"A ideia é ir até à Malásia. Depois logo se vê"

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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana trabalhou uma vida inteira, até que aos 61 anos decidiu que já chegava. Vendeu a empresa de táxis de Braga, arrendou a quinta onde criava animais e fez-se à estrada em cima da sua moto, a Papa-Léguas. Num primeiro momento, para uma viagem pela Europa, andou seis meses pelo velho continente, foi a 45 países, rolou 34 mil km. Em abril deste ano, lançou-se numa aventura ainda maior. Saiu de Braga rumo à Ásia. Qual é o plano? É o que pergunto ao Leonel Ferraz. Viva, Leonel.
Ora viva.
Qual é o plano?
O plano inicial é chegar à Malásia.
E depois?
E depois logo se verá.
Não é nada. Tens todo o tempo do mundo, não é?
Tenho. Enquanto estiver vivo e com forças, é para fazer o que gosto de fazer.
Muito bem.
Mas depois da Malásia, não sei. Tudo depende dos apoios que eu consiga para continuar a viagem.
Ok, porque tu estás a viajar e estás também com um crowdfunding activo, não é?
Não, não tenho nada activo.
Não tens nada?
Não, houve um grupo de amigos que se lembraram de me desafiar, já que fiz meio mundo, fazer outro meio e lançar-me alguns desafios. Vamos ver.
Muito bem. Onde é que estás agora?
Eu agora estou no Japão.
Ya!
Estou no Japão há quatro dias.
Estás a gostar?
Estou a gostar. Foi no Japão que me senti pela primeira vez.
Então por quê? Com o quê? E por quê?
Teoricamente, as motos não podem fazer estacionamento. Quando cheguei a Hiroshima ontem, com calor de cerca de 30 °C, 32 °C, não consegui arranjar sítio para parar a Papa-Léguas.
A moto, sim.
Cinco horas à procura de um sítio para estacionar a moto.
Cinco horas?
Não havia sítio.
Uau!
Cinco horas.
Grande. Conseguiste.
Estava quase a ir embora. Como é que eu consegui? Pus num sítio onde não podia. Lançado.
E rebocaram-te a moto ou nem por isso?
Não, não me rebocaram. De manhã estava lá no mesmo sítio.
Ok. Saíste de Braga em abril, no dia 19 de abril. Já vais aí no Japão, já atravessaste meio mundo. Conta lá como é que tem sido a viagem até agora. Saíste de Braga e atravessaste a Europa toda de soprtão.
Atravessei a Europa toda.
Foi?
Foi quase de soprtão. Porque já tinha viajado na Europa no ano passado, já não tinha nenhum país que fosse novidade para mim. Então passei a Europa mais ou menos rápida.
Rápido. E depois, onde é que começaste a viajar mais devagar?
Passei dois dias ou três em casa de amigos, mas à parte disso foi sempre a andar.
Ok. Onde é que começaste a viajar mais devagar, Leonel?
Na Turquia. Já tinha estado na Turquia, mas só tinha estado em Istambul e espero nunca mais ter que ir a Istambul.
Por quê?
Foi uma cidade horrível.
A maior parte dos viajantes diz o contrário, diz que é uma cidade lindíssima. Se calhar não para os motards.
Todos temos opiniões diferentes. Eu no ano passado apanhei uma esfrega muito grande, porque o objectivo era visitar 46 capitais. Acabei por visitar só 44, mas as capitais são sempre as maiores cidades de cada país e fiquei cansado de cidades.
Já vamos esmiuçar essa viagem do ano passado pela Europa, mas vamos voltar à viagem que tu estás a realizar agora, cujo objetivo primário é levar-te à Malásia e depois logo se vê. Portanto, tu fizeste a Europa toda e depois onde é que entraste na Ásia? Foi em Istambul? É isso?
Não, não passei por Istambul. Passei a sul de Istambul.
Ok.
Evitei Istambul ao máximo, fiz mais quilómetros, mas não entrei por Istambul.
Depois fizeste a Turquia toda, foi?
