Como os bilionários da tecnologia estão se preparando para o fim do mundo
RESUMO +
Bilionários do setor de tecnologia vêm investindo milhões de dólares em bunkers, propriedades isoladas e outras estratégias de sobrevivência. Entre os motivos estão conflitos geopolíticos, desastres climáticos, instabilidade social e os próprios riscos associados ao avanço da inteligência artificial.
Teorias sobre o fim do mundo existem desde que — literalmente — o mundo é mundo. O que muda, de tempos em tempos, é quem leva essa possibilidade a sério o bastante para gastar milhões de dólares se preparando para ela. Hoje, boa parte desse grupo está concentrada no setor da tecnologia.
Não é coincidência. Em setembro, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio defendendo que as próprias empresas de inteligência artificial (IA) reduzam o ritmo de desenvolvimento dos modelos mais avançados, o que recebeu apoio público do CEO da OpenAI, Sam Altman, e de Elon Musk. Demis Hassabis, do Google DeepMind, concordou.
Além disso, um pesquisador da própria Anthropic chegou a pedir demissão da empresa por considerar que o setor "aposta com nossas vidas" na corrida pela superinteligência, e outro afirmou publicamente acreditar em mais de 10% de chance de a IA "matar toda a humanidade" dentro de uma década.
É claro que os motivos para que os bilionários do setor construam bunkers não são só o avanço da superinteligência — temas como conflitos geopolíticos, desastres climáticos e o temor de uma reação popular contra a concentração de riqueza também continuam no radar deles.
Em entrevista à revista The New Yorker, Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, estimou que mais de 50% dos bilionários do Vale do Silício possuem algum tipo de "seguro contra o apocalipse", que inclui desde um bunker elaborado até uma propriedade discreta em outro país. "É meio que um piscar de olhos dizer que você está comprando uma casa na Nova Zelândia", disse Hoffman, comparando a decisão à compra de uma casa de veraneio.
A Nova Zelândia, aliás, virou sinônimo do movimento. O investidor Peter Thiel, cofundador do PayPal, naturalizou-se cidadão neozelandês em 2011 e já chamou o país de "o futuro".
Ele tentou construir uma propriedade com estrutura semienterrada em Wanaka, no sul do país, mas o pedido foi negado em 2022 pelo conselho ambiental local, que considerou o projeto prejudicial à paisagem protegida da região.
Por dentro dos bunkers
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- Sam Altman (OpenAI): não confirma ter um bunker formalmente — diz possuir apenas "porões subterrâneos de concreto, bem reforçados". Em entrevista ao podcast This Past Weekend no ano passado, tentou driblar a pergunta do comediante Theo Von, que rebateu: "Isso é um maldito bunker, cara". Altman admitiu que o assunto "tem estado" em sua cabeça, "não por causa da IA, mas porque as pessoas estão jogando bombas no mundo de novo". Tamanho e custo não divulgados.
- Mark Zuckerberg (Meta): constrói, desde 2014, o complexo Koolau Ranch, de 570 hectares, na ilha havaiana de Kauai — a mesma onde Jurassic Park foi filmado. Documentos de planejamento mostram um espaço subterrâneo de cerca de 420 m², do tamanho de uma quadra de basquete da NBA, com sete quartos, sala de estar, cozinha, sala de máquinas e porta resistente a explosões. Todos os trabalhadores da obra assinaram acordos de confidencialidade. Custo estimado: US$ 270 milhões, entre terreno e construção. Zuckerberg minimiza a estrutura, chamando-a de "um pequeno abrigo".
- Peter Thiel (PayPal/Palantir): tentou construir uma propriedade com estrutura semienterrada em Wanaka, Nova Zelândia, país do qual se naturalizou cidadão em 2011 e que já chamou de "o futuro". O pedido de construção foi negado em 2022 pelo conselho ambiental local, que considerou o projeto prejudicial à paisagem protegida da região. Estimativa de custo citada em reportagens: cerca de US$ 13,5 milhões.
