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Thursday, October 15, 2026

O fim do mundo segundo Greta

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Eu não queria escrever sobre Greta Thunberg. Na verdade, acho que já nem me lembrava bem de Greta Thunberg, apesar de ela ter estado nas notícias no ano passado por causa da flotilha. Mas eis que, no meio dos tumultos estudantis em França, ela reaparece, qual Joana D’Arc, solidária com os manifestantes franceses e a repetir a acusação de que lhe roubaram a infância, agora devidamente atualizada para um “estão a roubar-nos o futuro” (o que é um progresso porque, afinal, há futuro). Continuando a este ritmo, teremos Greta daqui a vinte anos a acusar o mundo de lhe roubar a meia-idade e, daqui a quarenta, uma velhinha a brandir uma muleta sob o Sol tórrido da Escandinávia e a vociferar contra aqueles que a privaram da velhice, dos benefícios do Estado Social e dos prazeres do bingo num cruzeiro (elétrico).

Isto começou há uns sete, oito anos, vejam bem, e, como não podia deixar de ser, nas Nações Unidas. Greta Thunberg discursou na cimeira da ação climática e havia algo de indignação profética nas palavras da jovem de 16 anos. Estava zangada, muito zangada, obscenamente zangada. O lugar dela, dizia, era numa sala de aulas do outro lado do oceano, mas a geração que trouxera o planeta à beira do colapso pedira-lhe para estar ali a falar em nome dos jovens de todo o mundo. E ela, contrariada e furiosa, aceitou falar. Num tom bíblico de ameaça, repetiu várias vezes a pergunta “como se atrevem?” e alertou os poderosos deste mundo: “vamos estar de olhos postos em vocês”. Para aqueles cujas pernas não ficaram logo a tremer, acrescentou: “Os olhos de todas as gerações futuras estão postos em vocês. E, se optarem por nos falhar, digo-vos isto: nunca vos perdoaremos. Não vos deixaremos escapar impunes.” Sempre muito católico e dado à autoflagelação, o beato António Guterres fez logo um pungente mea culpa geracional. Sim, a geração dele tinha falhado (embora, a ele, a vida não lhe tenha corrido nada mal) e a ira dos jovens era natural e mais do que justificada. (Depois de o dizer, retirou-se dali e, de galochas e com água pelos joelhos, chorou amargamente.)

Estávamos, se bem se lembram do discurso de Greta, no início de uma extinção em massa. Não é preciso ser-se cientista nem sequer moderadamente inteligente para se perceber que uma extinção em massa é coisa séria. Não é daquelas coisas que se resolvem com um chumbo do Tribunal Constitucional (“os juízes do Palácio Ratton deliberaram por unanimidade votar pela inconstitucionalidade da extinção em massa”). Nem é o tipo de assunto para o qual sirva de alguma coisa um debate no Teatro Thalia moderado pelo Carlos Daniel e com o alto patrocínio da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do Patriarcado de Lisboa. Não. Uma extinção em massa significa o fim do planeta tal como o conhecemos. Mas quem, como eu, cresceu numa religião milenarista, sabe que enquanto o apocalipse não chega uma pessoa tem de se ocupar com alguma coisa. Greta, que ainda terminou o secundário, apesar dos avisos do fim iminente do mundo, dedicou-se à pintura de aguarelas. Ah, não, desculpem. Dedicou-se à causa palestiniana e a criticar Israel, curiosamente o tipo de atividade à qual se dedicam a esquerda mundial, o povo irlandês, Roger Waters e alguns obscuros humoristas lisboetas. Agora, visto que o mundo teima em não acabar a horas, Greta juntou-se aos estudantes franceses (por este andar, qualquer dia vemo-la num protesto em Vizela contra descargas ilegais de uma suinicultura).

Entre outras considerações, disse à imprensa que esta geração já provou inúmeras vezes não estar para brincadeiras. E quem poderá discordar desta afirmação? Sim, houve gerações que se sacrificaram pela democracia, jovens de dezoito anos que morreram nas praias de terras alheias em nome da liberdade, mas teriam sido eles capazes de faltar às aulas para participar numa manifestação em Estocolmo? Tudo bem, combateram nazis na Normandia, mas alguma vez interromperam o trânsito da 2ª Circular a uma segunda-feira à hora de ponta e, em consequência disso, tiveram de enfrentar automobilistas mais furiosos e assustadores do que qualquer soldado da Wehrmacht? O que é que essas gerações de falhados alguma vez fizeram pela ínclita geração de Greta Thunberg a não ser dar-lhe smartphones, a Taylor Swift e, vá, a vacina contra o sarampo? Numa coisa sinto-me tentado a concordar com Greta: isto é bem capaz de ser o fim do mundo.

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