Fiz a Turquia toda, um país fantástico. Muitas montanhas, mas poucas estradas entre montanhas, o que não é muito do meu agrado, porque eu evito vias rápidas, não utilizo autoestradas, só em último caso, e prefiro estradas de montanha.
Por quê, Leonel? São mais bonitas, é isso?
São mais bonitas, dão mais prazer de condução.
Gostas daquele serpentear, é isso?
Gosto de bailar com a moto.
Muito bem. E portanto, a Turquia propicia grandes bailados.
A Turquia não proporcionou grandes bailados.
Aham.
Tem estradas pelo meio das montanhas, mas tudo muito rápidas. Quase todas as estradas são rápidas, não são estradas do meu agrado.
Pois, portanto, da Turquia subiste então ali.
Da Turquia fui à Geórgia.
À Geórgia, ok. Portanto, subiste ali aquela zona montanhosa entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, não é?
Sim. Estive na Geórgia uns dias. Tive uns dias também na Arménia.
Ok.
Gostei muito da Arménia. Um país que eu recomendo, é um país barato, assim como a Geórgia, mas é um país muito seguro.
E depois subiste e entraste então já na Rússia, é isso?
Depois entrei na Rússia.
Atravessar a Rússia Tranquilo, não tiveste nenhum problema, Leonel?
Eu não tive problemas nenhuns.
Até agora, foi sempre a andar.
Alguns problemas mecânicos, mas isso faz parte.
Ok.
Viajar na Rússia não é fácil neste momento. Exceto para mim, que eu sou uma pessoa com muita sorte. Eu ao terceiro dia tentei comprar um cartão SIM, porque não há nenhum eSIM que trabalhe na Rússia. Tentei comprar um eSIM. As empresas de telefone só vendem eSIMs com o passaporte russo.
Ok.
Portanto, a maior parte dos viajantes não consegue ter acesso a telefone, internet, essas coisas todas.
E tu conseguiste, foi?
Eu consegui, como te disse, eu sou uma pessoa com muita sorte. E ao terceiro dia conheci um grupo de motociclistas, que um deles me ofereceu um cartão telefónico, eSIM. E a partir daí, andei três meses na Rússia, sempre com internet. Exceto naquelas horas críticas, que eu chamo de as horas das abelhas, que era quando a internet móvel era cortada para dificultar os drones.
Ah, ok. Mas viste drones a passar por cima de ti, não?
Não, não vi nada.
Não viste nada, ok.
Nada.
Ok. Chegaste a atravessar também e a entrar no Cazaquistão, por exemplo, ou não?
Não.
Não fizeste a Rússia toda lá para cima.
Eu fiz da Geórgia até Moscovo, porque eu queria ir a São Petersburgo. Em Moscovo, deixei ficar a moto numa oficina para meter pneus e fazer mudanças de óleo, uma pequena revisão, e fui de comboio até São Petersburgo. E voltei de São Petersburgo para Moscovo de comboio e daí segui em direção ao Cazaquistão. Um dia antes de chegar ao Cazaquistão, recebi uma mensagem de um sérvio que vive na Áustria, com quem viajei durante uma semana na Turquia, desde o sul da Turquia até à Geórgia, dizendo para não ir ao Cazaquistão, porque ele tinha ido ao Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, que era o que eu queria fazer também, mas quando quis regressar à Rússia, não o deixaram regressar e cancelaram-lhe o visto definitivamente. Eu não podia correr esse risco.
Pois.
Já não entrei no Cazaquistão. Já não saí da Rússia.
Ok.
Já não fui ao Cazaquistão, mas aí nasceu outro problema. Talvez o problema mais complicado até à data.
Que foi?
Falta de acesso ao dinheiro.
Ah.
Na Rússia, os estrangeiros não têm acesso às suas contas, não conseguem levantar dinheiro, porque devido aos embargos, a Rússia está fora do sistema bancário mundial.
Então como é que fizeste?
Não sei, é tal coisa, sou um gajo de sorte.
Ofereceram-te dinheiro, foi?
