Como a segurança e o crime influenciam o voto no Brasil

Fátima fundou organização na favela de Manguinhos após filho morrer às mãos da polícia. Rildo tem prejuízos no clube de tiro que gere. Segurança domina campanha e candidatos têm estratégias distintas.
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É uma manhã de sábado soalheira e relativamente calma. Há pessoas a ir ao supermercado, ao talho ou à drogaria. Nas ruas, assam-se frangos. Vendem-se gelados. Na favela de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, Fátima Pinho explica ao Observador que tudo ali “corre com naturalidade”. “Há gente que pensa que está sempre a haver tiro, mas não é assim”, garante. “As coisas ficaram muito melhores de há uns tempos para cá.” A moradora refere que a situação é bem menos agreste do que era “há cerca de dez anos” — quando perdeu o filho de 18 anos, que acabou morto após ser espancado e sufocado pela polícia.
Numa pequena caminhada pela favela, com edifícios em tijolo e inúmeros cabos elétricos à vista, Fátima Pinho recomenda ao Observador “não andar com o telemóvel”. Só aconselha a retirá-lo quando se chega a um local que é muito importante para ela: o memorial das Mães de Manguinhos. Num pequeno campo de futebol, estão pintadas as caras de vários jovens que morreram fruto da violência policial. A mulher sabe contar a história de todos eles: “O Rómulo foi morto aqui no campo de futebol quando estava a dar treino às crianças”. “O Christian morreu aqui atrás. Do nada, vieram uns polícias. O Matheus foi um dos primeiros meninos mortos aqui em Manguinhos com arma de choque”, prossegue, apontando para os seus rostos.
No dia 17 de outubro de 2013, aconteceu algo que marcou a vida de Fátima Pinho para sempre. O filho Paulo Roberto foi morto com apenas 18 anos, muito perto desse campo de futebol. “O meu filho foi abordado pela polícia e foi embora para casa dormir. Foi tranquilo. Depois, chegou a um beco e tinha já lá outros polícias à espera dele. Foi espancado, bateram-lhe e sufocaram-no até morrer”, conta, já friamente. No entanto, apesar da aparente distância com que relata a história, a mulher sentiu uma profunda dor e revolta. Isso levou-a primeiro aos tribunais e depois motivou-a a criar a organização Mães de Manguinhos — uma iniciativa que pretende dar apoio às mulheres que perdem os filhos em circunstâncias idênticas.
▲ Fátima Pinho com uma bandeira da organização que fundou junto ao memorial de Manguinhos
José Carlos Duarte
A partir de Manguinhos, atravessando a ponte que liga as duas margens da Baía de Guanabara, chega-se a Niterói. É lá que Rildo Anjos, neto de portugueses, recebe o Observador. É dono de um clube de tiro e de treino de segurança pessoal na localidade — o Calibre 12. Ali trata-se de assuntos como a posse e porte de armas e vende-se armamento. Ao início da tarde desta sexta-feira, o clube não tinha aulas marcadas. Mesmo assim, o militar na reserva mostra ao Observador o espaço onde ensina a disparar uma arma: é um grande armazém insonorizado com balas em cima de pipas pretas e placards de cortiça com alvos.
“É aqui que dou as minhas aulas”, diz. Ao lado, há outra sala em que dá os cursos para formar seguranças, com um saco de muay thai no centro. Subindo as escadas da receção, entra-se no escritório onde Rildo Anjos conta fazer o “trabalho mental”. Há uma Bíblia na sua secretária, assim como uma bandeira do Brasil e outra do Flamengo, clube de que é adepto. Numa parede, há uma bandeira de Israel: Rildo diz que é judeu. Também é consultor na área de segurança na área do Rio de Janeiro, uma das regiões vistas como uma das mais perigosas no Brasil, ideia que desmonta prontamente: “Não é, não”.
Enquanto dono de um clube de tiro, Rildo Anjos não esconde que é a favor da posse de armas. O militar na reserva apresenta o seguinte argumento: “Em 2017, no Brasil, os acidentes mataram um pouco mais de 40 mil pessoas. Partindo dessa premissa, devíamos proibir os carros. Mas isso não aconteceu”. E defende que as limitações ao armamento não têm lógica: “Quando eu trago uma arma de fogo, por exemplo, ela é, na verdade, um acessório, um mediador e, muitas vezes, um nivelador de força, principalmente onde o Estado não tem o direito de atuar”. Apesar de estarem separados por vinte quilómetros apenas, Fátima Pinho e Rildo Anjos vivem em mundos totalmente diferentes — mas profundamente marcados pelo uso de armas.
