CBF reduz o limite de estrangeiros e amplia espaço para jovens; entenda a mudança
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os clubes das Séries A e B aprovaram nesta segunda-feira, 21, mudanças que alteram a formação e montagem dos elencos do futebol brasileiro. A partir de 2027, o número de estrangeiros que cada equipe poderá relacionar por partida começa a cair, de nove para oito, até chegar a cinco em 2030.
A decisão ocorre poucos meses depois de a Seleção Brasileira ter feito sua pior campanha em uma Copa do Mundo desde 1990. Eliminado pela Noruega nas oitavas de final do Mundial de 2026, o Brasil voltou a cair antes das quartas pela primeira vez em nove edições consecutivas.
Apesar da influência do mundial, a mudança aprovada pela CBF não é uma resposta direta à eliminação. Ela parte de um diagnóstico mais amplo da entidade sobre a composição dos clubes brasileiros, a idade dos jogadores e o espaço ocupado pelos atletas formados nas categorias de base.
Por que a CBF quer rejuvenescer e 'abrasileirar' os times?
O estudo apresentado pela CBF Academy na segunda-feira mostra que a idade média dos jogadores da Série A passou de 27,3 anos em 2021 para 28,5 em 2026. Segundo o levantamento, o Brasil tem hoje a maior média entre as seis ligas analisadas, que incluem Espanha, Alemanha, Inglaterra, França e Itália.
O movimento também aparece na utilização de jogadores jovens. Em 2026, atletas brasileiros Sub-23 representam apenas 11,5% dos minutos disputados na Série A, contra 28,3% em 2020.
No sentido oposto, a participação de estrangeiros com mais de 23 anos cresceu. Entre 2020 e 2026, eles passaram de 7,8% para 25% dos minutos disputados, segundo os dados apresentados pela CBF.
A entidade relaciona esse cenário também à intensidade das partidas. O estudo aponta que o Brasileirão registra volume menor de corridas em alta velocidade e de sprints que as principais ligas europeias. Jogadores entre 18 e 24 anos, justamente a faixa que perdeu espaço, apresentam desempenho superior nessas métricas.
O diretor executivo da CBF, Helder Melillo, resumiu o diagnóstico da entidade ao afirmar em coletiva de imprensa que “os jogadores sub-23 brasileiros têm jogado cada vez menos”, enquanto o número de estrangeiros aumentou. A intenção, segundo ele, é “dar mais espaço para os jogadores sub-23 e melhorar a qualidade técnica dos nossos times, principalmente no médio e no longo prazo”.
O que muda para os estrangeiros?
A alteração será gradual. Atualmente, cada clube pode relacionar até nove estrangeiros por partida nas competições nacionais. O limite passará para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030.
Isso não significa que os clubes estarão proibidos de manter mais de cinco estrangeiros em seus elencos. A regra diz respeito aos jogadores que podem ser relacionados para cada partida.
A mudança representa a reversão do movimento de ampliação observado na última década. Em 2013, eram permitidos três estrangeiros por jogo. O número passou para cinco em 2014 e permaneceu nesse patamar até 2022. A partir de 2023, subiu para sete e chegou a nove em 2024.
Hoje, segundo O Globo, há 158 estrangeiros nos elencos dos 20 clubes da Série A. Botafogo e Vasco são os que têm mais, com 12 cada.
A redução aprovada teve três votos contrários: Flamengo, Bahia e Londrina. O argumento apresentado por Guilherme Bellintani, dirigente do Londrina, é que a medida pode reduzir a competitividade dos clubes brasileiros em relação aos rivais sul-americanos.
A própria decisão, porém, poderá ser revista. Vitor Ferraz, diretor do Bahia, afirmou que os clubes poderão “revisitar essa decisão e eventualmente alterá-la” durante o processo de discussão até 2030.
A cota para jovens muda a formação dos elencos
A redução dos estrangeiros vem acompanhada de outra mudança: a divisão da lista de 50 jogadores inscritos pelos clubes.
A proposta mantém o limite total de atletas, mas cria uma Lista A, para jogadores acima de 23 anos, e uma Lista B, destinada aos Sub-23. Em 2027, serão 30 vagas na primeira e 20 na segunda. A divisão evolui para 29/21 em 2028, 27/23 em 2029 e chega a 25/25 em 2030.
A regra, portanto, não obriga os clubes a colocar jovens em campo. Ela cria espaço para que eles estejam inscritos.
Segundo a CBF, a adaptação inicial terá impacto limitado sobre os elencos atuais: 33 dos 40 clubes das Séries A e B já possuem até 30 jogadores acima de 23 anos inscritos.
A mudança também tem uma dimensão econômica. Entre 2016 e 2025, jogadores de até 20 anos responderam por 50,1% das receitas brasileiras com transferências para o exterior consideradas no estudo. Dar menos minutos a esses atletas pode afetar não apenas a formação, mas a capacidade dos clubes de desenvolver e negociar novos talentos.
O que a reforma revela sobre o futebol brasileiro?
A decisão da CBF não se limita a estabelecer uma nova quantidade de estrangeiros. O conjunto das medidas aponta para uma tentativa de alterar a lógica de montagem dos elencos, com menos dependência de jogadores mais velhos, mais espaço para atletas em formação e uma busca por maior intensidade no jogo.
A própria CBF reconhece que os estrangeiros continuam tendo importância. “A medida [...] mantém um número importante de estrangeiros, entendemos a importância do estrangeiro no futebol brasileiro”, afirmou Melillo.
O objetivo declarado, portanto, não é fechar o mercado brasileiro, mas modificar seu equilíbrio. Depois de anos de aumento da presença de estrangeiros e de queda da participação dos jovens, a entidade tenta criar mecanismos para que os jogadores formados no país voltem a ocupar uma parcela maior do futebol profissional.
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