Eles usaram o Claude para atrair 10 mil usuários em plataforma de saúde (e não gastaram um centavo)
RESUMO +
A Health Data Avatar lança nesta semana a versão beta de seu aplicativo, após alcançar mil novos cadastros por dia. A startup britânica usa IA para reunir exames, receitas e anotações em um histórico médico controlado pelo paciente, pesquisável e traduzível. Mais de 10 mil pessoas usam gratuitamente a plataforma, que tem o Brasil entre seus principais mercados.
Quando quebrou o braço durante uma viagem à Tailândia, um alemão que convive com diabetes entregou o celular ao médico que o atendia. Na tela, um aplicativo traduziu para o idioma local suas alergias e as informações clínicas relevantes para a consulta, sem que ele precisasse explicar, em uma língua que não dominava, anos de acompanhamento médico.
O usuário era um dos primeiros da Health Data Avatar (HDA), startup britânica que tenta resolver na saúde um problema que o setor financeiro resolveu há décadas. Conta bancária, cartão e histórico de transações acompanham o cliente em qualquer país — mas o prontuário médico continua preso ao hospital, ao laboratório ou ao sistema de saúde onde foi criado.
A ideia para a empresa nasceu de um trabalho anterior ao código. Há 12 anos, Maria Sergeeva, de 33 anos, cofundadora e CEO da empresa, atua como voluntária na defesa de pacientes, acompanhando pessoas em diagnósticos complexos. Com formação clínica em psicologia e passagens pelo NHS, o sistema de saúde público britânico, ela viu o mesmo padrão se repetir em casos diferentes.
"Algumas pessoas perderam diagnósticos por terem tudo em vários lugares e não em um só. Não tinha como entender o paciente sem tudo estar conectado", diz Sergeeva em entrevista à EXAME. "Com a saúde, parece que não somos donos dos nossos dados. Queremos que as pessoas tenham o controle de sua saúde, não importa quão espalhadas essas informações estejam."
O projeto ganhou forma em setembro de 2024, ao lado de Hex Miller-Bakewell, de 36 anos, hoje cofundador, diretor de tecnologia e seu noivo. A motivação dele também era pessoal: ao se mudar para o Reino Unido na infância, o registro de suas alergias não o acompanhou.
Para superar esse gargalo, a HDA constrói um registro de saúde longitudinal controlado pelo próprio paciente — ou seja, um histórico contínuo, controlado pelo próprio paciente. O usuário envia exames, receitas, imagens e anotações, e um sistema de inteligência artificial (IA) organiza tudo em uma linha do tempo pesquisável, que pode ser resumida em qualquer idioma e compartilhada em camadas com médicos ou cuidadores. Em alguns países, a empresa tem acordos diretos com hospitais para facilitar o processo.
Em vez de começar por um aplicativo próprio, a HDA funciona como conector do Model Context Protocol (MCP), padrão aberto lançado pela Anthropic em novembro de 2024 para conectar assistentes de IA a dados externos. O protocolo é hoje suportado pelo Claude, ChatGPT, Gemini e Copilot e, em julho, se aproximava de meio bilhão de downloads por mês, segundo seus mantenedores.
A escolha, segundo Sergeeva, foi pensada para não deixar ninguém de fora. Aplicativos costumam funcionar melhor em um sistema operacional do que em outro, e a versão web elimina essa barreira. "Queremos que todos possam usar, já que alguns apps são melhores apenas para alguns sistemas. É possível acessar a plataforma de um computador ou celular antigo", diz. A interface foi desenhada para exigir pouco processamento do aparelho, o que ela chama de interface de baixa demanda.
Mas os planos mudaram — por um bom motivo: a empresa cresceu rápido demais.A HDA chegou a receber mil novos cadastros por dia, e boa parte deles queria algo que a versão web não entregava com facilidade, conectar relógios, aplicativos de exercício e outros dispositivos ao histórico médico. "Estouramos. Chegamos a mil usuários por dia e mudamos todos os nossos planos", diz Sergeeva.
Um aplicativo próprio, em versão beta, entra no ar nesta semana.
Trabalho a quatro mãos
Um aplicativo próprio, em versão beta, entra no ar nesta semana. Por trás desse volume, a equipe em tempo integral tem só duas pessoas: Sergeeva e Miller-Bakewell.