Não. Não me ofereceram dinheiro, mas resolveram o meu problema de dinheiro. Então eu liguei para a Olga. A Olga é uma senhora que trabalha na agência de viagens, em Lisboa, que me tratou do visto. "Olha, eu agora estou assim nesta situação, eu estou sem dinheiro". "Não, Leonel, eu mando o dinheiro. Se arranjares aí alguém de confiança, eu mando-te o dinheiro. Tens problemas nenhuns e depois eu faço contas".
Mas mandou o dinheiro como? Dinheiro dentro do envelope?
Não, como ela é russa.
Ela tem acesso ao sistema bancário russo.
Ela tem acesso ao sistema bancário russo.
Então fez uma transferência?
Da Rússia pra Rússia.
Ok. E lá tu atravessaste a Rússia com dois milhões de rublos em cada bolso, foi?
Não. Nada disso. O problema é que não havia ninguém a quem eu pudesse pedir para conhecer ela.
Ah, caramba.
Não havia ninguém. Fui falar com o gerente do hotel, ou do hostel, e neste caso, ele disse logo que não. E a solução era andar 1650 km para trás.
Ih, caramba.
Para ir à casa do filho, levantar dinheiro, buscar dinheiro. E depois voltar. Não fiz. A minha estrelinha está sempre presente.
E então?
E no hostel, naquela noite, entrou um russo que falava muito bem inglês e estávamos a falar sobre isso, sobre a minha viagem, depois falámos sobre esse problema. Eu disse que provavelmente tinha que ir,já não me lembro do nome da cidade, mas é uma cidade referência na produção de caviar, que ficava a 1650 km. Eu disse: "Rapaz, isso não faz sentido". Não faz sentido nenhum, pois não. Não faz sentido pra ti, nem pra mim. Mas se quero continuar a viagem, vai ser a única maneira de o fazer. Eu disse: "Não, espera aí. Vamos arranjar aqui uma solução". E então ele teve a ver e descobriu que o Sberbank da Rússia tinha cartões de carregamento, aqueles cartões que também há em Portugal, para estrangeiros. E eu só precisava de ter número de telefone russo. Tinha. Desde o terceiro ou quarto dia que tinha número de telefone russo. "Amanhã, vais ao Sberbank e tratas disso que tu vais ver". Olha, dito e feito.
Boa, muito bem.
Cinco estrelas.
Boa.
Fiz três meses na Rússia com esse sistema. Eu ligava à Olga e depois apareceu mais um casal de russos que me seguem no Facebook a oferecerem também a mesma vantagem. Então era muito fácil, eu mandava-lhes dinheiro por MB Way, que temos em Portugal, e eles transferiam, não por MB Way, mas por outro MB Way russo, para o meu cartão. E assim viajei.
E assim atravessaste a Rússia até Vladivostok, foste mesmo até à pontinha.
Fui até à pontinha.
Caramba. Ias dormindo onde?
Foram três meses menos oito dias. Não, menos seis dias. Três meses.
Ias dormindo onde? Suponho que há zonas onde-
No início eu dormia em hostels, em hotéis, mas depois um seguidor do Facebook informou-me e enviou-me por mensagem um mapa, um site que motociclistas individuais e clubes de motociclistas disponibilizavam dormida e às vezes muito mais do que dormida, chamados bike post, em que tinhas sempre uma cama e também tinhas sempre chá ou café. Alguns deles, senão a grande maioria, deram-me de jantar e deram-me pequeno-almoço.
Portanto, dormiste em motoclubes espalhados pela Rússia.
Em motoclubes, sim, pela Rússia.
Tinhas alguma expectativa inicial em relação à Rússia, Leonel?
Não, eu confesso que ao fim de 60 anos ouvi falar mal da Rússia e dos russos. Entrei com algum receio na Rússia, mas era a única hipótese. Para chegar à Malásia, teria que ser pela Rússia, porque o Irão tinha entrado em guerra. Confesso que não entrei na Rússia muito confortável. Foram muitos anos ouvindo falar mal dos russos, mas a minha opinião acerca dos russos deu uma volta completa. Logo na primeira noite, apercebi-me logo que os russos não eram nada daquilo que nós ouvimos em Portugal e na Europa e provavelmente nos Estados Unidos. É tudo falsa propaganda, falsas informações.
É a velha história. Os governos não fazem os povos.
