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Tuesday, October 13, 2026

Bloco central, choque frontal

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Uma das coisas aborrecidas na política portuguesa, entre muitas, é o facto de, atendendo à facilidade com que se vão produzindo narrativas ou elas se vão plantando no espaço público, termos sempre de andar a vasculhar o passado recente. Num par de semanas, um dos temas que, de forma mais ou menos discreta, ganhou espaço e, provavelmente, fará o seu caminho no debate público é o Bloco Central, isto é, a aliança possível entre PS e PSD como fórmula governativa que, julgam uns, será a fórmula possível de salvação do regime democrático, através desse putativo governo de salvação, assente na premissa de que o mesmo teria forçosamente de ser reformador, e, julgam outros, poderá ser a única via possível para manter o Chega afastado do poder.

Nos últimos anos, foi ganhando a forma de consenso o facto de nos encontrarmos a viver tempos politicamente perigosos porque a sociedade e a política estão polarizadas, como se isso fosse sequer um problema. Arrisco que, entre nós, a ideia foi ganhando forma à medida que se cristalizou, pelo menos durante um determinado período, a convicção de que o PSD, sob a liderança de Pedro Passos Coelho entre 2015 e 2017, se tinha tornado um partido radical, por oposição ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista, que passaram mesmo a ser considerados partidos social-democratas. Essa clivagem para com um partido, o PSD, que nunca deixou de manter uma base comum com os demais partidos do chamado arco da governação, nomeadamente quanto à existência e solvabilidade do Estado Social ou dos direitos, liberdades e garantias constitucionalmente previstos, ou mesmo do papel e lugar de Portugal no mundo e na Europa, foi deliberadamente provocada com o intuito de consagrar o PS como o partido hegemónico do regime. À sua esquerda tudo se resumiria a pó, duas forças políticas satisfeitas com opções políticas profundas que, terão presumido, não teriam consequências, liderando o PS o campo político à esquerda; à sua direita, apenas o caos, o radicalismo, o fascismo. O PSD, por alguma razão, resolveu comprar essa tese e achou, durante o reinado de Rui Rio, que o seu lugar era próximo do PS, e abandonar o seu lugar fundamental no sistema. O resultado está à vista: um sistema pulverizado e já não polarizado ao centro.

PS e PSD assumiram durante muitos anos a polarização necessária à sobrevivência de uma democracia. O choque e o confronto, a polarização entre forças políticas adversárias, ainda que partilhando e aceitando um chão comum de regras formais e procedimentais ou de princípios constitucionais, isto é, a polarização feita ao centro, é condição essencial a uma democracia sã, reformável e duradoura. Porém, como se foi entendendo no espaço público que o PSD não podia fazer outra coisa que não fosse anuir à hegemonia do PS e abandonar o seu papel de força dominante e liderante do espaço à direita dos socialistas, acabámos por chegar a esta situação de impasse em que, julgo que convictamente, o próprio PSD, ou a sua actual liderança, se convenceu de que podia tornar-se a charneira do regime – e, assim, garantir o seu domínio perante um PS a viver entre o radicalismo de que necessita para não perder espaço à esquerda e o centro que o aproxima do PSD, e um Chega que, supõe-se, seria eternamente rejeitado pela maioria dos portugueses, pelo que viveria para sempre arredado de vitórias eleitorais.

Ora, tudo isto é um erro. O PSD não podia ter abandonado, como abandonou, a ideia de que lidera e deve liderar o espaço não-socialista às mãos do Chega. É certo que tem tentado emendar a mão com o segundo Governo de Montenegro, mas a verdade é que durante o seu primeiro ano de mandato o PSD procurou exclusivamente o mesmo caminho trilhado pelo PS, com a ilusão de que alcançaria o resultado da maioria absoluta. Esse resultado, em tese, seria possível. O “não é não”, que, pelo menos em parte, garantiu que Pedro Nuno Santos perdesse as eleições de 2024, teria sempre de ter um programa e uma ambição reformadora que orientasse o Governo. Mas Montenegro optou por seguir o caminho do Costismo: distribuindo benesses aos reformados, acenando diminuições de IRS, arrecadando receita fiscal indirecta, não acenando com um programa político que mostrasse de forma evidente aos portugueses um resultado que não fosse o da simples sobrevivência do próprio PSD. Depois do referendo à conduta ética do Primeiro-ministro que foram as eleições de 2025, o marasmo manteve-se, por entre meia dúzia de ministros bem intencionados e a falta de uma liderança política do Governo.

E eis que chegámos às sondagens que começam a dar os sinais evidentes de que a AD pode perfeitamente não sobreviver a uma próxima eleição sem ser ultrapassada pelo Chega. E será, presumo, por essa razão que o Bloco Central entrou no debate público. O que levanta problemas, naturalmente: o fim da polarização ao centro, entre PS e PSD, não conduzirá ao resultado presumido, mas apenas à constatação final de que os dois partidos se encontram gastos, irreformáveis, incapazes de reformar, já não constituindo alternativas um ao outro, e chegando mesmo a recusar a ideia mínima da alternância entre ambos, ou seja, as alternativas e as alternâncias serão encontradas noutros lugares.

A minha dose de optimismo, porém, diz-me que o Bloco Central, sendo um desastre real, será necessário para que, falhando em toda a linha, possa vir a ser o primeiro passo para um segundo momento que passará pela recuperação da normalidade do sistema. Não sou adverso à ideia de que, não poucas vezes, é preciso destruir para edificar depois. Se precisamos desse choque frontal, então que venha o bloco central.

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