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Sunday, August 30, 2026

O português que simulou 100 dias de missão espacial isolado

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Diogo Paupério Abreu foi escolhido pela ESA para simular os efeitos do isolamento espacial numa sala de 130m² durante 100 dias. O engenheiro português partilhou a sua experiência com o Observador.

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Todos os dias, às 7h, os alarmes tocavam. Fora das cápsulas em que cada um dos seis elementos da tripulação dormia, esperava-os uma sala com paredes brancas e uma luz na mesma tonalidade. Não havia janelas. O contacto com o exterior acontecia duas vezes por dia, através de altifalantes, com o controlo de missão, mas também por videochamada com a família durante duas horas ao fim de semana. Era uma autêntica missão espacial. Mas não aconteceu longe da órbita terrestre, numa longa viagem até Marte, como se procurava simular. Durante 100 dias, Diogo e os outros cinco elementos da missão SOLIS100 — ele, português, que se juntou a um alemão, uma polaca, um francês, uma neerlandesa e uma italiana. Estiveram confinados numa sala em Colónia, na zona oeste da Alemanha.

As missões espaciais análogas não são uma novidade. Aliás, a Agência Espacial Europeia já tinha conduzido um estudo de 520 dias de isolamento, em parceria com as agências russa e chinesa, para simular estas mesmas condições. Este estudo da ESA e do centro aeroespacial alemão (DLR) procurou também avaliar outros efeitos psicológicos e fisiológicos de uma missão de longa duração, como as que vão acontecer até Marte no futuro, apenas descartando o ambiente de microgravidade — e agora com tecnologia mais desenvolvida, já que a Mars-500 aconteceu há mais de uma década.

Para isso, lançaram um concurso para escolher seis voluntários de seis países europeus diferentes. Diogo Paupério Abreu foi um dos escolhidos. Naqueles 100 dias, quase não falou português — a não ser naquelas duas horas semanais, em que trocava a língua materna com o inglês por ser o idioma mais falado naquela sala de 130m2.

À exceção do período de oito horas em que dormiam (e tinham mesmo de ser oito horas, porque a qualidade do sono era um dos parâmetros meticulosamente analisados todas as noites), Diogo esteve sempre na companhia de Julia, Remy, Flavie, Nadine e Ramin. Mesmo nos “tempos livres” em que não tinham de fazer experiências científicas e que podiam aproveitar para ler, ver um filme ou série ou jogar um jogo de tabuleiro. Colado ao exterior dos pods (as cápsulas que tinham para dormir), havia uma “To do list“, uma lista de atividades a fazer. Além das tarefas da própria missão, essa lista incluía também “aprender todas as capitais do mundo”, por exemplo.

Entre o mês de maio e o mês de agosto, Diogo esteve (quase) totalmente isolado do mundo. Quase, porque cada elemento da tripulação tinha acesso a uma “newsletter” com os títulos das principais notícias do país. “Não sabia bem o que estava a acontecer em pormenor, mas fomos acompanhando os problemas da atualidade, da política e da religião em vários países”, relata ao Observador.

Um dos grandes eventos globais que Diogo teve de acompanhar de forma indireta foi, por exemplo, o Campeonato do Mundo. “Sou um português que gosta muito de Portugal e pude representar o país nesta missão, o que me deixou muito feliz. Também gosto de futebol, pelo menos de acompanhar Portugal, por isso foi um momento um bocadinho triste quando soube numa chamada com a minha família que Portugal tinha sido eliminado”, confessa. Diz, também, que sentiu um “desfasamento” com as novas tendências que circulavam na internet, o que serviu de “prova” de que estiveram “efetivamente isolados”.

Entretanto, já se passaram mais de duas semanas desde que Diogo regressou a casa, no Porto, e ao INESCTec, onde vai começar o seu doutoramento. Na conversa com o Observador, revela que adotou alguns comportamentos e filosofias daqueles 100 dias em que se viu isolado da civilização e conta que continua em contacto com aqueles que se tornaram seus “amigos para a vida”.

Diogo Paupério Abreu foi um dos seis elementos da missão e o único português a participar no projeto

DLR Fotomedien KP

Experiências, exercício e convívio. Como era a rotina naquela sala de 130m2?

