 2021, 30,8 bilhões em 2023 e 38,1 bilhões em 2025.
A presença física passa por 1.655 cidades brasileiras e outros 16 países.
O que o ranking do Paraná mostra
A lista paranaense repete o padrão que o IRTT identifica no varejo brasileiro: liderança de empresas regionais de capital fechado e pouca concentração.
Depois do Boticário vêm redes com perfis distintos. O Super Muffato, de Londrina, opera supermercados e atacarejos. A Gazin, de Douradina, vende móveis e eletrodomésticos.
Entre as 20 paranaenses do ranking, 12 estão em supermercados, hipermercados ou atacarejo. É o setor que sustenta o faturamento estadual em volume, enquanto o líder da lista cresce por outro caminho.
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