"Às vezes precisamos lidar com pedidos de suporte que chegam de noite. É uma maldição e uma bênção, porque não temos períodos de folga", diz. "Algumas coisas na vida doméstica não são feitas, como limpar e comer direito, o que é irônico para fundadores de uma empresa de saúde."
Para evitar que a infraestrutura cedesse, a empresa passou a limitar o processamento de IA por usuário. Mais de 10 mil pessoas usam a plataforma de graça, o que a fundadora reconhece como um risco para o negócio.
No meio disso, o Brasil virou um dos principais mercados sem nenhuma campanha. "Os brasileiros estão mais abertos a novas tecnologias e querem explorar", diz Sergeeva, que cita os pedidos de integração com o Strava.
Por aqui, o Brasil já tem uma das maiores iniciativas públicas do tipo: a Rede Nacional de Dados em Saúde, do SUS, reúne 4,1 bilhões de registros públicos e privados, acessíveis pelo aplicativo Meu SUS Digital, que tinha 29 milhões de usuários ativos por mês em setembro de 2025.
A diferença está em quem controla o dado. No sistema público, os registros são de responsabilidade dos gestores de saúde, e o usuário não pode incluí-los nem corrigi-los.
O paciente ou o cliente corporativo
Depois de dois anos sem capital externo, a HDA está em processo de captação, com o objetivo de dar conta de contratos com empresas que já estão na mesa. A pressão dos investidores é conhecida: priorizar clientes corporativos, como clínicas e seguradoras, em vez do paciente.
Na América Latina, as healthtechs captaram US$ 253,7 milhões em 2024, alta de 37,6%, mas em menos rodadas, e as maiores foram de empresas que vendem para hospitais e médicos, segundo o Distrito e a Associação Brasileira de Startups de Saúde.
"Todas as soluções de saúde no momento são voltadas para os negócios, e é muito interessante ver se vamos sobreviver com essa abordagem voltada para os usuários", diz Sergeeva. "Somos os sujeitos passivos desses dados. As clínicas têm dados sobre a gente, os aplicativos têm dados sobre a gente. Mas o único elo que conecta tudo isso somos nós."
A meta, afirma Sergeeva, é que uma pessoa acesse o próprio histórico de saúde com a mesma facilidade com que abre o aplicativo do banco. Em qualquer país, inclusive quando quebra um braço na Tailândia.
Perguntas frequentes
O que é a Health Data Avatar? +
A Health Data Avatar é uma startup britânica que cria históricos médicos digitais controlados pelos próprios pacientes. A empresa foi fundada em setembro de 2024 por Maria Sergeeva e Hex Miller-Bakewell.
Como funciona o prontuário médico da Health Data Avatar? +
O usuário envia exames, receitas, imagens e anotações, e um sistema de inteligência artificial organiza os dados em uma linha do tempo pesquisável. O histórico pode ser resumido em diferentes idiomas e compartilhado em camadas com médicos ou cuidadores.
A Health Data Avatar funciona com ChatGPT e Claude? +
Sim. A plataforma funciona como um conector do Model Context Protocol, padrão aberto usado por Claude, ChatGPT, Gemini e Copilot para acessar dados externos. Segundo os mantenedores do protocolo, o MCP se aproximava de meio bilhão de downloads mensais em julho.
Por que a Health Data Avatar decidiu lançar um aplicativo? +
A empresa mudou os planos após chegar a mil novos cadastros por dia e receber pedidos para conectar relógios, aplicativos de exercícios e outros dispositivos ao histórico médico. A versão beta do aplicativo entra no ar nesta semana.
Quantas pessoas usam a Health Data Avatar? +
Mais de 10 mil pessoas usam gratuitamente a plataforma. Apesar do volume de usuários, a equipe em tempo integral é formada apenas pelos fundadores Maria Sergeeva e Hex Miller-Bakewell.
Qual é a diferença entre a Health Data Avatar e o Meu SUS Digital? +
A Health Data Avatar permite que o paciente envie, organize e compartilhe o próprio histórico médico. Na Rede Nacional de Dados em Saúde, que reúne 4,1 bilhões de registros acessíveis pelo Meu SUS Digital, os gestores de saúde controlam os dados, e o usuário não pode incluí-los nem corrigi-los.
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