Mesmo com os 100 dias passados sempre entre aquelas quatro paredes, e com o grupo bem isolado do exterior, não houve dois dias exatamente iguais. “Havia alturas com a agenda completa. Isso dependia do dia da missão: normalmente, os dias mais preenchidos eram no dia 30, 60 e 90, mas também de 10 em 10 dias tínhamos a recolha de amostras biológicas mais concretas. Esses dias eram cheios e trabalhávamos de manhã à noite”, explica Diogo Paupério Abreu. A parte das experiências científicas é, na sua maioria, confidencial, até a Agência Espacial Europeia decidir divulgar as conclusões do estudo.

O principal objetivo da missão era “isolar o isolamento” de uma excursão espacial. Ou seja, pegar num pequeno aspeto de uma viagem de longa duração e tentar perceber o impacto que tem no indivíduo e na equipa. Utilizando aparelhos específicos para esse efeito, mas também através da gravação de diferentes tipos de vídeos, os responsáveis pelo estudo tiveram a oportunidade de analisar as alterações de humor, de stress, a dinâmica da equipa e até a própria componente cognitiva de cada um dos elementos.

Ao mesmo tempo, eram submetidos a avaliações psicológicas e fisiológicas com bastante frequência, através da recolha e análise de urina, fezes, sangue e cabelo, para perceber como a tripulação estava a adaptar-se à missão. A estas vertentes analíticas e práticas, aliava-se uma avaliação individual mais subjetiva da perceção de cada um à missão, com questionários sobre o convívio com a equipa e mudanças de estado de espírito com o decorrer do estudo.

Os equipamentos para realizar todas estas atividades previstas no plano de missão estavam disponíveis naquela mesma sala de 130m2. O espaço central, a main room, tinha as seis cápsulas individuais ventiladas e uma mesa que servia de estação de trabalho, onde não só faziam as reuniões e os briefings com a equipa no exterior, mas também comiam todas as refeições em conjunto. Lá, tinham um grande ecrã afixado na parede, que utilizavam tanto para fins profissionais como para ver filmes ou séries nos momentos lúdicos.

“Do lado esquerdo”, como projeta Diogo em conversa com o Observador, estava a “zona de desporto”. Com uma bicicleta estática, uma passadeira e um banco com pesos livres que iam até aos 20 kg, a tripulação tinha de seguir um plano de exercício físico que estava inserido na sua rotina diária. “Acabávamos por puxar o banco um pouco para o meio da sala quando íamos fazer um treino de resistência e regressávamos com os pesos para o sítio correto a seguir, para não estarem a estorvar o trabalho dos outros”, conta.

Ainda havia uma cozinha completa, o que vai contra um dos princípios-chave das missões espaciais: tudo o que seguir a bordo tem de ter algum tipo de utilidade prática. Aquela cozinha vinha equipada com um frigorífico e um forno, mas que acabaram por estar desligados durante aqueles 100 dias. Isto porque toda a comida, à semelhança de uma verdadeira missão na Estação Espacial Internacional, estava empacotada e desidratada. Por isso, só precisavam dos dois micro-ondas e chaleiras para aquecer os alimentos cuidadosamente preparados.

“Era comida desidratada de longa duração e conservas. Muita da comida era vegetariana e até vegan”, confessa o engenheiro portuense, que destaca os pratos à base de “peixe enlatado” e “algumas sobremesas” como algumas das suas experiências gastronómicas favoritas dentro da sala no :envihab, o espaço desenhado pelo DLR para estudos de isolamento.

Para além da main room, da cozinha e da “sala de desporto”, havia ainda duas casas de banho, com sanita e chuveiro. Mas os banhos só aconteciam duas vezes por semana e durante apenas cinco minutos. “Era o número máximo de vezes que podíamos tomar banho durante a semana. Clicávamos num botão, um temporizador começava a correr, a água abria e fechava no final. Podíamos escolher quando tomar banho no nosso período mais livre. Comunicávamos com o Mission Control a avisar que naquele período estaríamos livres e perguntávamos se haveria algum problema em tomar o nosso banho nessa altura”, recorda Diogo, fazendo o paralelismo com as missões espaciais, onde os “banhos” também são uma tarefa secundária.

Nas paredes da "main room", os elementos da missão delinearam objetivos pessoais e organizaram dinâmicas de grupo para promover o convívio

DLR Fotomedien/Felix Oprean

Os papéis definidos, a horizontalidade e as interações de equipa

Na equipa havia dois “medical officers“. Eram os responsáveis pela recolha das amostras e pela análise, escolhidos a dedo pela equipa médica das agências organizadoras. Mesmo assim, Diogo também recebeu formação nesse sentido, para estar preparado para realizar as mesmas tarefas, caso se revelasse necessário. “Os dias de treino antes da missão foram duas semanas muito intensivas, por isso o tempo tinha de ser utilizado da melhor maneira”, refere.

