Futebol está doente? Atletas e técnicos expõem relação tóxica com o ambiente digital
Nas últimas semanas, ganhou repercussão nacional os desabafos de dois profissionais de grandes clubes brasileiros. O técnico Luís Castro, do Grêmio, afirmou de forma contundente, após a derrota para o Red Bull Bragantino, sobre a agressividade por qual se passa o meio esportivo.
“Há várias formas de criticar o trabalho de um treinador, não é preciso ofendê-lo, porque acho que a ofensa é algo que não deve fazer parte, sou contra, ponto (...) Vocês não podem, eu não posso viver do futebol tratando mal o futebol, vocês não podem viver do futebol tratando mal as pessoas do futebol. Isso não pode existir. As pessoas não podem ser agressivas e ofensivas com ninguém, ainda mais aqueles que vivem dentro do futebol”, disse em coletiva de imprensa.
O treinador fez coro com o compatriota Abel Ferreira, do Palmeiras, que havia dito que o "futebol está doente". Castro foi além e disparou: "Não é o futebol que está doente, são as pessoas que estão doentes". Ambos reclamam constantemente da falta de empatia e dos ataques desmedidos de torcedores.
Não é a primeira vez que isso acontece, pelo contrário. Em 2024, o técnico do Bahia, Rogério Ceni, aproveitou a entrevista coletiva após a vitória sobre o Flamengo, por 1x0, para criticar a postura de torcedores nas redes sociais.
"Tem alguns jogadores que, por nome, eles não agradam mais as pessoas. E eles já são execrados antes mesmo na escalação. Sempre tem um ou outro que vai lá, escreve um monte de babaquice na rede social. Terra de ninguém, né? E aí esses jogadores já são julgados, pré-julgados, antes de começar o jogo, sabe? E, na vida, a gente tem que dar chance às pessoas pra valerem. Ah, pode ser que eles falhem no futuro. Pode ser, faz parte da vida, com todos nós, né?", disse.
No mesmo período, Renato Gaúcho, até então no Fluminense, havia seguido uma linha parecida. “Eu dei uma entrevista há uns dois meses e hoje estou repetindo: acabou o futebol por causa das redes sociais. Tanto para o jogador quanto para o treinador. Hoje em dia é uma guerra de críticas. Quando ganha tem alguns elogios, quando perde ninguém é bom, todo mundo é ruim. O futebol está caminhando para um caminho que, infelizmente, todos nós estamos perdendo. O futebol está acabando. Está no finalzinho. Essa é minha opinião.”
Em agosto de 2025, após a eliminação para o Atlético-MG, pela Copa do Brasil, o técnico Filipe Luís, do Flamengo, fez um forte desabafo na coletiva de imprensa. “As cobranças do torcedor do Flamengo, rede social eu nem comento, é uma selva. Se você se guiar pelas redes sociais, não está a verdade ali. Estão pessoas colocando tudo para fora", disse.
Sempre foi assim?
“A pressão sempre fez parte do futebol, mas a forma como ela chega até nós mudou. Hoje, atleta e treinador terminam uma partida e encontram imediatamente milhares de opiniões, cobranças e, muitas vezes, ofensas. Precisamos saber separar a crítica, que faz parte da profissão, da agressão. A cobrança pertence ao futebol; a violência, não", comenta Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
Os desabafos não estão restritos aos treinadores, e são varíos os exemplos relacionados a jogadores. Quando o meia Philippe Coutinho deixou o Vasco, em 2025, ele enviou uma carta de despedida e chamou a atenção um dos trechos, em que cita: "Ser julgado por inúmeras pessoas por algo que não faz parte do meu caráter é difícil demais".
A relação parece cada vez mais tóxica entre atletas e o ambiente digital, seja por meio de posts em redes sociais ou comentários dos inúmeros influenciadores que hoje acompanham quase de 24 horas a rotina dos times e elencos.
