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Tuesday, October 6, 2026

‘Feito Pipa’ (ou ‘Gugu em um mundo em que se aprende a odiar antes de amar’)

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Candidado do Brasil ao Oscar 2027, novo longa de Allan Deberton (O Melhor Amigo) chega ao Festival do Rio discutindo o preconceito que destrói a inocência da infância

Henrique Nascimento (@hc_nascimento)

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Feito Pipa (ou "Gugu em um mundo que se aprende a odiar antes de amar") (Divulgação)

Quando se nasce “diferente”, você tem duas opções. A primeira delas é se esconder, falar pouco, interagir menos ainda, tornar-se invisível ou, pelo menos, camuflar-se na multidão, para que ninguém perceba que há algo de “errado” com você. A segunda é fazer como Gugu, o protagonista de Feito Pipa, que estreia nesta terça-feira, dia 6 de setembro, na 28ª edição do Festival do Rio, e ser você mesmo, sem pedir licença ou desculpa.

Vivido pelo imensamente carismático e talentoso Yuri Gomes, Gugu gosta de se enfeitar, passar maquiagem, dançar com os amigos e jogar futebol. Ele anda altivo, orgulhoso de si mesmo, sem se deixar abalar pelos colegas de escola, que implicam com ele por não se encaixar nos padrões. É amado e mimado pela avó, Dilma (Teca Pereira, Kasa Branca), que cuida de Gugu desde a morte de sua mãe.

Seu calcanhar de Aquiles, no entanto, é o próprio pai, Batista (Lázaro Ramos, Medida Provisória), um caminhoneiro rude, que não aceita o jeito do filho e procura formas de corrigir os seus “erros”, presenteando Gugu com revistas pornôs e o incentivando a perseguir o sonho de se tornar um jogador de futebol, apesar de, ele próprio, não ser fã do esporte.

Porém, quando a avó começa a apresentar sinais de Alzheimer e se torna inapta a cuidar do neto e, principalmente, de si mesma, Gugu vê a sua vida mudar bruscamente, tornando-se vítima de uma opressão que quer proibi-lo de ser quem ele é e, nesse processo, ataca diretamente a inocência da infância do pequeno sonhador.

Feito Pipa (ou “Gugu em um mundo que se aprende a odiar antes de amar”) (Divulgação)

Feito Pipa —  dirigido por Allan Deberton (O Melhor Amigo) a partir do roteiro do colaborador de anos do cineasta, André Araújo —, me levou uma reflexão tão dolorosa quanto necessária: por que é tão fácil ensinar a odiar, mas tão difícil ensinar a amar?

Apesar de as violências sofridas por Gugu não estarem no centro da narrativa, é angustiante ver como os seus colegas de classe o tratam por não se intimidar e esconder quem é. Ninguém os ensinou a amar Gugu, mas o ódio parece intrínseco, natural, vindo de crianças de pouca idade, com um conhecimento mínimo do mundo, o que é aterrorizante, porque é a realidade, não é só ficção.

É ainda mais estarrecedor ver Batista culpar o próprio filho por ser um péssimo pai, justificando que Gugu não tem ideia de como é difícil ouvir o que as pessoas falam dele e não poder fazer nada, além de se envergonhar. Para o caminhoneiro, que detesta futebol, mas adora cozinhar — uma tarefa historicamente imputada e cobrada de mulheres em casa —, não há espaço para o dissidente.

Em nenhum momento do filme a sexualidade de Gugu é discutida; afinal, ele é apenas uma criança, comportando-se como uma criança, à sua maneira. Mas o medo de ter um filho que, futuramente, possa se identificar como gay aterroriza Batista, e o leva a destruir o mundo de Gugu, forçando o filho a se adaptar uma realidade normativa a qual não pertence. “Nem tudo o que a gente quer, a gente tem”, diz ao garoto em certo momento. No entanto, isso não o impede de tentar.

Felizmente, Gugu é mais corajoso do que eu jamais fui com a mesma idade e enfrenta os seus algozes de frente, com o peito estufado e maquiagem no rosto. Em certo momento, logo no início de Feito Pipa, a avó pergunta a Gugu aonde ele está indo: “Tô indo salvar o mundo!”, responde o garoto, de cima de sua bicicleta, com uma capa ao redor dos ombros como um super-herói.

Vá, Gugu, salve o mundo. Por você, por mim e por tantos Gugus que vieram, que estão e que ainda virão.

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Henrique Nascimento (@hc_nascimento)

Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.

TAGS: Allan Deberton, Feito Pipa, festival do rio, Festival do Rio 2026, lázaro ramos, Teca Pereira, Yuri Gomes
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