▲ Clube de tiro Calibre 12 em Niterói
José Carlos Duarte
Segurança: o assunto que preocupa (e divide) os brasileiros
A falta de segurança e a criminalidade continuam a ser um assunto que preocupa muitos brasileiros. Roubos, tiroteios, zonas controladas por grupos armados à margem do Estado e redes de tráfico de droga que combatem entre si são assuntos com os quais a população convive diariamente, seja através das notícias ou da paisagem urbana. No Rio de Janeiro, esta sensação ainda é mais intensa. Enquanto cidade, é lá onde estão as favelas e morros — comunidades urbanas construídas muitas vezes sem qualquer planeamento em encostas.
“A geografia favorece muito os criminosos nos morros”, diz Rildo Anjos. “É difícil chegar lá. Podem fechar ruas. Há comunidades em que ninguém entra”, sustenta, indicando: “Não há um investimento em aeronaves porque não é possível, não é autorizado um sobrevoo de aeronaves, muitas vezes não é autorizado sobrevoar estas comunidades”. Ainda que o crime organizado e as milícias à margem do Estado sejam transversais a todo o Brasil, é no Rio de Janeiro que se concentra mais este fenómeno.
Sendo consultor no assunto, Rildo Anjos dedica-se a estudá-lo ao pormenor. “Cada cidade tem a sua peculiaridade do crime. Aqui no Rio de Janeiro, o maior problema é o tráfico [de droga] e as milícias. É a dor de cabeça. Fecham as principais vias da cidade e roubam. Há também uma opressão dos moradores em várias comunidades,” assinala, denunciando que o modus operandi de vários grupos criminosos é cada vez mais sofisticado.
"Cada cidade tem a sua peculiaridade do crime. Aqui no Rio de Janeiro, o maior problema é o tráfico [de droga] e as milícias. É a dor de cabeça. Fecham as principais vias da cidade e roubam. Há também uma opressão dos moradores em várias comunidades."
Rildo Anjos
Perante a insegurança que muitos sentem, é natural que surjam reivindicações políticas sobre o assunto, embora as abordagens sejam bastante distintas. Há quem defenda que o caminho a seguir consiste no endurecimento das penas, num controlo policial mais robusto e na liberalização da posse de armas — como Rildo Anjos, que ecoa algumas das posições de Flávio Bolsonaro. Mas há quem defenda o oposto: uma abordagem focada na prevenção social, na reabilitação e na redução do uso da força policial. Enquanto mãe que perdeu o filho, Fátima Pinho sente que essa é a estratégia mais correta — e aquela que é defendida por Lula da Silva.
Os polícias que mataram Paulo Roberto foram condenados a três anos de prisão. “Foi uma justiça branda, mas foi justiça”, salienta. A mulher acredita que a “violência do Estado e a violência policial” estão “banalizadas”, particularmente nas favelas. “É como se tivessem autorização”, lamenta. Fátima Pinho sinaliza ainda as consequências das operações policiais no dia a dia de Manguinhos: “Há crianças que deixam de ir à escola, as pessoas não saem de casa. Há sempre o medo de um tiroteio”.
A perspetiva de Rildo Anjos é totalmente diferente: existe uma falta de controlo por parte do Estado. “A partir do momento em que se comete um crime, tem que ser tratado como um criminoso e isso não acontece no Brasil”, diz. “Todo o criminoso tem de ser tratado como um criminoso. Todos precisam de uma defesa, precisam de um advogado e todos precisam de uma defesa, isso está bem. Mas quem comete crimes não pode ser solto”, continua.
▲ Rildo Anjos no seu escritório
José Carlos Duarte
O contraste entre as posições de Fátima Pinho e Rildo Anjos é notório, bem como a forma como cada um entende o papel do Estado e a criminalidade. A mulher perdeu o filho às mãos da polícia e vê a favela onde mora a ser constantemente alvo de operações policiais. O antigo militar foi treinado para defender a população do crime e lamenta as limitações impostas à posse de armas. As suas posições nestes assuntos ajudam a explicar o sentido de voto de cada um: Fátima apoia Lula da Silva, enquanto Rildo opta por Flávio Bolsonaro — embora ressalve que o faz por considerar que o Brasil não deve continuar a ser liderado pelo atual Presidente.