Tal como em qualquer missão espacial, cada elemento da tripulação tinha um papel a desempenhar. “Tínhamos um comandante e o seu braço direito, os medical officers e o data officer, o responsável por fazer o upload de algumas experiências — embora todos fizéssemos o upload de dados todos os dias”, explica o português. Contudo, Diogo, que ficou com o título de crew member, agindo como reforço para todas as atividades, descreve que a organização interna era “bastante horizontal” em termos de responsabilidades.

Uma das tarefas diárias que tinham de realizar era a “Word of the Day”. Num quadro branco, que estava afixado no interior da main room, leem-se as últimas “palavras do dia” escritas em sete línguas diferentes. Do lado esquerdo aparecia em inglês, mas depois surgia em alemão, neerlandês, italiano, francês, português e polaco, representando os idiomas de cada um dos elementos da tripulação. Era uma tarefa diária, mas acabou por ser algo organizado pelos próprios membros da missão, não das agências responsáveis pelo programa.

“Deram-nos total liberdade para usar o tempo livre além das experiências como quiséssemos. Podíamos escolher ficar isolados nas nossas cápsulas a ler um livro sozinhos, mas gostávamos de partilhar esses momentos”, afirma Diogo. Todos estavam lá pela mesma razão. O português até menciona uma particularidade do processo de seleção: “Escolheram pessoas que gostam de resolver problemas e não de os criar”. Compara os elementos “a uma família” que, quando encontrava divergências, “nunca deixava passar um problema para o dia seguinte”.

“Se houvesse alguma coisa para falar, falávamos e resolvíamos no próprio dia”, acrescenta Diogo. “Após 100 dias, aproximámo-nos tanto e conhecemo-nos tão bem que acabam por surgir aqueles pequenos problemas operacionais, como lavar a louça, limpar o espaço ou executar uma experiência”, descreve. Pela natureza profissional da experiência, afasta uma comparação ao ambiente de proximidade criado num reality show, mas sublinha que, à margem do trabalho que todos estavam lá para cumprir, houve espaço para o convívio e que se deram todos “muito bem”.

Para além destes momentos recreativos que escolhiam viver em comunhão, havia um período de reflexão conjunta previsto no horário semanal. Juntavam-se à volta da mesa para pensar como se podiam ajudar uns aos outros e melhorar como grupo. “Numa das semanas discutimos precisamente o porquê de estarmos ali. Tínhamos razões diferentes, vínhamos de países e contextos diferentes, mas partilhávamos objetivos comuns que nos davam essa compatibilidade”, partilha Diogo.

A equipa da missão SOLIS100: Diogo, Remy, Flavie, Nadine, Julia e Ramin (por ordem, da esquerda para a direita)

DLR Fotomedien/Felix Oprean

A reaproximação de uma paixão de “sempre” e o processo de recrutamento

“Sempre adorei a área do Espaço”. De facto, como pano de fundo da videochamada que fez com o Observador, Diogo exibe um telescópio que comprou quando tinha apenas 13 anos. Ainda chegou a equacionar seguir Astronomia na universidade, mas optou por escolher Engenharia Eletrotécnica e de Computadores no Instituto Superior de Engenharia do Porto, por também “adorar” a área da robótica e dos computadores. “Não achava que pudesse juntar as duas coisas”, confessa.

Foi só no mestrado que se abriu uma porta para misturar estas duas paixões. Com um convite da sua orientadora, a engenheira Ana Pires (também a primeira cientista-astronauta portuguesa), Diogo acabou por participar numa missão análoga em Monsaraz, naquela que seria a primeira deste género a ser realizada em Portugal. Durante 13 dias, Diogo foi o engenheiro de voo naquele habitáculo no meio do Alqueva. Neste papel, foi o responsável pelas operações técnicas de todos os sistemas, sejam eles de comunicações ou de ambiente, num cenário de isolamento.

“Fiz essa missão pelo crescimento pessoal, mas também para voltar aos meus sonhos de infância e contribuir para a investigação espacial”, admitiu. E foi a partir destes 13 dias que teve conhecimento da missão que viria a protagonizar. “Candidatei-me, passei as várias fases e fui selecionado”, descreve o português. Tudo se alinhou para Diogo conseguir participar nesta experiência. “Estava com uma bolsa de investigação que terminou, e por coincidência as datas bateram certo”, afirma.