Não, não é só isso. Não é só os governos, porque eu lembro-me que dois meses antes de sair de Portugal, vi uma declaração de um motociclista em Portugal, numa entrevista também de uma rádio qualquer, dizer que quando chegou à Rússia, que foram logo ter com ele, que lhe disseram: "Tem cuidado, vocês vão ser assaltados, vão vos roubar as motas, tenham cuidado, nós vamos vos dar proteção". Isso é mentira. Eu imensas vezes deixei ficar o capacete em cima da moto. Imensas vezes. Inclusive o telemóvel. A Rússia é um país seguro, ninguém me roubou nada. Nunca houve uma tentativa de me roubarem o que quer que fosse. Nunca fui intimidado, bem pelo contrário, fui recebido sempre de braços abertos, era abordado na rua quando falava em inglês, quando ia, por exemplo, ao telefone a falar inglês, as pessoas abordavam-me na rua, querendo me conhecer, querendo me perguntar se eu precisava de alguma coisa. É claro, sempre com a ajuda do telemóvel, porque a maior parte dos russos não fala inglês. Mas é tudo falsa informação que nós recebemos sobre o povo russo. Estamos a falar do povo russo.
Do povo russo, sim.
Não estou a falar de políticas nem de governantes.
Claro. Tu já levas quase seis meses de viagem. Diz-me uma coisa, a solidão sente-se ou não?
É muito raro. Eu nunca estou sozinho, a não ser quando estou a viajar, quando estou na moto, mas depois eu não fico em hotéis, eu fico em hostels. Nos hostels conheço sempre gente. Os hostels têm essa vantagem.
Há muita gente, não é?
Há muito calor humano nos hostels, ao contrário dos hotéis. Os hotéis são horríveis.
É mais frio.
Fechas o quarto e é muito frio. Aliás, eu sempre disse que a pior noite que passei o ano passado, o pior sítio onde dormi o ano passado, foi num hotel cinco estrelas, a convite de um amigo, que me ofereceu o hotel e fez questão que eu ficasse, mas foram duas ou três noites horríveis. Não faltava nada, mas faltava tudo.
Faltava o calor humano. E é giro, porque se nota que tu és, desculpa a expressão e o plebeísmo, um tipo simpático. Tens esse ar bonacheirão com barba comprida e nota-se que fazes bons amigos ao longo da viagem. É isso?
Faço. Tenho feito grandes amigos, principalmente na Rússia e quando terminar esta viagem, quero voltar à Rússia de comboio no inverno.
Yes.
E visitar todas as pessoas, todas as cidades por onde passei, porque realmente-
Vale a pena, não é?
Fiquei apaixonado por aquela gente.
Muito bem. Leonel, estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Leonel, guardas contigo algum objecto que tenhas trazido da tua viagem?
Guardo, sim senhor.
Guardas? Vá lá.
Guardo, sim senhor. Não é um objecto, é um peluche.
É um peluche?
É um ursinho de peluche.
Um durão da Harley Davidson tem um peluche.
É um peluche da Harley Davidson, exatamente. Na viagem do ano passado, quando eu estava a sair, a Nininha ligou-me: "Já saíste de Braga?" Eu disse: "Não." "Então passa por minha casa que eu tenho aqui uma prenda pra ti." "Está bem." Fui lá a casa da Nininha e do Camilo e eles tinham um ursinho de peluche que viajava sempre com eles quando viajavam. Eles também foram grandes viajantes. Viajaram sobretudo nos Estados Unidos e também na Europa, grandes viagens também. E eram sempre acompanhados do peluche, portanto, eu trouxe o peluche. Desta vez também trouxe, mas entretanto o fato começou a se desgastar e como a segurança acima de tudo, ele não tem fato de couro, o fato de couro rasgou-se, portanto, está na mala, mas vai sempre comigo.
Muito bem. Tem nome esse peluche?
Não.