Fátima Pinho e a associação criada contra a violência estatal para apoiar juridicamente as mães que perdem os filhos
Na entrevista ao Observador, Fátima Pinho traz a filha e a neta. Estão inquietas e querem brincar. Repreendendo-as de vez em quando, a mulher de Manguinhos conta como ajudou a criar o movimento após a morte do filho. “Formámos um movimento para o acolhimento de mães que perderam os seus filhos”, clarifica. Após mortes violentas nas favelas, assinala que havia uma “procura muito grande” por alguém que as ouvisse, as compreendesse e as apoiasse em termos jurídicos.
Fez há uma semana, a 17 de outubro, 13 anos que o filho morreu. Com o apoio de uma instituição filantrópica local, Fátima Pinho realiza anualmente uma festa para as crianças da favela. “Depois da morte dele, não fazia sentido fazer algo para chorar de tristeza. Queria fazer uma coisa de alegria, porque ele era alegre. Ele era uma criançona”, recorda, com alguma mágoa na voz. “Em homenagem a ele, faço brincadeiras para as crianças com bolos. Transformo aquele momento de tristeza em alegria.”
▲ Favela de Manguinhos
José Carlos Duarte
Num passeio junto a uma rua barulhenta onde o trânsito é intenso, Fátima Pinho lembra que, quando o filho morreu, há treze anos, a situação era bastante precária em Manguinhos. “Era violência o dia todo, as crianças não podiam brincar nas praças. Queriam trazer o recolher obrigatório, mas a gente não aceitou e continuou a fazer a nossa vida normal”, narra.
Apontando para a direita, indica a “Cidade da Polícia” — um complexo da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro que reúne 15 esquadras e que foi criado em 2013. “Eles vieram para aqui para tentar acalmar as favelas, porque diziam que isto era perigoso”, explica, acrescentando que não gosta do som dos tiros que às vezes se ouvem do edifício, onde funciona também uma escola de tiro. “A gente tem de viver com esta violência”, queixa-se.
Este edifício é, para Fátima Pinho, o símbolo de uma “dinâmica totalmente errada” nas políticas públicas da cidade. “Se fosse na Zona Sul [onde estão Copacabana e Ipanema], não haveria uma Cidade da Polícia. Dizem que foi criada porque há muitos traficantes [de droga] aqui”, assinala, sem deixar de criticar as forças de segurança: “Há muitas reportagens de polícias envolvidos com o tráfico e também vereadores, deputados e muita gente. E não se faz uma cidade da polícia”.
▲ Campo de futebol junto ao memorial na favela de Manguinhos
José Carlos Duarte
Existe, no entender da fundadora das Mães de Manguinhos, “muita desigualdade” dentro do Rio de Janeiro e também discriminação. “Para nós, tudo é complicado”, suspira, acrescentando: “Não há escolas de qualidade e muitos professoras estão com ansiedade”. No verão, quando vários adolescentes se deslocam à Zona Sul para ir à praia, conta que “apontam o dedo” aos moradores da Zona Norte se houver roubos. Concede, ainda assim, que “há quem apronte” e cometa crimes.
Fátima Pinho considera que os “adolescentes que cometem crimes” devem ser punidos: “Devem cumprir as consequências do erro que cometem”. Mas ressalva que isso não significa que “tenham de lhes tirar a vida ou prendê-los automaticamente”. “Temos de ajudar os adolescentes e tornar o sistema prisional mais educativo. Se houver uma melhoria, eles vão sair dali com mais incentivos para fazer algo da vida. Não é através da violência que isso se vai conseguir.”
Ora, a abordagem de Fátima Pinho está tradicionalmente alinhada com a esquerda brasileira e com Lula da Silva, que defende o foco na reabilitação para evitar a reincidência na prática de crimes. “Existe muita desigualdade e há muitos erros. Temos de consertá-los e depois fazer algo”, diz Fátima Pinho. “Isso de aumentar as penas… Será que isso melhora mesmo? O índice de mortalidade só aumenta”, expõe.