Diogo pertence a um laboratório de investigação na área da robótica e, apesar de estar mais associado a projetos ligados ao Mar, o grupo começou a expandir as suas operações para o setor espacial. “Vi o SOLIS100 como uma oportunidade de crescer nessa área”. Foram feitos vários testes psicotécnicos e avaliações até encurtar a longa lista de candidatos e terminarem com os seis que acabaram por ser selecionados. Os candidatos tinham que apresentar um “perfil semelhante ao de um astronauta”, lê-se no edital de candidatura partilhado pelo DLR.

A tripulação partilhou um abraço emotivo à saída da sala onde estiveram isolados durante 100 dias

DLR Fotomedien KP

A perceção do tempo em isolamento, que ora “voa” ora “custa a passar”

Durante uma grande parte do dia, os candeeiros iluminavam as divisões com uma luz branca intensa. Às 20h45, a luz ficava amarela. “Era o período de que gostava mais, porque ao final do dia cansa ter a iluminação e a sala completamente branca”, afirma Diogo. Esta transição é idêntica à que acontece na Estação Espacial Internacional, pelo que o objetivo era replicar ao máximo as condições naquele ambiente espacial (tirando, claro, o ambiente de microgravidade). Depois, entre as 23h e as 7h, ficava uma luz de presença mais escura, para incentivar o descanso — e as tais oito horas de sono que eram monitorizadas.

Mas sem janelas e sem acesso direto ao Sol, com a quantidade de estímulos exteriores reduzida, sentiam-se completamente isolados. “Nunca ouvi pessoas na rua. Se ninguém falasse dentro do habitat e não houvesse nenhum barulho, era o silêncio total”, descreve o engenheiro português. A rotina ajuda a manter algum tipo de noção temporal. Mas mesmo o relógio, que estava sempre no pulso de Diogo, não ajudava.

“No início, estava muito entusiasmado e tínhamos o objetivo claro de superar os 100 dias, motivados pelo gosto pela investigação. Nas primeiras semanas, a perceção do tempo foi muito rápida. Uma coisa que eu dizia muitas vezes nos vídeos diários era que os dias me pareciam meios-dias. Dias de 12 horas [de atividade] pareciam ter apenas 6 horas”, explica o português. O entusiasmo e o sentimento de missão estavam presentes em cada um e, com eles, uma ideia de que “o tempo passava a correr”. O problema chegou sensivelmente a meio do projeto.

Ansiosos por atingir a marca do dia 50, o ponto intermédio do estudo, os dias começaram a ficar “mais lentos” — mesmo sem alterações significativas à rotina. “Custaram um bocadinho mais a passar”, admite Diogo. A excitação nunca desvaneceu, mesmo que a perceção do tempo se tenha alterado naquele período. “Já no final da missão, entre o dia 90 e o 100, não sentia isso. Havia o objetivo de concluir o estudo, mas também traçámos muitas metas pessoais. Somos pessoas ambiciosas e gostamos de aprender”, confessa.

Entre o “jogo” da palavra do dia, que aproveitaram para utilizar como método de aprendizagem de cada um dos idiomas representados naquela sala, e as tarefas escolhidas pelo controlo de missão, os elementos da tripulação viram a oportunidade para definir objetivos de crescimento individuais. Aliás, com o crescente sentimento de que o tempo “demorava mais a passar”, o que começou a ter um efeito no estado psicológico dos participantes, procuraram cada vez mais encontrar “escapes”. “No final, tínhamos tantas metas: mandar cartas à família e aos amigos a agradecer o apoio, acabar de ler 10 ou 20 livros. O tempo acabou mesmo por passar a voar”, refere Diogo.

“Tivemos tanta preparação e tantos objetivos no final que não senti o tempo a abrandar. Na fase final, foi muito rápido”, remata.

À saída da sala onde estiveram isolados, estava uma mesa com comida vinda dos vários países representados na missão — incluíndo pastéis de nata

DLR Fotomedien/Felix Oprean

Um pastel de nata e um olhar introspetivo para o infinito: a saída triunfante após 100 dias

A palavra do centésimo dia, escrita a vermelho no topo do quadro branco, não podia ser outra. Freiheit, Vrijheid, Liberté, Libertà, Wolność e claro, Liberdade. Ao fim de 100 dias confinados naquela sala branca que “faz lembrar um hospital”, Diogo, Julia, Remy, Flavie, Nadine e Ramin estavam prontos para abrir aquelas portas pela primeira vez. Na verdade, a porta teve de ser aberta do lado exterior, mais um comprovativo de que estavam, efetivamente, isolados.