Não. Tens que o batizar. Pronto, é a tua missão japonesa. Tens que batizar esse peluche. Olha, Leonel, vamos fazer aqui uma curta pausa na nossa conversa. Regressamos já a seguir para falar do que te espera ainda nessa longa viagem que tu estás a fazer nesta altura e para falar um pouco da tua última ou da tua viagem grande que fizeste pela Europa em 2025. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana estamos a conversar com o Leonel Ferraz. O Leonel é de Braga, deixou tudo, vendeu a empresa de táxis, arrendou uma quinta que tinha com animais e fez-se à estrada. Ele está a caminho da Malásia. Já fez meio mundo. Leonel, por que decidiste parar de trabalhar, vender o teu negócio para te lançares nas viagens?
Tem tudo a ver com a perda repentina de alguns amigos, outros a ficarem doentes e eu pensar: "Tenho 60 anos, ainda não fiz nada. Ainda não fiz nada, não conheço nada. Um dia destes toca-me a mim".
Tu viajavas? Ias viajando?
Não, nunca viajei.
Nem tinhas mota, pois não? Ou tinhas mota?
Tinha.
Ah, tinhas mota, ok. Mas não viajavas?
Não viajava. Eu conhecia Portugal, quando era mais novo fazia algumas concentrações, mas sempre com muito pouco tempo. Não tinha tempo pra viajar, nem tempo, nem dinheiro, a verdade seja dita.
E aos 60, como se costuma dizer, caiu-te a ficha e pensaste: "Isto vai acabar e eu não fiz nada".
Isto vai acabar e eu não fiz nada. Exatamente isso. Não há outra maneira, foi mesmo esse.
Sim, e decidiste fazer-te à estrada. E então, a primeira volta que deste foi à Europa, seis meses e meio?
Não. A primeira volta foi pra experimentar. Saí de Braga pra ir pra Vilar de Mouros, só que enganei-me no caminho. Andei por ela, tinha feito 1320 km entre Braga e o Algarve.
Sim.
Depois dei a volta. Já que estava no Algarve, vamos pra Vilar de Mouros. Dei a volta à península Ibérica e entrei em Vilar de Mouros pelo norte.
Boa.
Fiz 5030 km de Braga até Vilar de Mouros.
Caramba.
Sou 60. Da minha casa em Vilar de Mouros, sou 60.
Muito bem. Boa. E depois é que inicias então a tua primeira grande viagem de seis meses e meio, não é?
A primeira grande viagem. Foi a primeira.
Foi a primeira.
Foi a primeira grande viagem.
Foi uma aprendizagem, Leonel?
Sim, foi uma aprendizagem e ainda bem que tive problemas. Conheci gente fantástica, mecânicos fantásticos em vários países. Graças aos problemas que tive durante a viagem na moto, acabei por conhecer gente fantástica que nunca mais vou esquecer. Nunca mais vou esquecer os mecânicos da Albânia, por exemplo, que depois de me arranjarem a moto, ficamos todos bêbados. Era o mecânico, os amigos costumavam se juntar a ele no final do trabalho. Então cada vez que chegava um, trazia cerveja pra todos.
Pronto.
Claro. Eram 12, iam 13.
E no fim a moto ficou direitinha?
Não, a moto já estava pronta.
Ok. Ufa! Pronto. Olha, também é isso a viagem, não é? Também foi isso que te levou a querer viajar, Leonel.
Conhecer gente, pessoas Costumes, culturas, comidas, bebidas, hábitos.
O que mais te surpreendeu até agora? Não só nessa primeira viagem grande que fizeste pela Europa em 2025 e nesta que estás a fazer agora há já vários meses.
Não foi uma surpresa pra mim, mas é uma coisa que eu ouço todos os dias. Sempre que digo que conheci alguém espetacular. É que há gente boa em todo mundo. E eu, talvez, pela minha estrelinha, pela minha sorte, eu só conheço gente boa. Eu ainda não conheci, nas minhas viagens, ninguém que tenha razão de queixa.
Se calhar é isso. A maior parte do mundo é boa. E qual foi o sítio mais bonito que viste até hoje nessas viagens todas, Leonel?
Há países que eu adorei. Há uma cena que eu tenho que contar.
Conta.