▲ Homenagem aos jovens mortos em Manguinhos
José Carlos Duarte
Numa pequena caminhada por uma rua com várias lojas até ao Memorial de Manguinhos, Fátima Pinho conta que é por ali que costumam passar os carros da polícia com “vidros fumados” quando há operações policiais. Junto ao pequeno campo de futebol, é ali que começam muitas buscas da polícia. Junto do Memorial — onde existe uma placa com os nomes de vários jovens mortos às mãos da polícia —, a mulher lamenta que muitos agentes das autoridades atuem “sem qualquer consideração”.
Neste contexto marcado pela violência, faltava, em 2013 quando o filho morreu, alguém que fizesse a ponte entre os moradores da favela e a Justiça. Que expusesse os abusos das autoridades. E é precisamente aí que entram as Mães de Manguinhos: “Este processo de entrar na Justiça… Nem todas as mães querem, porque têm medo. E o processo é demorado, mas continuamos sempre na luta”, frisa. Para si, era importante que — após a morte do filho — houvesse um sentido de justiça. E quis expandir isso, juntamente com a outra fundadora, Ana Paula, para todas as mães que sentissem isso.
Em parceria com outras instituições, o projeto entretanto expandiu-se e tem também uma plataforma de “acolhimento” e “psicólogos”. Além disso, existe uma sensação de comunidade entre as mulheres que o integram: “É um processo complexo. Não é só lidar com a perda, é lidar com essa dificuldade jurídica. A gente quando é acolhida tem como desabafar com outras mães que passaram pelo mesmo processo. Ela vai entender a nossa dor muito melhor do que outras pessoas. Ninguém entende a dor da perda com que lidamos”.
"Este processo de entrar na Justiça... Nem todas as mães querem, porque têm medo. E o processo é demorado, mas continuamos sempre na luta."
Fátima Pinho
Rildo Anjos. Os prejuízos na escola de tiro e a defesa de penas mais pesadas
No escritório de Rildo Anjos, no clube de tiro em Niterói, há vários diplomas pendurados atrás da sua secretária. Na estante à sua direita alinham-se diversos livros. Um deles tem um título sugestivo: Mentiram para Mim Sobre Desarmamento. “Quer que eu lhe empreste?”, sugere o empresário. É neste espaço que desenvolve o seu trabalho de consultor e analisa a situação atual da segurança no Rio de Janeiro.
Rildo Anjos tem acompanhado ativamente a política brasileira. Teme uma nova vitória de Lula da Silva, não apenas por uma questão ideológica — também pelo futuro do clube de tiro. Em 2018, com Jair Bolsonaro no poder, o ex-Presidente liberalizou o mercado de armas, tornando o acesso consideravelmente mais simples. Quatro anos depois, o atual chefe de Estado voltou a adotar medidas bastante restritivas neste âmbito — o que teve impactos no negócio do empresário em Niterói.
“Eu sou empresário. Cheguei a ter 12 funcionários, hoje tenho quatro”, revolta-se. As restrições impostas durante o mandato do atual Presidente brasileiro levaram-no a acumular prejuízos financeiros. “Estou a pôr recursos próprios para manter o meu negócio. É muito difícil. Há vários comércios deste tipo a fechar”, lamenta. “Este prédio não é meu, tenho de pagar aluguer. E manter esta luz acesa, manter a água a correr, é muito difícil.”
▲ Fachada do clube de tiro em Niterói onde Rildo Anjos trabalha
José Carlos Duarte
Se Lula da Silva vencer no próximo domingo, Rildo Anjos prevê que o Presidente “vai apertar ainda mais o sistema” contra as armas. A vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) pode mesmo levá-lo a encerrar o negócio: “Já comentei com a minha esposa: ‘Vamos embora daqui [do Brasil]. Vamos ser nómadas'”. “O que estou aqui a fazer? Acha que o meu negócio vai continuar? Que as empresas de segurança vão sobreviver? Não vão”, prevê.