Em maio deste ano, o zagueiro Matheus Dória, do São Paulo, revelou ter recebido graves ameaças de morte. Os ataques virtuais foram direcionados a ele e sua família nas redes sociais após falhas em jogos.
Em 2022, o goleiro Cássio, então no Corinthians, e sua esposa, receberam mensagens de áudio com xingamentos e fotos de armas de fogo e balas sobre a camisa do clube. O criminoso exigia a saída imediata do jogador. O caso foi parar na delegacia especializada contra a intolerância esportiva.

Cassio, então no Corinthians, sofreu ameaças de torcedores (Photo by Gledston Tavares/Eurasia Sport Images/Getty Images) (Gledston Tavares/Eurasia Sport Images/Getty Images)
No mesmo ano, o meia-atacante Willian e suas filhas sofreram duras intimidações virtuais enquanto ele atuava pelo Grêmio. O clima hostil na internet e o medo pela segurança da família foram fatores decisivos para o jogador rescindir o contrato e deixar o futebol brasileiro.
Naquele ano, Diego Ribas, Rossi e Marcelo Cirino, em um movimento conjunto de lideranças e atletas de clubes como Bahia e Flamengo, usaram seus perfis oficiais para lançar um manifesto virtual pedindo segurança. Eles expuseram o medo de que a violência das redes sociais se transforme em agressão física nas ruas.
Reação das redes
A pergunta, de fato, é: as redes sociais acabaram com o futebol? E qual a receita para tentar conviver com elas, afinal, as plataformas são importante meio de comunicação com o público e, mais do que isso, pode representar novas fontes de receitas e parcerias se bem utilizadas.
“É lamentável que comentários maldosos possam alterar a trajetória de um profissional, mas é importante reconhecer que isso é um efeito colateral da nova forma de consumir e monetizar futebol. Antes, o técnico era chamado de burro no estádio e aquilo passava no dia seguinte; hoje, a crítica fica registrada, circula em escala, pauta a imprensa e impacta patrocinadores. Esse é o preço da hiperexposição digital: ao mesmo tempo em que ela acelera pressões, também gera conexão com a torcida e novas oportunidades de receita. O desafio dos atletas e treinadores atuais é saber administrar esse ambiente com apoio psicológico, comunicação profissional e uma gestão estratégica da própria imagem", explica Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM.
Existem outros tipos de comportamentos contrários às críticas digitais, como no caso do zagueiro do Flamengo, Léo Ortiz, que em julho de 2025, explicou porque desativou as redes sociais ao fazer o gol da vitória sobre o Atlético-MG.
"Não ligo para críticas da parte tática, de jogo. Zero problema com crítica. Mas achei que algumas pessoas começaram a trazer uma energia negativa, flamenguistas que acabam jogando mais contra o Flamengo e contra os jogadores, relacionando meu peso a um passe errado. Se eu tivesse feito um gol, ninguém falaria isso. Por isso desativei. Mas isso não me abalou", comentou.
Na temporada passada, o meia Luiz Gustavo, do São Paulo, revelou não ter mais redes sociais devido às fortes críticas e ameaças sofridas após a Copa do Mundo de 2014, quando o Brasil perdeu de 7x1 para a Alemanha.
Indo um pouco mais longe, o atacante Paolo Guerrero, ídolo corintiano ao fazer o gol do Mundial de Clubes contra o Chelsea, em 2012, também teve que excluir seu perfil no Instagram, em 2015, depois de ter sido atacado por torcedores do próprio Corinthians no imbróglio que envolveu sua saída do clube.
Não é só no futebol, aliás, que isso acontece. Nas Olimpíadas de 2024, em Paris, o perigo das redes sociais foi transformado em evidência pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que após a competição, divulgou um relatório tendo detectado mais de 8.500 posts de abuso e ataques virtuais contra os competidores.
Também há mais de dez anos, em 2012, um dos casos mais emblemáticos foi o da judoca Rafaela Silva, que inclusive sofreu ofensas racistas após ser eliminada nos Jogos de Londres.
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