Que foi quando estava a viajar de San Marino para Roma. Pelo meio das montanhas, parei pra fumar um cigarro e de repente vi uma cúpula, uma torre numa igreja. Parecia-me grande, mas no meio das montanhas. "Vamos lá ver o que é aquilo". Então eu me apaixonei pela cidade. Cidade de Urbino. E então eu fiquei apaixonado por Urbino, andei lá a passear. Eu nem sabia onde é que estava, mas estava deliciado com a cidade. Vi o turismo, entrei no turismo e estavam lá duas moças no turismo e eu perguntei: "Onde é que eu estou?" Ela me explicou: "Urbino, a cidade do Papa, uma das 10 cidades do Papa", não sei o quê, não sei o que mais. E eu, sem mais nem menos, com a minha boa disposição, perguntei-lhe, em inglês, claro, que eu não falo puto italiano. Perguntei: "É casada? Are you married?" E ela: "What?" " És casada?" E ela: "Sou, por quê?" "É que eu apaixonei-me pela cidade, se arranjasses aqui uma mulher, eu casava-me e ficava aqui pra sempre."
E o que essa senhora respondeu?
Respondeu que era casada, mas apresentou uma colega que não era casada, que era solteira, mas era muito nova, 18 anos. Gostei muito da Romênia. Romênia tem gente espetacular, gente boa. Romênia tem estradas fantásticas pra andar de moto. E também tem uma coisa que eu detesto. Tem muitos ursos.
Ursos?
Ursos. Eu fiz uma estrada.
Cruzaste com ursos?
Eu cruzei 19 só numa viagem.
Dezenove ursos?
Dezenove ursos na beira da estrada.
Quer dizer, é assustador, porque algum deles pode se atravessar no teu caminho, não é?
Atravessaram dois.
Atravessaram dois?
Atravessaram dois. E está gravado, por acaso. Mas 10 dias depois vi nas redes sociais que um italiano tinha sido morto por uma ursa, que eu me lembro de ter visto, porque apareceram as fotografias do local, que era uma fêmea que estava com três crias e por ser italiano, certamente não tinha juízo todo e parou pra tirar uma selfie com a ursa.
Isso nunca se faz.
Eu não faço.
Não faz.
Ele fez. Não posso falar não, ele fez.
Fala-se muito da Europa. Tu que fizeste esta viagem por tantos países europeus em tão pouco tempo, seis meses e meio, na tua moto. Ficaste com que ideia do continente onde nós moramos, Leonel?
Olha, eu fiquei com a triste ideia, não com a viagem que eu fiz o ano passado, seis meses, mas comparando com o que estou a viajar agora. Lamento dizer isto, mas a Europa está perdida.
Por quê?
Por quê? Não tem segurança. Começamos logo pelo principal problema. Não tem segurança. É muito difícil viajar na Europa. É tudo caríssimo. Eu posso te dizer, aliás, eu já disse, que eu na Rússia em três meses gastei menos do que gastava em casa, se tivesse ficado em casa.
Pois.
É tudo barato. É um país seguro. Quem diz a Rússia, diz Armênia. E felizmente eu nem tenho notícias da Europa, nem de Portugal, nem nada, nem quero saber de pois nada.
Pois.
Mas eu já comparo com o que era antes, quando saí, e com o que encontrei aqui. Não sei o que é que se tem passado, nem quero saber. Não estou minimamente interessado, porque eu estou bem aqui. Agora, realmente, é que é muito mais seguro se viver.
Sim. E sentes que estás noutro mundo, Leonel?
Sinto que estou noutro mundo já desde a Rússia.
Sim. Já sei que queres chegar à Malásia. Foste desafiado pelos teus amigos a fazer mais seis meses de viagem, fazer o outro lado do mundo. Isso já está a ser desenhado ou não, Leonel?
Está.
Qual é a ideia agora?
A ideia é tentar arranjar alguns apoios, quer pessoais, quer individuais, quer de algumas empresas, que queiram participar nessa viagem. Se isso acontecer, se eu conseguir reunir dinheiro para enviar a moto para a Argentina, e depois seguir da Argentina para o Alasca, junto ao Pacífico.
Atravessar as Américas todas, é isso?