- Bill Gates (Microsoft): segundo o relato de um fabricante de bunkers ao Hollywood Reporter, teria "abrigos enormes sob cada uma de suas casas". Também aparece, sem confirmação direta, em listas de bilionários com túneis e redes subterrâneas publicadas pelo New York Post. Sem tamanho ou custo divulgado oficialmente.
- Ilya Sutskever (ex-cientista-chefe da OpenAI, hoje na Safe Superintelligence): segundo o livro Empire of AI, da jornalista Karen Hao, chegou a propor à equipe da OpenAI a construção de um abrigo subterrâneo para proteger os cientistas mais graduados da empresa antes do lançamento de uma inteligência artificial geral (AGI). "Definitivamente vamos construir um bunker antes de lançarmos a AGI", teria dito, segundo o relato. Não chegou a existir um projeto concreto, e não há custo ou localização associados.
- Larry Ellison (Oracle): não tem um bunker no sentido tradicional, mas comprou, em 2012, quase a totalidade da ilha havaiana de Lanai por US$ 300 milhões, hoje em desenvolvimento como um destino turístico de luxo — um caso citado junto aos bunkers por analistas como uma forma alternativa de isolamento geográfico.
O mercado bilionário dos bunkers de luxo
Esse tipo de demanda deu origem a uma indústria específica. Empresas como a americana Vivos Group, a Rising S Company e a checa Oppidum Bunkers vendem, hoje, abrigos subterrâneos com piscina, biblioteca, galeria de arte e academia — versões de mercado dos complexos que bilionários como Zuckerberg constroem sob medida.
A Oppidum, por exemplo, oferece um modelo de entrada batizado de "Futurist" a partir de 7,5 milhões de euros, com uma versão topo de linha avaliada em US$ 40 milhões, que inclui câmara de descompressão, energia autossuficiente e um cofre blindado para guardar obras de arte.
Já a Vivos Group opera o xPoint, a maior comunidade de bunkers do mundo, erguida na Dakota do Sul: são 575 unidades de cerca de 204 m² cada, com capacidade para 10 a 24 pessoas e distantes 120 metros umas das outras.
Para 2026, a empresa americana SAFE anunciou o Aerie, um clube subterrâneo para 625 membros com suítes de até 1.858 m², num projeto orçado em US$ 300 milhões no total.
Esse apetite crescente já aparece nos números do setor. O mercado global de bunkers subterrâneos foi avaliado em US$ 3,07 bilhões em 2022, segundo a consultoria Archive Market Research, com projeção de crescimento contínuo puxada por instabilidade geopolítica, desastres climáticos e o aumento do número de milionários no mundo — mais de 60 milhões de pessoas se enquadravam nessa faixa em 2024.
Fabricantes relataram picos de demanda de até 1.000% em determinados períodos de conflito, segundo a consultoria Spherical Insights, e a americana Atlas Survival Shelters, no Texas, afirma ter registrado forte alta em pedidos privados entre 2024 e 2025.
Além dos bunkers: o 'seguro contra apocalipse' dos bilionários
Nem todo bilionário de tecnologia aposta na mesma estratégia de sobrevivência. Alguns escolheram caminhos bem diferentes de cavar um buraco na terra — de cirurgias preventivas a planos de fuga para outro planeta.
- Steve Huffman (Reddit): não tem bunker, mas fez cirurgia a laser nos olhos em 2015 especificamente para não depender de óculos ou lentes de contato num cenário de colapso social. Guarda motos, armas, munição e comida em casa. "Se o mundo acabar — e nem precisa acabar, só ter problemas —, conseguir lentes de contato ou óculos vai ser uma dor de cabeça enorme", disse à revista The New Yorker.