Realçando ao longo da conversa que não é um “extremista”, o militar na reserva explica o seu posicionamento sobre a posse (manter uma arma em casa ou no local de trabalho) de que é a favor e o porte (transportar essa arma). “Sou 100% a favor do porte de arma? Não, 100% não. Aí eu acho que é preciso limitar algumas coisas. Vamos armar toda a população? Eu acho que isso aí começa a apresentar um problema. Mas eu acho que quem quisesse e tivesse preenchido os critérios que fossem estabelecidos, aí eu não veria problema algum”.
“Quanto à posse, eu acho que cada um deve ter a sua arma dentro da sua casa, do seu estabelecimento comercial, e fazer o uso dela quando o Estado não puder intervir, usando-a de forma moderada perante uma injusta agressão ou em legítima defesa”, prossegue. Para fazer face à falta de resposta das polícias, Rildo Anjos não vê problemas em flexibilizar a posse de armas. Questionado sobre possíveis acidentes, o empresário desvaloriza e recorre a uma comparação simples: “Toda a gente usa faca de cozinha e, às vezes, corta-se”.
▲ Rildo Anjos é a favor da posse de arma regulada
José Carlos Duarte
Apesar de ser a favor da flexibilização, também não deixou de criticar o Governo de Jair Bolsonaro, que liberalizou e deu permissão a que cada pessoa pudesse ter “até 30 armas”: “Acho desnecessária essa quantidade de armas”. Mesmo que isso pudesse trazer lucros ao seu negócio, considera que poderia “virar a cabeça” de muitas pessoas, criando-se o risco da criação de “negócios paralelos” no armamento.
Mesmo assim, a ideologia de Rildo Anjos é bem mais próxima da de Jair (e Flávio) Bolsonaro do que da de Lula da Silva, a quem atribui a culpa pela criminalidade atual no Brasil, principalmente pelas saídas de prisioneiros da prisão por bom comportamento. Designada “saidinha”, o atual Presidente brasileiro defende esta abordagem, que é bastante criticada pela oposição e por Flávio Bolsonaro.
“A gente tem um Presidente da República que não consegue entender a questão da saída temporária de presos. A família que perdeu o ente querido num crime ou num assalto fica como ao vê-lo sair da prisão mais cedo?”, questiona. “Se não quisesse estar preso, não cometesse o crime”, argumenta, recusando a tese de que a prioridade do sistema deve ser a reabilitação e a reintegração na sociedade.
"O criminoso, ao saber que na casa que ele pode roubar pode ter alguém armado, ele não vai entrar na casa de ninugém. Isso é positivo. Isso pode ser negativo? Pode, mas existe sempre o risco."
Rildo Anjos
Para Rildo Anjos, nas favelas do Rio de Janeiro, o Estado praticamente desapareceu — o que deu azo a que as milícias se apoderassem desses territórios. E isso é, acredita, também culpa de Lula da Silva. “A segurança pública vai muito além de prender, soltar ou neutralizar criminosos. A segurança pública começa com políticas de Estado básicas. O Estado tem de entrar com a polícia e depois com os serviços essenciais: educação, alimentação, saúde, certo? Quando isso não acontece, os territórios são dominados pelas milícias e pelo tráfico”, enfatiza.
O Governo brasileiro, acredita, não tenta combater o fenómeno. Em vez disso, vê no processo uma “troca”: o Estado prefere não enfrentar certas comunidades onde o crime prospera em troca de votos em eleições. “É uma espécie de distribuição”, classifica. “As pessoas que moram em comunidades mais pobres são aliciadas a votar no candidato Lula”, alega Rildo Anjos, que acredita que existe um sistema perverso que permite ao crime continuar a prosperar.
▲ Rildo Anjos deixa várias críticas à atuação de Lula da Silva na área do crime
José Carlos Duarte
Em Niterói, o dono do clube de tiro não está contente com o rumo do país, nem com o do seu negócio — que acredita que vai piorar se Lula da Silva for reeleito. Em Manguinhos, com a vitória de Douglas Ruas (aliado do bolsonarismo) para governador do Rio de Janeiro e a possível chegada ao poder de Flávio Bolsonaro — que Fátima Pinho está convicta de que vai acontecer, mesmo votando em Lula —, a ativista também se mostra apreensiva quanto à forma como as favelas serão tratadas no futuro. A vida destas duas pessoas não podia ser mais diferente, mas a forma como o poder político aborda a segurança e o crime tem impactos profundos em ambas.
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