Fazer as Américas todas, exceto o Panamá, tem que ser de barco Não há estrada. Se eu conseguir fazer isso, vou cobrar uma regra que tinha imposto a mim mesmo.
Então.
E sou capaz. Como a moto demora dois meses e meio, em princípio, desde a Malásia até a Argentina, sou capaz de ir até a Austrália trabalhar dois meses pra angariar algum dinheiro também. Não é só estar à espera que me paguem, também tenho que fazer pela vida.
Ok.
Portanto, é possível, e já tenho tido alguns contactos.
Boa.
É provável que vá trabalhar dois meses pra Austrália, pra agricultura, que eu tenho alguma prática disso, condução de tratores, o que quer que seja.
Ok. E quando a moto chegar à Argentina, aí vais tu.
Eu vou lá ter.
Muito bem. Então, olha, boa sorte. Estamos a chegar ao fim, Leonel. Vamos fazer checkout.
Vá lá.
Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...
Neste caso, o ursinho.
Ah, o ursinho. Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual foi?
Foi sair da Rússia. Passar a fronteira da Rússia para a Coreia.
Por quê? Pra Coreia do Sul. Tu não chegaste a ir à Coreia do Norte, pois não?
Não, Coreia do Norte não vou lá.
Não vais.
Pra Coreia do Sul. Porque fui alvo de um interrogatório durante duas horas.
Ih, caramba!
Para sair.
Sim.
Bastante curtido, porque tive que entregar o telemóvel, ligar o telemóvel ao computador, dar código de acesso, essas coisas todas. Mas quem estava a pesquisar o meu telemóvel não falava inglês, então estava uma colega dele, uma polícia também, que falava inglês, que traduzia as perguntas que ele fazia. Imagino, era o chefe dela. E então, perguntas completamente abstratas, que não levam nem ao diabo.
Sim, tais como?
Lembro-me de algumas, duas pelo menos, foram super hilariantes. Perguntaram se eu já tinha ido à Ucrânia. Eu disse: "Já, estive lá o ano passado". O gajo ficou assim a olhar pra mim: "Ué, no ano passado?". Disse qualquer coisa e ela perguntou: "Mas não tiveste medo da guerra?". Eu disse: "Não, por acaso, até quando estive em Kiev, vocês fizeram um ataque bastante violento. Na altura, foi o maior ataque que vocês fizeram até àquela data. E eu não tive medo. Por acaso, até foi uma das melhores sensações da minha vida. E se tivesse medo, também não vinha pra Rússia, que vocês também estão a ser atacados". O homem não gostou nada da minha resposta, ficou vermelho. E outra pergunta super estranha, que me fizeram, e que deu pra eu rir ainda hoje, foi que me perguntaram se eu tinha tatuagens e eu disse que não. Mas depois lembrei-me: "Não, tenho aqui uma". Levantei a manga da shirt e mostrei uma tatuagem minúscula, já com muitos anos, já com 33 anos, quase. E mostrei essa. E a mulher polícia que se apaixonou por mim.
Opa.
Por ter feito a viagem da Harley Davidson. Ela também era motociclista. E ele perguntou-lhe qualquer coisa e ela perguntou-me: "E por baixo da roupa, não tens mais nenhuma tatuagem?" E eu perguntei-lhe: "Queres que tire a roupa?" E ela respondeu: "Not here, not now". Partimo a rir como devem imaginar.
Esse é o malandraco.
Eu não, ela. Eu não. Not here, not now.
Not here, not now. Muito bom. A refeição mais estranha, qual foi?
É difícil. Quando cheguei à Coreia, era tudo muito estranho. Aliás, os intestinos demoraram quase uma semana a habituar-se à nova ementa.
Pois.
Era tudo muito estranho. Mas a mais estranha, por incrível que pareça, foi há dois dias. Cheguei a um sítio espetacular aqui no Japão, uma pequena aldeia, um hostel. Perguntei se havia sítio pra jantar ali perto. Ele disse que podia jantar lá. E então ele ofereceu-me o jantar. Ofereceu-me chicharro frito, ou carapau, como queiram chamar. Nós temos em Portugal. Aqui é conhecido por peixe-macaco. E quatro diferentes peixes crus, quatro casos de peixe cru, que nunca tinha comido peixe cru. Não sou amante de sushi. Frango frito com uns legumes fritos também muito bonitos, muito estranho. O frango não, mas os legumes são muito estranhos também.