- Yishan Wong (ex-CEO do Reddit e um dos primeiros funcionários do Facebook): também fez uma cirurgia ocular "para fins de sobrevivência", segundo a mesma reportagem. Para ele, o cálculo por trás da preparação é simples: "Os tech preppers não necessariamente acham que um colapso é provável. Eles consideram um evento remoto, mas com uma desvantagem muito severa — então, dado o quanto de dinheiro eles têm, gastar uma fração do patrimônio para se proteger disso é uma decisão lógica".
- Larry Page (cofundador do Google): aparece, sem tanto detalhe público, associado a investimentos em laboratórios de saúde voltados a prolongar a vida — uma aposta em "sobreviver ao apocalipse" pela biologia, e não pela arquitetura.
- Elon Musk (Tesla, SpaceX, xAI): descarta a ideia de se esconder embaixo da terra. Sua estratégia declarada de sobrevivência da espécie é sair dela: o argumento por trás da SpaceX é de que tornar a humanidade multiplanetária é a única forma de garantir sua continuidade diante de ameaças como asteroides ou uma IA fora de controle — o que, convenientemente, também o coloca no controle dos próprios foguetes usados para essa fuga.
Por que o pânico não é (só) sobre a IA
Diferentemente do que a piada da web sugere, os próprios bilionários costumam justificar essa cautela por motivos que vão além do medo dos sistemas que eles mesmos criam. Assim como Altman citou os conflitos armados como gatilho recente para pensar mais a sério no assunto, Hoffman também apontou incerteza política e o receio de uma eventual reação popular contra a concentração de riqueza como fatores por trás da corrida por refúgios.
Para pesquisadores que estudam o fenômeno, essa produção de bunkers de luxo revela algo além da sobrevivência física: um desejo de controlar por completo o próprio ecossistema, incluindo energia, comida e segurança, independentemente do que aconteça ao resto do mundo.
Perguntas frequentes
Por que bilionários da tecnologia estão construindo bunkers? +
Os motivos citados incluem conflitos geopolíticos, desastres climáticos, instabilidade política e social e preocupações com os riscos associados ao desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial.
Quais bilionários da tecnologia têm bunkers? +
Mark Zuckerberg constrói um complexo no Havaí com uma estrutura subterrânea de cerca de 420 m². Sam Altman afirma possuir "porões subterrâneos de concreto, bem reforçados". Peter Thiel tentou construir uma propriedade com estrutura semienterrada na Nova Zelândia, enquanto relatos também associam Bill Gates a grandes abrigos subterrâneos.
Quanto custa o bunker de Mark Zuckerberg? +
O complexo Koolau Ranch, construído por Zuckerberg na ilha de Kauai, no Havaí, tem custo estimado de US$ 270 milhões entre terreno e construção. O projeto inclui um espaço subterrâneo de aproximadamente 420 m² com sete quartos, cozinha, sala de máquinas e uma porta resistente a explosões.
Por que a Nova Zelândia virou destino de bilionários que temem o fim do mundo? +
O país passou a ser associado aos chamados "tech preppers" como uma opção de isolamento geográfico. Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, chegou a dizer que comprar uma casa na Nova Zelândia se tornou uma espécie de referência entre integrantes desse grupo. Peter Thiel se naturalizou cidadão neozelandês em 2011.
Quanto custa um bunker de luxo? +
Os preços podem chegar a dezenas de milhões de dólares. A empresa checa Oppidum oferece seu modelo Futurist a partir de € 7,5 milhões, enquanto uma versão de alto padrão é avaliada em US$ 40 milhões e inclui recursos como energia autossuficiente, câmara de descompressão e cofre para obras de arte.
Como os bilionários se preparam para um possível colapso além dos bunkers? +
As estratégias variam. Steve Huffman e Yishan Wong fizeram cirurgias oculares para reduzir a dependência de óculos ou lentes de contato. Larry Page é associado a investimentos em pesquisas sobre longevidade, enquanto Elon Musk defende tornar a humanidade multiplanetária como forma de reduzir riscos existenciais para a espécie.
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