Novo centro de interpretação do Estado Novo no Vimieiro

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O que é que tu disseste, Paulo? Isso vira um frango?
Não.
Não. Queres saber mesmo?
Quero. Estamos a falar sobre a temperatura.
Se eu soubesse que estava assim tão quente, tinha trazido o frango e punha-o aqui a assar. Foi isso. Pronto.
Eu ouvi falar em frango, afinal. Estou a ouvir. É comunicação.
Convite seletivo para comida.
Sem dúvida.
Traz os auscultadores, mas continuam a ficar fora.
Física. Vamos falar de animais. Quem os tem?
Frangos.
Vamos continuar a falar de animais.
Quem os tem, nem as paredes confessam.
Estes são de estimação. Não sei se alguém tem um frango de estimação.
Há de haver, de certeza.
Há de haver. Quem os tem, por exemplo, nós, que temos gatos, Paulo, sabe perfeitamente. Ou tu, Carla, que tens um coelho. Tu também tens gato?
Eu tenho um gato e tenho um cão.
A minha coalha, tenho a certeza que se identifica como gato.
O meu gato identifica-se como gato.
Já apanhaste a miada.
Ela ronrona e dá uma rabada igual.
Vocês sabem que tentar tirar-lhes uma foto de jeito é uma missão impossível. Podes estar com a luz perfeita, o cenário ideal, e depois eles decidem fazer qualquer coisa.
Não é verdade. Tu consegues ótimas fotos da tua gata.
Da Laura. Sim, tem dias quando ela dá. Mas isto para falar de um avô japonês que se tornou um autêntico fenômeno na internet exatamente por causa disto. Ele só quer tirar a fotografia perfeita com os seus dois gatos, mas os bichos decidem sempre transformar cada sessão num caos absoluto. Vocês têm de ver este link que eu enviei. A história é maravilhosa. Ele leva os dois gatos a passear para cenários dignos de postal. São campos de girassóis gigantes, praias paradisíacas, jardins cheios de flores coloridas. O plano era fazer aquele retrato de família bonito e emocionante, só que no momento em que ele tira a câmera, começa a loucura. Em vez de posarem, os dois gatos começam a dar patadas um no outro, a fazer aquelas caras dramáticas e ferozes. O melhor disto tudo é que em todas as fotos, no meio daquela confusão de patas no ar, garras de fora, dentes prontos para atacar, o avô parece, ao fundo, a sorrir de orelha a orelha, a divertir-se imenso com aquilo tudo. E é isto que tornou as fotos virais e que estão por todo lado, porque mais do que o caos cômico dos animais, o que se vê ali é aquela imagem de um idoso a aproveitar as coisas mais simples da vida ao lado dos seus companheiros de quatro patas. A conta original do Instagram do avô japonês é @catwolf0314, e os seus dois gatos chamam-se Chouchou e Miku. O último post que foi feito sobre esta história, numa conta sobre viagens, destinos e curiosidades, já tem mais de 2 mil comentários sobre estas fotos e 24 mil republicações. Portanto, pessoas que estão a replicar.
Estou a espreitar. É fabuloso, é maravilhoso. Há umas em que os gatos até estão bem, mas é a exceção à regra.
É mesmo quando eles não estão.
Só se veem tufos de pelo branco.
Sim, dois gatos brancos ferozes e ele a rir-se muito.
Muito bem. Vamos agora viajar para mais perto, viajar no tempo e no espaço, porque o Centro Interpretativo do Estado Novo, Regime e Resistência está a abrir. Está situado, obviamente, no Vimieiro, em Santa Comba Dão, na terra natal de Salazar. E surge como um espaço de reflexão histórica e pedagógica sobre os 48 anos da ditadura e do salazarismo em Portugal. Está instalado na antiga Escola Cantina Salazar e o projeto resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e a Associação Cultural Efémora, liderada por Pacheco Pereira. E o objetivo é documentar e analisar rigorosamente o período antidemocrático, o período da ditadura, isto sem cair na apologia ideológica. Foi instalado propositadamente no concelho onde nasceu o ditador e procura transformar a memória local num local de aprendizagem crítica. Em vez de atuar como memorial, a iniciativa pretende desmistificar o regime autocrático, contextualizando o surgimento, o contexto que levou ao surgimento do Estado Novo, as suas doutrinas políticas e o impacto do autoritarismo na sociedade portuguesa ao longo de uma grande parte do século XX. O acervo e as exposições do centro dedicam particular atenção aos mecanismos de controle social, à repressão política, à censura, que acabam por sustentar o regime e através de documentos históricos, jornais cortados, por exemplo, pela Comissão de Censura, cartazes de propaganda, registros das ações da polícia política, da PIDE. Os visitantes podem ser confrontados, de facto, com a realidade da privação das liberdades fundamentais, que foi uma marca fundamental da vida cotidiana sob a ditadura. Em simultâneo, o centro destaca também o papel crucial da oposição e dos movimentos da resistência civil e clandestina. É dado espaço à memória de presos políticos, dos intelectuais perseguidos, dos movimentos estudantis, das forças democráticas que lutaram contra o regime, pela liberdade, culminando, obviamente, na revolução de 25 de abril de 74, e garantindo também uma perspectiva equilibrada entre o funcionamento do regime e a luta contra ele. É aquele caminho que pode ser criticado, certamente, e estes projetos são muitas vezes criticados porque podem ser acusados de fazer a apologia de um regime. Há o cuidado de isso não acontecer neste espaço em Santa Comba Dão. Portanto, a ideia é evitar que o espaço se transforme num polo de peregrinação saudosista.
Quase um local de culto.
Um local de culto ao regime ou ao seu líder, a Salazar, mas também evitar que seja um tribunal ideológico. Vai haver colóquios, atividades educativas dirigidas a escolas, investigações documentais e o centro pretende incentivar o debate sobre a preservação dos valores democráticos e os perigos do autoritarismo. E eu diria que a memória, a perpetuação da memória e trazer informação sobre aquilo que foi o regime para as gerações novas, que não contactaram diretamente com ela, são essenciais para isso. Portanto, está no Centro Interpretativo em Santa Comba Dão. É ali perto de Viseu.
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