Ok.
E bifinhos.
Olha.
De vitela. E muita cerveja.
O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
O do Japão.
O Japão é difícil. Por quê?
Foi muito fácil o Japão. O difícil foi chegar ao Japão, porque eu precisava de um documento que não tinha, por opção. Ou tinha esse documento, que é o CPD, Carnet de Passages en Douane, que é pra moto. Ou tinha o CPD ou viajava, porque o CPD eu tinha que deixar ficar em Portugal 8 mil € de caução. E eu não tinha esse dinheiro, nem tenho esse dinheiro pra estar parado.
Pois.
Portanto, foi bastante difícil convencer a empresa do ferry a transportar-me, porque eles não me queriam transportar. Foi uma semana de negociações.
Bem cansativo. A recordação de viagem mais cara?
Não tenho grandes despesas de viagem, mas talvez a reparação da moto o ano passado no Luxemburgo. Aliás, no Luxemburgo é tudo caro.
É um sítio onde nem se pode furar, que é caríssimo.
Fiz grandes amigos no Luxemburgo.
Disso não duvido, mas é um dos países mais caros da Europa. Uma câmara de ar no Luxemburgo é o preço de um pneu em Portugal.
Pois, não sei, mas paguei € 2.000 pra arranjar a moto no Luxemburgo.
Pois.
Mas, em contrapartida, conheci um grupo de portugueses com um clube MC, Cruzados MC, cinco estrelas, que puseram-me a dormir durante cinco dias no clube deles.
Incrível.
Levavam-me o pequeno-almoço, almoçavam comigo, ofereciam-me o almoço e o jantar.
Não acho tu não gostar de hotéis de cinco estrelas. Estou a perceber porquê. Olha, gostava de viajar com quem, Leonel?
Com ninguém, acho que não consigo viajar com ninguém. Prefiro viajar sozinho.
És um lobo solitário, é isso?
Não, porque tentei fazer isso este ano com um português e não dá.
Ok. Gostas de andar à tua velocidade.
Gosto de andar sozinho, no meu ritmo. Com o sérvio com quem viajei, éramos três. Era o sérvio e não me lembro da nacionalidade dele, que vive em França. Atravessámos de Antalya até à Geórgia, praticamente, toda a Turquia, mas saíamos e o primeiro que chegasse ao hostel mandava mensagem. Cada um seguia no seu ritmo e normalmente até por estradas diferentes.
Ok.
Não vale a pena.
Muito bem. Chegamos ao fim, Leonel. Música, qual foi a música que trouxeste?
Música. Eu estive a pensar na música e é uma música que tem muito a ver com esta viagem. Com esta introspectiva pessoal, que é a "Horse With No Name". É uma música que agora me falha o nome do grupo.
America, "Horse With No Name".
America, exatamente. É uma música cuja letra tem a ver com esta minha viagem de autodescobrimento, novas terras, novas paragens, novas pessoas. Acho que é essa a música, é uma música que ouço muitas vezes por acaso.
Ok, muito bem. Leonel, foi um gosto. Boa continuação de uma ótima viagem. Vamos falar daqui a seis meses quando estiveres num hostel no Alasca. Fica combinado?
Não, demora mais tempo até ao Alasca.
Mais tempo.
Demora mais tempo. Porque ali na América do Sul a gente faz mais amizades, fica mais tempo.
Isso, o mundo latino aproxima, não é? Muito bem.
É possível que eu vá visitar alguns amigos também.
Vamos falando, Leonel. Boa viagem, tem cuidado com a estrada.
Obrigado.
E foi um gosto.
Igualmente.
Até a uma próxima.
Até a uma próxima. A minha despedida vai ser a mesma do costume. Façam o favor de ser felizes, beijinhos e abraços.
Muito bem. "Horse With No Name", os America a fechar a conversa do Fim do Mundo desta semana. Estamos de regresso hoje oito dias, já sabem, sejam bons e boas viagens.
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