Às 9h13 de dia 1 de agosto, exatamente 100 dias depois de terem entrado no :envihab, os seis membros da tripulação foram recebidos com aplausos e confettis dourados, um símbolo do marco que tinham acabado de atingir. “Quando saímos, estava a equipa de apoio inteira — cerca de 30 a 40 pessoas — à nossa espera a olhar para nós, e isto num fim de semana”, recorda Diogo. No meio das “muitas emoções” que surgiram ao mesmo tempo e que tornaram o momento difícil de processar, houve logo um estímulo que se sobrepôs a tudo.

No final do longo corredor das instalações do centro aeroespacial alemão (DLR), viram, pela primeira vez em mais de três meses, o Sol. Num momento emotivo e quase retirado de um filme, os seis largaram tudo e correram em direção à luz. “Estava um dia excelente, muito calor, sol e quase sem nuvens”, descreve o português, que brinca que estas condições meteorológicas não eram “garantidas” na cidade de Colónia. “Foi um dia excelente”, repete.

No jardim que bordeja as instalações do instituto de medicina aeroespacial, a tripulação voltou a sentir o contacto dos raios luminosos com a pele e mesmo o vento, algo que Diogo admite que não estava à espera — ou em que tinha sequer pensado — sentir saudades. “Lembro-me de ter ido passear um bocadinho pelo campus do DLR. Sentei-me num banco, o dia estava perfeito, era fim de semana e não estava lá ninguém. Lembro-me perfeitamente de olhar para as árvores e para as folhas a cair”, torna a referir Diogo.

Este reencontro com a natureza, como seria de esperar, abriu as portas a momentos mais introspetivos. “Pensava no Sol e no vento, mas foi olhar para o horizonte, para o infinito, que me fez realmente perceber que o mundo é enorme. Foi um momento muito marcante e fez-me pensar se voltaria a repetir a experiência”, desabafa o engenheiro portuense.

A este momento, em que as saudades de casa e dos mais próximos estavam ao rubro, aliou-se um momento que aproximou os elementos da missão das suas respetivas terras. “O Mission Control fez-nos uma surpresa e trouxe um bocadinho de cada país representante”. À saída da sala, encontrava-se uma mesa com vários alimentos. Entre fruta, queijos e pão, Diogo foi “atacar logo” aquilo que trouxeram especificamente para si. Oriundos de uma pastelaria portuguesa situada no centro de Colónia, a equipa da ESA e do DLR apresentou uma caixa com vários pastéis de nata. “Não posso dizer que me soube mal, porque soube mesmo muito bem”, confessa, referindo que só depois do doce é que procurou a fruta em cima da mesa.

Após terem ficado “livres”, os dias que se seguiram continuaram “intensos”. Foi uma semana dedicada à “recovery“, à recuperação do tempo em isolamento, em que os especialistas recolheram vários dados para conseguirem comparar com os que foram recolhidos no início e no decorrer da missão. Mas há algo que, fisiologicamente, não ficará registado nestas análises. “Um dos momentos marcantes foi após essa semana, quando comecei a apreciar de forma diferente as pequenas coisas”, partilha Diogo.

“Na primeira semana, nenhum de nós queria usar o telemóvel. Era quase como ter um objeto estranho, porque no habitat usávamos o tempo para conversar — à mesa, a fazer desporto —, por isso, usar o telemóvel parecia esquisito”, admite o português, indicando que por estar de volta à rotina que tinha antes da missão — entre o trabalho e o convívio com família e amigos —, já “não se pode isolar outra vez”. Agora, diz estar a tentar reduzir o tempo de ecrã e confessa que “não ter redes sociais durante 100 dias foi um excelente detox”.

Porém, sublinha que a maior mudança no seu comportamento após 100 dias de isolamento, “foi a perceção e o carinho pelas pequenas coisas da vida, desde a comida até à presença dos familiares e amigos” que o apoiaram.

Ao sair do :envihab pela primeira vez em 100 dias, a tripulação da SOLIS100 correu em direção de um jardim para apanhar sol

DLR Fotomedien/Felix Oprean

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